quinta-feira, 25 de junho de 2026

2026 | Brilho Raro

 







O Grupo B chegou à terceira rodada com dois roteiros distintos rolando ao mesmo tempo. Em Vancouver, Suíça e Canadá, já classificados, disputavam a liderança: os anfitriões chegavam à frente pelo saldo (+6, fruto de um sonoro 6 a 0 sobre o Qatar) contra os +3 dos suíços, que haviam batido a Bósnia por 4 a 1. Em Seattle, a outra metade do grupo vivia um clássico "vencer ou ir para casa": Bósnia e Qatar, ambos com um ponto, brigavam por uma vaga entre os melhores terceiros. Com um futebol pragmático, a Suíça segurou o ímpeto do anfitrião Canadá e se classificou em primeiro lugar.

No BC Place de Vancouver, num mar vermelho e civilizado (torcida de pé, bonés à mão durante os hinos, ao melhor estilo da Colúmbia Britânica), o primeiro tempo foi morno e tático. A Suíça de Murat Yakin teve a melhor chance logo aos 11, quando Embolo saiu cara a cara após lançamento de Ricardo Rodríguez, mas finalizou com a perna que "só sobe no ônibus" e parou em Crépeau. O Canadá de Jesse Marsch cresceu no fim da etapa, sem pontaria. Cartões a Larin e Xhaka aos 32 esquentaram o ambiente, e foi 0 a 0 ao intervalo.

O recomeço foi retumbante. Aos 46 segundos da volta, Manzambi puxou pela direita e cruzou rasteiro para Rubén Vargas, livre na segunda trave, fuzilar: 1 a 0. Aos 57, Embolo segurou a bola de costas e tocou para o próprio Johan Manzambi, que, aproveitando um vacilo da zaga (Johnston escorregou) e uma falha de Crépeau, bateu de primeira para fazer 2 a 0.

A joia suíça, atacante de 19 anos do Freiburg, chegou ao seu terceiro gol no torneio (já havia feito dois saindo do banco contra a Bósnia) e assumiu a artilharia da seleção em seu primeiro jogo como titular. O Canadá descontou aos 76 com Promise David, recém-ingressado na partida, num voleio oportunista após bela assistência de Saliba. Ao final do jogo ainda teve um abafa emocionante. Johnston e Cornelius cabecearam bem, mas Gregor Kobel fechou o gol. Com isso a Suíça, eficiente como sempre, terminou líder do Grupo B com 7 pontos.

 



 















Em Seattle, o jogo demorou 29 minutos para fazer despontar uma estrela. Kerim Alajbegović (18 anos, nascido em Colônia, de pais bósnios de Bugojno, que recusou a Alemanha para vestir a camisa do país dos avós) driblou dois marcadores e soltou uma bomba de fora da área, no ângulo: em um dos gols mais bonitos da primeira fase. O moleque, revelação do RB Salzburg, já tem passagem confirmada ao Bayer Leverkusen, em julho, o que aponta promissora carreira. Aos 34, a Bósnia fez o segundo: numa tentativa de tabela de Edin Džeko, Sultan Al-Brake desviou contra o próprio gol.

E aqui mora o drama. Aos 40 anos, Džeko ainda acertou a trave, em seguida, e ficou em branco. Tivesse aquele lance sido creditado a ele, o eterno camisa 9, que não balançava as redes em Copas desde 2014 (na estreia da seleção no Mundial do Brasil), viraria o terceiro artilheiro mais velho da história, atrás apenas de Roger Milla (42 anos, 1994) e de Cristiano Ronaldo, que justamente na véspera, aos 41, pulara para o segundo posto contra o Uzbequistão.

O gol contra e a arbitragem lhe roubaram a glória; coube ao garoto, que nas Eliminatórias o servira de assistência, herdar o protagonismo. O bastão de craque bósnio, dessa maneira, definitivamente passou de mão.

O Qatar, por sua vez, diminuiu aos 42 com o capitão Hassan Al-Haydos e quase empatou (Pedro Miguel enfiou bola na trave no segundo tempo), mas a Bósnia de Sergej Barbarez controlou bem o jogo e, aos 80, Ermin Mahmić aproveitou nova falha catari para selar o 3 a 1 e sua inédita classificação ao mata-mata.















Encerrada a fase inicial, portanto, a Suíça avança em primeiro (7 pts.) e pega um terceiro colocado nas oitavas; o Canadá, vibrante no ataque, porém frágil na defesa e uma dor de cabeça para Marsch, fecha em segundo (4 pts.) e vai cruzar com o vice do Grupo A.

Já a Bósnia (4 pts.) lidera a tabela dos melhores terceiros, embalada por seu promissor adolescente e eterno ídolo quarentão. Já o Qatar, pouco competitivo, foi punido pelos próprios erros, despedindo-se na lanterna, sem vitórias.

O Grupo B se foi como começou: com a frieza suíça mandando no relógio e a juventude lembrando que toda Copa coroa um novo herói.

 



Rafael Bauer (POPERA)

Professor Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais (Brasil e Rússia)