segunda-feira, 18 de maio de 2026

Neymar do Amanhã

 

Em 2010, o Brasil aguardava um menino. Neymar ainda era promessa, mas já se destacava com urgência. No Santos, ao lado de Ganso, carregava aquele tipo de futebol que não pede licença: drible, ousadia, inventividade, um cabelo chamativo e a sensação de que alguma coisa nova estava batendo à porta. O País queria ver aquele garoto na África do Sul. Entretanto, o técnico Dunga, fiel à sua ideia de grupo, hierarquia e segurança, preferiu não abrir a porta; Neymar ficou de fora da Copa. Naquele dia, o Brasil descobriu que às vezes o futuro chega antes da hora. 

 

Dezesseis anos depois, não era mais o garoto pedindo passagem. Era o craque marcado pelo tempo, pelas lesões, pelas Copas perdidas, pelas críticas e pela esperança teimosa de quem ainda sabe que pode decidir um jogo. E não poderia haver palco mais simbólico do que o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, para anunciar essa nova tentativa brasileira de reencontrar o próprio destino.

 

O Museu do Amanhã é um lugar feito para perguntas: de onde viemos, quem somos, onde estamos, para onde vamos e como queremos ir. Por sua vez, a Seleção Brasileira chega à Copa de 2026 cercada por essas mesmas perguntas. De onde viemos? De um passado glorioso, porém distante. Quem somos? A seleção mais vitoriosa da história, com cinco estrelas que pesam mais a cada fracasso. Onde estamos? Num tempo de reconstrução, agora sob o comando de Carlo Ancelotti, um técnico estrangeiro tentando recuperar a alma do nosso futebol. Para onde vamos? Esta é a pergunta que a convocação começa a responder. Como queremos ir? Com coragem para voltar a acreditar.

 

Ancelotti chamou Neymar. E, com ele, confirmou o critério que vinha repetindo: o talento nunca esteve em discussão; a questão era saber se o corpo ainda acompanhava a genialidade. O próprio treinador chegou a dizer que Neymar teria a mesma responsabilidade dos outros jogadores, mas é impossível fingir que seu nome pesa igual. Neymar não entra em uma lista: ele altera a temperatura dela. Se foi o certo a se fazer, saberemos nas próximas semanas.

 

Neymar, agora, não é mais o futuro que Dunga recusou em 2010. É o passado que quer ser presente. É a memória tentando virar solução. É o menino que não foi à África do Sul encontrando sua última chance de escrever um capítulo diferente. Talvez essa convocação não diga apenas quem vai para a Copa, e sim quem o Brasil ainda acredita ser. Porque no futebol, como no Museu do Amanhã, o futuro nunca está pronto; ele é construído — com escolhas, riscos, coragem e, às vezes, com um camisa 10 que o País já viu nascer, cair, voltar e insistir.

 

No fim, a pergunta que fica não é só se Neymar deveria ter sido convocado. A pergunta é maior, mais brasileira, mais incômoda: que amanhã essa Seleção ainda é capaz de inventar?