
Em 2010, o Brasil aguardava um
menino. Neymar ainda era promessa, mas já se destacava com urgência. No
Santos, ao lado de Ganso, carregava aquele tipo de futebol que não pede
licença: drible, ousadia, inventividade, um cabelo chamativo e a sensação de
que alguma coisa nova estava batendo à porta. O País queria ver aquele garoto
na África do Sul. Entretanto, o técnico Dunga, fiel à sua ideia de grupo,
hierarquia e segurança, preferiu não abrir a porta; Neymar ficou de fora da
Copa. Naquele dia, o Brasil descobriu que às vezes o futuro chega antes da
hora.
Dezesseis anos depois, não era mais o
garoto pedindo passagem. Era o craque marcado pelo tempo, pelas lesões, pelas
Copas perdidas, pelas críticas e pela esperança teimosa de quem ainda sabe que
pode decidir um jogo. E não poderia haver palco mais simbólico do que o Museu
do Amanhã, no Rio de Janeiro, para anunciar essa nova tentativa brasileira de
reencontrar o próprio destino.
O Museu do Amanhã é um
lugar feito para perguntas: de onde viemos, quem somos, onde estamos, para onde
vamos e como queremos ir. Por sua vez, a Seleção Brasileira chega à Copa de
2026 cercada por essas mesmas perguntas. De onde viemos? De um passado glorioso,
porém distante. Quem somos? A seleção mais vitoriosa da história, com cinco
estrelas que pesam mais a cada fracasso. Onde estamos? Num tempo de
reconstrução, agora sob o comando de Carlo Ancelotti, um técnico estrangeiro
tentando recuperar a alma do nosso futebol. Para onde vamos? Esta é a pergunta
que a convocação começa a responder. Como queremos ir? Com coragem para voltar
a acreditar.
Ancelotti chamou
Neymar. E, com ele, confirmou o critério que vinha repetindo: o talento nunca
esteve em discussão; a questão era saber se o corpo ainda acompanhava a
genialidade. O próprio treinador chegou a dizer que Neymar teria a mesma
responsabilidade dos outros jogadores, mas é impossível fingir que seu nome
pesa igual. Neymar não entra em uma lista: ele altera a temperatura dela. Se
foi o certo a se fazer, saberemos nas próximas semanas.
Neymar, agora, não é
mais o futuro que Dunga recusou em 2010. É o passado que quer ser
presente. É a memória tentando virar solução. É o menino que não foi
à África do Sul encontrando sua última chance de escrever um capítulo
diferente. Talvez essa convocação não diga apenas quem vai para a Copa, e sim
quem o Brasil ainda acredita ser. Porque no futebol, como no Museu do Amanhã, o
futuro nunca está pronto; ele é construído — com escolhas, riscos, coragem e,
às vezes, com um camisa 10 que o País já viu nascer, cair, voltar e insistir.
No fim, a pergunta que
fica não é só se Neymar deveria ter sido convocado. A pergunta é maior, mais
brasileira, mais incômoda: que amanhã essa Seleção ainda é capaz de
inventar?
