terça-feira, 30 de junho de 2026

2026 | O Fantasma de Shinjuku

 







Muito se falou daquele Brasil x Japão de 14 de outubro de 2025. Era só um amistoso, mas deixou sequelas. O Brasil abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo — o segundo gol, inclusive, foi de Martinelli —, mas levou a virada na etapa final, com um time bastante modificado,
principalmente na defesa. Fabrício Bruno entregou o primeiro gol japonês e ainda fez um contra; Hugo não segurou a cabeçada de Ueda na virada nipônica. Pela primeira vez, a Seleção perdeu para os Samurais Azuis, e a mídia brasileira caiu matando. Depois, em março, o Japão venceu a Inglaterra em Wembley, ganhou moral, confiança e virou surpresa da Copa antes mesmo de ela começar.

Por isso, quando o chaveamento colocou o grupo do Japão no caminho brasileiro logo nos 16 avos, a lembrança daquele amistoso voltou com força. Antes da Copa, já havia quem tratasse os Samurais Azuis como uma pedra no sapato; durante a primeira fase, cada jogo japonês aumentou a pulga atrás da orelha. Não era um medo declarado, mas uma preocupação incômoda, alimentada por uma pergunta simples: e se aquele 3 a 2 em Tóquio não tivesse sido um simples acidente de percurso?

 



 










O jogo em Houston começou com o Brasil acelerando e criando algumas chances, até Casemiro levar amarelo aos 15 min e ficar pendurado. O Japão pressionava alto, encaixava a marcação e não deixava o meio-campo brasileiro respirar. Quando a Seleção tentava sair, abria espaço, e os japoneses chegavam com facilidade à área.

Aos 29, Danilo errou na saída, Sano interceptou, avançou e bateu forte, no canto de Alisson. Japão 1 a 0 e “Houston, we have a problem.”

 















Ancelotti voltou para o segundo tempo com Endrick no lugar de Paquetá, mas a torcida queria mesmo a saída de Casemiro. Homem de confiança de Carletto desde o Real Madrid, o camisa 5 seguiu em campo, mesmo com o amarelo condicionando seus movimentos. O Brasil saiu para o jogo, insistiu por dentro e demorou a explorar a bola aérea, vulnerabilidade japonesa. Aos 8 min, Casemiro quase empatou, mas a zaga tirou em cima da linha. Pouco depois, Vini recuperou a bola, Gabriel Magalhães cruzou na medida, e Casemiro apareceu na segunda trave: 1 a 1 e a redenção. Aos 12, Vini quase virou em uma jogada antológica: caneta no domínio, dois zagueiros para trás e um bico à la Romário (e Ronaldo), parado por uma defesa monumental de Suzuki, com a ponta dos dedos.

 


O Brasil jogava melhor, e o Japão se encolheu. Apesar de mais organizados, os japoneses cederam espaço e sentiram o peso do adversário. É, a camisa pesou. Do outro lado estava Casemiro, mesmo já não sendo o mesmo, já distante do auge, mas ainda respeitado. Estavam dois zagueiros finalistas da Champions League. Estava a camisa amarela da Seleção, pesando incontáveis toneladas.

Então Martinelli entrou no lugar de Matheus Cunha, e o torcedor pensou: “E o Neymar?” E quando tudo indicava uma prorrogação, apareceu a estrela do atacante do Arsenal. Nos acréscimos, Rayan roubou uma bola perdida, tocou para Bruno Guimarães, que ficou entre o chute e o passe até ver Martinelli solto no meio da zaga japonesa. O camisa 22 recebeu e bateu no cantinho de Suzuki, sem chance, com a bola beijando a trave antes de entrar.

 



 











Foi uma vitória da raça, da camisa mais pesada do futebol. A virada — desta vez, nossa — veio no último lance. O Brasil arrancou o Japão da memória, fechou a conta de 2025 e mandou o fantasma embora de Houston. Sayonara, Samurais Azuis.

 

 

 

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa,

                                                                                          dá pra acreditar na Seleção Brasileira