sexta-feira, 3 de julho de 2026

2026 | Por um Fio

 







O cabelo sempre foi um termômetro da época, com seus ciclos de rebeldia e obediência. O homem bem-penteado, de fios curtos e brilhantina, combinava com a elegância rígida dos anos 30, enquanto as mulheres já tinham transformado o corte curto em um sinal de modernidade desde os anos 20. Depois vieram os fios mais comportados do pós-guerra, a explosão comprida dos anos 60 e 70, o exagero armado dos anos 80, o liso disciplinado dos anos 90 e a liberdade atual, em que cabelo raspado, black power, coque, franja, mullet e madeixas longas convivem em harmonia no manual da moda. Mas, nessa Copa, nenhuma tendência capilar foi tão decisiva quanto a do croata Igor Matanović.

 



 












O confronto em Toronto foi mais um na história recente de Portugal e Croácia, marcada por muito equilíbrio. Os lusitanos começaram melhor, controlando o primeiro tempo e impondo o peso técnico de quem queria resolver logo um jogo que não perdoa a morosidade. Mas os croatas têm essa irritante mania de resistir, e Modrić seguiu regendo a seleção quadriculada em sua resistência corriqueira. Depois do intervalo, aos 8 min do segundo tempo, a seleção que espera a hora de atacar deu o bote: Stanisić cruzou, a bola passou por cima de toda a zaga portuguesa e caiu nos pés de quem sabe: Perišić, sempre ele, apareceu para abrir o placar e lembrar que certos personagens de Copa não costumam sair de cena com facilidade.

 



 









A partir daí, o jogo ganhou o drama característico do mata-mata. A Croácia chegou a fazer o segundo, mas Matanović estava impedido — um prenúncio do que viria. Portugal respondeu com uma bola na trave de Rafael Leão e, depois, com Cristiano Ronaldo balançando a rede em um impedido milimétrico. Só que o gol do robozão já estava maduro: aos 15, de pênalti, ele enfim marcou em mata-mata de Copa. Cobrou no meio, com segurança, enquanto Livaković, o homem dos pênaltis croatas, caiu para o lado. A Croácia não se entregou, acertou a trave com Kovačić e ainda empatou com Sučić a dez minutos do fim, mas o impedimento veio quase na mesma régua do lance de Ronaldo. Logo depois, subiu a placa. Ronaldo saiu com aquela cara de criança birrenta mandada para o quarto de castigo.

 



 












Aos 3 minutos de acréscimo, a mudança de Roberto Martínez deu resultado. Rafael Leão cruzou da esquerda, e Gonçalo Ramos, o reserva de CR7, subiu no meio da zaga croata para virar de cabeça. Aí ficou impossível não lembrar de 2022, quando ele fez três contra a Suíça nas oitavas, no 6 a 1 de Portugal. Virada portuguesa, com certeza. Mas o drama maior ainda estava guardado para a última volta do ponteiro.

Aos 15 minutos de acréscimo — recorde nesta Copa — Perišić levantou na área, a bola raspou de leve na cabeça de Matanović e sobrou para Pašalić ajeitar para Gvardiol empatar outra vez a partida. Só que, literalmente, havia um fio no caminho. O toque mínimo no cabelo de Matanović, curto nas laterais e ligeiramente mais cheio no topo, foi suficiente para mudar tudo. Foi preciso acionar o chip da bola para detectar o desvio que o olho humano da arbitragem não enxergou. O empate croata morreu ali: por um penteado moderno demais para passar despercebido.

 



 









Em uma Copa decidida por chips, linhas e batimentos gráficos, até o cabelo entrou no VAR. A Croácia se despediu na última dança de Modrić, seus fios longos e ondulados à frente de uma geração que resistiu até o fim.

 

Portugal sobreviveu. Mas a classificação ficou por um fio.

 

 

 

 

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa,

não corta o cabelo desde muito antes do Mundial

quinta-feira, 2 de julho de 2026

2026 | O Cavaleiro Inglês

 










Vamos falar a verdade: se não fosse pelo talento, pela liderança, pela presença em campo e pelo faro de gol de Harry Kane, o maior jogador inglês das últimas décadas, Thomas Tuchel seria massacrado pela imprensa e pela opinião pública inglesa. E, na minha opinião, com muita razão, principalmente pela decisão de deixar Palmer, Foden e Alexander-Arnold fora da Copa.

Foi uma virada épica, após 25 minutos iniciais desastrosos. A República Democrática do Congo poderia facilmente ter aberto dois ou até três gols de vantagem. Mais tarde, ainda no primeiro tempo, acertou uma bola na trave e continuou a assustar a defesa inglesa. Depois da parada para hidratação, a Inglaterra respirou, melhorou um pouco e passou a criar boas oportunidades. Em uma delas, Rashford, cuja presença venho defendendo desde o início da Copa, desperdiçou um gol sem goleiro após uma bela jogada do criticado Madueke, que, apesar das críticas, fez uma boa partida.

Mas uma pergunta continua difícil de responder: por que Saka é titular absoluto e Madueke, seu reserva no Arsenal, enquanto na seleção acontece justamente o contrário? Mais uma das polêmicas decisões de Thomas Tuchel.

 



 










O segundo tempo teve um dono: Harry Kane. O craque da Inglaterra, o maior jogador do English Team desde os anos 90, de Paul Gascoigne e Gary Lineker. Kane é decisivo, tem sangue quente, personalidade enorme e um poder de finalização impressionante. Assumiu a responsabilidade durante toda a partida. Que atuação épica do Hurrikane — já merece ser tratado como "Sir" por tudo o que fez. No primeiro gol, deu uma verdadeira aula de cabeceio para empatar um jogo complicadíssimo. No segundo, acertou um petardo, sem qualquer chance para o goleiro congolês.

 



 









Mas também precisamos falar de Declan Rice e Jude Bellingham. Não dá para colocar toda a responsabilidade e toda a esperança de vitória nos pés de Harry Kane, como vem acontecendo desde o início da Copa.

Onde está o Declan Rice do Arsenal? Aquele que organiza o time, controla o meio-campo e dita o ritmo da partida? Já passou da hora de ele aparecer nesta Copa.

Bellingham foi bem nos primeiros jogos, mas ainda não teve uma atuação realmente brilhante. Espera-se muito mais do craque do Real Madrid. Aliás, talvez ele ainda não tenha se tornado o jogador dominante que muitos imaginavam. Seja como for, precisa entregar mais.

E Saka precisa ser titular, independentemente de sua condição física. Ele entra e o time simplesmente melhora. Sr. Thomas Tuchel deve estar com o travesseiro quente todas as noites, pensando em Palmer e Foden. Sim, os dois atravessam uma fase menos inspirada e não estão na melhor condição física, mas Copa do Mundo é um torneio de tiro curto. Em jogos como o de hoje, fazem muita falta jogadores capazes de decidir uma partida em um único lance, com um drible, um passe ou um chute improvável.

 



 











Agora vem o México. Uma seleção forte, que joga em casa, empurrada por um Azteca santificado. Um adversário duríssimo e, provavelmente, o maior teste da Inglaterra até aqui. Harry Kane já vestiu a armadura, mas Tuchel vai precisar de mais do que um cavaleiro para sobreviver à próxima batalha.


Promessa de jogaço.


Come on, England.

 

 

 

João Ferreira (Djandjas)

imigrante em Dublin e amante do futebol raiz, desde a Copa de 1986

quarta-feira, 1 de julho de 2026

2026 | O Xerife e o Troco

 







Vinte e quatro anos antes de Alemanha e Paraguai voltarem a se cruzar em uma Copa, Oliver Kahn prometeu que se aposentaria se Chilavert marcasse um gol de falta nele. O capitão alemão sobreviveu à ameaça: o goleiro paraguaio cobrou uma por cima, e a Alemanha só escapou aos 88 minutos, quando o bom Schneider cruzou para o medíocre Neuville decidir. Dois jogadores do Leverkusen, recém-feridos pela final perdida da Champions, tiravam o Paraguai da Copa.

Aquele Paraguai tinha Carlos Gamarra, um zagueiro de precisão cirúrgica. Quatro anos antes, em 1998, ele disputou 383 minutos, enfrentou Raúl, Kanu e Stoichkov, e terminou a Copa sem cometer uma única falta. Contra a França, ainda jogou a prorrogação com o ombro deslocado (2 cm de desvio na clavícula), sem apelar para a violência. Em 2002, outra vez no sacrifício (agora literário), segurou Klose e a Alemanha até quase o fim. Quase.

Gamarra, o xerife, não conseguiu levar o Paraguai adiante. Ficou a imagem do time duro e valente, acostumado a sofrer, mas condenado ao quase. Em 2026, a cobrança finalmente veio. O Paraguai não tinha mais o zagueiro perfeito, nem Chilavert desafiando o goleiro do outro lado. Tinha outra geração, outro goleiro e a mesma teimosia histórica de quem se nega a cair. Desta vez, porém, não caiu.

 


O reencontro, agora pela inédita fase de 16 avos, só podia ser dramático. No Gillette Stadium, em Boston, o Paraguai abriu a conta aos 41 min do primeiro tempo, quando Galarza cruzou com precisão e Enciso apareceu para testar no fundo do gol alemão. A resposta veio logo aos 8 da etapa final: Wirtz colocou a bola na medida, e Havertz cabeceou firme para empatar. A partir daí, a Alemanha fez o que a Alemanha faz de melhor: empurrou, cercou e martelou. Mas o Paraguai fechou a porta com a boa e velha organização defensiva, aliada ao sofrimento calculado e às defesas importantes do goleiro Gill. Os guaranis sobreviveram à pressão de Nagelsmann e arrastaram o jogo para mais uma prorrogação em mata-mata.

 



 








Na prorrogação, a Alemanha seguiu com a bola e tentou vencer pelo alto. Aos 14 min, Tah subiu soberano em cobrança de escanteio e fez o gol que seria o da classificação, mas o VAR entrou em cena. O árbitro viu falta de Anton em Gill e anulou a festa alemã. No segundo tempo extra, o desgaste tomou conta, o Paraguai resistiu mais uma vez, e o jogo foi para “la definición por penales”.

Na marca da cal as coisas foram diferentes. Gill brilhou ao defender as cobranças de Havertz e Woltemade e, embora o Paraguai também tenha desperdiçado as batidas de Sanabria e Balbuena — este último parado pelo veterano Neuer —, o zagueiro germânico Tah isolou o seu chute. Na cobrança decisiva, o zagueiro paraguaio Canale manteve a frieza, converteu a sua penalidade e garantiu a classificação da Albirroja para as oitavas de final.

 



 











A Alemanha perdeu uma invencibilidade de 44 anos em disputas de pênaltis em Mundiais, disse adeus precocemente pela terceira Copa seguida e deixou o Brasil como o único pentacampeão em atividade. E o Paraguai, por sua vez, segue sem pensar se é possível, porque o impossível ele já fez.

 

 

 

 

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa,

acredita na classificação paraguaia contra a França

terça-feira, 30 de junho de 2026

2026 | O Fantasma de Shinjuku

 







Muito se falou daquele Brasil x Japão de 14 de outubro de 2025. Era só um amistoso, mas deixou sequelas. O Brasil abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo — o segundo gol, inclusive, foi de Martinelli —, mas levou a virada na etapa final, com um time bastante modificado,
principalmente na defesa. Fabrício Bruno entregou o primeiro gol japonês e ainda fez um contra; Hugo não segurou a cabeçada de Ueda na virada nipônica. Pela primeira vez, a Seleção perdeu para os Samurais Azuis, e a mídia brasileira caiu matando. Depois, em março, o Japão venceu a Inglaterra em Wembley, ganhou moral, confiança e virou surpresa da Copa antes mesmo de ela começar.

Por isso, quando o chaveamento colocou o grupo do Japão no caminho brasileiro logo nos 16 avos, a lembrança daquele amistoso voltou com força. Antes da Copa, já havia quem tratasse os Samurais Azuis como uma pedra no sapato; durante a primeira fase, cada jogo japonês aumentou a pulga atrás da orelha. Não era um medo declarado, mas uma preocupação incômoda, alimentada por uma pergunta simples: e se aquele 3 a 2 em Tóquio não tivesse sido um simples acidente de percurso?

 



 










O jogo em Houston começou com o Brasil acelerando e criando algumas chances, até Casemiro levar amarelo aos 15 min e ficar pendurado. O Japão pressionava alto, encaixava a marcação e não deixava o meio-campo brasileiro respirar. Quando a Seleção tentava sair, abria espaço, e os japoneses chegavam com facilidade à área.

Aos 29, Danilo errou na saída, Sano interceptou, avançou e bateu forte, no canto de Alisson. Japão 1 a 0 e “Houston, we have a problem.”

 















Ancelotti voltou para o segundo tempo com Endrick no lugar de Paquetá, mas a torcida queria mesmo a saída de Casemiro. Homem de confiança de Carletto desde o Real Madrid, o camisa 5 seguiu em campo, mesmo com o amarelo condicionando seus movimentos. O Brasil saiu para o jogo, insistiu por dentro e demorou a explorar a bola aérea, vulnerabilidade japonesa. Aos 8 min, Casemiro quase empatou, mas a zaga tirou em cima da linha. Pouco depois, Vini recuperou a bola, Gabriel Magalhães cruzou na medida, e Casemiro apareceu na segunda trave: 1 a 1 e a redenção. Aos 12, Vini quase virou em uma jogada antológica: caneta no domínio, dois zagueiros para trás e um bico à la Romário (e Ronaldo), parado por uma defesa monumental de Suzuki, com a ponta dos dedos.

 


O Brasil jogava melhor, e o Japão se encolheu. Apesar de mais organizados, os japoneses cederam espaço e sentiram o peso do adversário. É, a camisa pesou. Do outro lado estava Casemiro, mesmo já não sendo o mesmo, já distante do auge, mas ainda respeitado. Estavam dois zagueiros finalistas da Champions League. Estava a camisa amarela da Seleção, pesando incontáveis toneladas.

Então Martinelli entrou no lugar de Matheus Cunha, e o torcedor pensou: “E o Neymar?” E quando tudo indicava uma prorrogação, apareceu a estrela do atacante do Arsenal. Nos acréscimos, Rayan roubou uma bola perdida, tocou para Bruno Guimarães, que ficou entre o chute e o passe até ver Martinelli solto no meio da zaga japonesa. O camisa 22 recebeu e bateu no cantinho de Suzuki, sem chance, com a bola beijando a trave antes de entrar.

 



 











Foi uma vitória da raça, da camisa mais pesada do futebol. A virada — desta vez, nossa — veio no último lance. O Brasil arrancou o Japão da memória, fechou a conta de 2025 e mandou o fantasma embora de Houston. Sayonara, Samurais Azuis.

 

 

 

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa,

                                                                                          dá pra acreditar na Seleção Brasileira

sábado, 27 de junho de 2026

2026 | Pelas Barbatanas do Profeta

 


No mar, os tubarões mandam porque não pedem licença à correnteza: conhecem a profundidade e farejam o medo de suas vítimas. É o domínio natural de quem nasceu para caçar onde os outros apenas tentam sobreviver. Poucos animais despertam no ser humano um medo tão imediato quanto o tubarão; sua simples presença na água transforma um mergulho em alerta e lembra que, no mar, o controle nunca foi nosso. Quando Cabo Verde chegou ao Mundial de forma inédita, porém, os Tubarões Azuis eram tratados como presa fácil para as seleções mais tradicionais. Só que, no campo — o verdadeiro mar cabo-verdiano —, foram os favoritos que acabaram cercados.

 




E lá estavam eles, espanhóis e uruguaios, frente a frente, lutando pela própria sobrevivência. Sobretudo a Celeste, olímpica de outrora, que chegava sem vitórias e precisava de uma para se salvar. Do outro lado, uma Fúria ainda tímida pouco incomodava o antigo predador, até que uma falha quase no fim da primeira etapa fez as redes do Akron balançarem como um peixe se debatendo para escapar. Nem Muslera, goleiro de cinco Copas, sobreviveu ao erro e voltou para o segundo tempo. Muito menos o Uruguai, que terminou a partida entregue à mesma apatia de uma Espanha já satisfeita, como se os dois tivessem deixado de ser donos do mar de gramas.

















Em outra parte do oceano, o Tubarão Azul nem precisou abocanhar seu adversário. Vinda de terras arenosas, a Arábia Saudita acabou se afogando sozinha na lanterna do grupo. Dona de um campeonato rico em nomes e investimentos, a seleção saudita não superou a própria falta de talento doméstico e caiu sem deixar saudade. Cabo Verde, por outro lado, mostrou força, segurou adversários de peso e segue invicto, com um feito raro nas barbatanas: até o momento, é a única seleção da história das Copas a entrar em campo em um Mundial e nunca perder um jogo sequer.




 










Os Tubarões Azuis encaram agora um dos maiores predadores da Copa: a Argentina de Messi. Se será possível sobreviver, saberemos em breve. Mas, por enquanto, Cabo Verde segue reinando no ecossistema da Copa do Mundo de 2026.

 

 

 

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa;

anteviu a classificação de Cabo Verde em segundo no Grupo H