O confronto em Toronto foi mais um na história recente
de Portugal e Croácia, marcada por muito equilíbrio. Os lusitanos começaram
melhor, controlando o primeiro tempo e impondo o peso técnico de quem queria
resolver logo um jogo que não perdoa a morosidade. Mas os croatas têm essa irritante
mania de resistir, e Modrić seguiu regendo a seleção quadriculada em sua
resistência corriqueira. Depois do intervalo, aos 8 min do segundo tempo, a
seleção que espera a hora de atacar deu o bote: Stanisić cruzou, a bola passou
por cima de toda a zaga portuguesa e caiu nos pés de quem sabe: Perišić, sempre
ele, apareceu para abrir o placar e lembrar que certos personagens de Copa não costumam
sair de cena com facilidade.
A partir daí, o jogo ganhou o drama característico
do mata-mata. A Croácia chegou a fazer o segundo, mas Matanović estava impedido
— um prenúncio do que viria. Portugal respondeu com uma bola na trave de Rafael
Leão e, depois, com Cristiano Ronaldo balançando a rede em um impedido milimétrico.
Só que o gol do robozão já estava maduro: aos 15, de pênalti, ele enfim marcou
em mata-mata de Copa. Cobrou no meio, com segurança, enquanto Livaković, o
homem dos pênaltis croatas, caiu para o lado. A Croácia não se entregou,
acertou a trave com Kovačić e ainda empatou com Sučić a dez minutos do fim, mas
o impedimento veio quase na mesma régua do lance de Ronaldo. Logo depois, subiu
a placa. Ronaldo saiu com aquela cara de criança birrenta mandada para o quarto
de castigo.
Aos 3 minutos de acréscimo, a mudança de Roberto
Martínez deu resultado. Rafael Leão cruzou da esquerda, e Gonçalo Ramos, o
reserva de CR7, subiu no meio da zaga croata para virar de cabeça. Aí ficou
impossível não lembrar de 2022, quando ele fez três contra a Suíça nas oitavas,
no 6 a 1 de Portugal. Virada portuguesa, com certeza. Mas o drama maior ainda
estava guardado para a última volta do ponteiro.
Aos 15 minutos de acréscimo — recorde nesta Copa —
Perišić levantou na área, a bola raspou de leve na cabeça de Matanović e sobrou
para Pašalić ajeitar para Gvardiol empatar outra vez a partida. Só que,
literalmente, havia um fio no caminho. O toque mínimo no cabelo de Matanović,
curto nas laterais e ligeiramente mais cheio no topo, foi suficiente para mudar
tudo. Foi preciso acionar o chip da bola para detectar o desvio que o olho
humano da arbitragem não enxergou. O empate croata morreu ali: por um penteado
moderno demais para passar despercebido.
Em uma Copa decidida por chips, linhas e batimentos
gráficos, até o cabelo entrou no VAR. A Croácia se despediu na última dança de
Modrić, seus fios longos e ondulados à frente de uma geração que resistiu até o
fim.
Portugal sobreviveu. Mas a classificação ficou por
um fio.
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário
e criador do De Letra na Copa,
não corta o cabelo desde muito antes do Mundial


























