segunda-feira, 1 de junho de 2026

Copa 2026 • Grupo G • Irã

Campo Minado



As atenções ao Irã nesta Copa do Mundo provavelmente estarão mais voltadas aos seus aspectos geopolíticos do que aos assuntos de campo. Isso já ocorreu em pelo menos outra ocasião, em 1998, quando EUA e Irã, inimigos na arena das relações internacionais, se enfrentaram no Mundial da França — vitória persa, em uma partida que contou com um dos maiores aparatos de segurança da história dos Mundiais.

Desta vez, a apreensão se justifica ainda mais por estarmos em um ano de guerra efetiva entre EUA e Irã, envolvendo também o Oriente Médio e com impactos humanitários e econômicos de proporção global. Nos últimos meses, houve risco real de a seleção iraniana boicotar a Copa ou ser proibida de participar do torneio por essas razões, afinal, a competição será disputada também em território norte-americano. Embora haja jogos de seu Grupo G no Canadá, a tabela mostra que o Irã disputará suas partidas da primeira fase em Seattle e Inglewood, ambas na Costa Oeste dos EUA. É compreensível, portanto, que, diante desse cenário, os olhares sobre a seleção iraniana neste torneio não estejam voltados apenas para suas qualidades esportivas.

 



 











Não se pode negar, entretanto, que o Irã é, há muito tempo, uma potência do futebol no continente asiático, ainda que não tenha conquistado uma Copa da Ásia desde a Revolução Islâmica — ocasião em que houve uma transformação decisiva no seio da sociedade do país. Desde que a Copa do Mundo expandiu a participação para além de 24 seleções, primeiro para 32 a partir da França, em 1998, e agora para 48 nesta edição, o Team Melli só deixou de comparecer em 2002 e 2010. A atual edição marcará sua quarta aparição seguida, o que não é pouco, ainda mais se considerada a relativa tranquilidade de sua classificação nas eliminatórias locais.

 



 











A Copa do Mundo será talvez a principal oportunidade de o Irã finalmente superar seu histórico de eliminações precoces e avançar de fase pela primeira vez. Em 2018, a seleção chegou perto, apresentou bom futebol e somou quatro pontos, com vitória sobre o Marrocos, derrota pela diferença mínima contra a Espanha e um digno empate diante de Portugal.

Para 2026, após uma provável estreia indigesta contra a Bélgica, não é irrealista imaginar uma vitória diante dos neozelandeses e uma partida equilibrada contra o Egito, resultado que, em caso de ao menos um empate, poderia abrir caminho para o avanço da equipe do icônico ex-atacante Ali Daei — entre 1993 e 2006, marcou 106 gols por sua seleção, marca superada apenas por Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

 



 











Formada majoritariamente por jogadores de sua liga local, a seleção iraniana ainda depende de alguns nomes experientes para tentar transformar organização em perigo real. A principal referência ofensiva é Mehdi Taremi, hoje no Olympiakos, atacante de boa leitura de jogo e acostumado ao futebol europeu. Ao seu redor, Alireza Jahanbakhsh oferece experiência pelos lados, enquanto Saman Ghoddos pode ajudar na ligação entre meio e ataque. A ausência de Sardar Azmoun, fora da lista preliminar, aumenta ainda mais o peso sobre Taremi e deixa claro que o Irã chega à Copa com menos brilho individual do que em outros ciclos, mas ainda com jogadores capazes de decidir em momentos curtos.

 



 











Cercado por tensões que ultrapassam o gramado, o Team Melli tentará transformar a guerra que o cerca fora de campo em uma batalha exclusivamente esportiva: vencer jogos, sobreviver ao grupo e, enfim, avançar de fase pela primeira vez.

 



 













ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)









HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)



 


Adriano Gomes (CARICA)

Pai da Akemi e da Ayumi, é assíduo frequentador da Rua Javari 

domingo, 31 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo F • Suécia

Listen to Your Stars



Antes de ser lembrada pela IKEA, pela Volvo ou por sua velha fama de país discreto, a Suécia também ensinou o mundo a cantar refrões pop. Nos anos 80 e 90, o Roxette fez isso com uma facilidade quase insolente. Marie Fredriksson e Per Gessle transformaram melodias suecas em canções globais, daquelas que tocavam no rádio de qualquer país sem que ninguém precisasse saber exatamente de onde vinham. Era música de dupla, com uma voz marcante, refrões-chicletes e a sensação de que bastavam os acordes começarem para se escutar o coração.


A seleção sueca de 2026 tenta fazer algo parecido no futebol. Não chega como favorita, muito menos com o peso das grandes potências, mas tem na frente uma dupla capaz de mudar o tom de uma partida. Houve um tempo em que a camisa amarela atravessava Mundiais com naturalidade, carregando uma tradição que passou por Liedholm, Gren, Nordahl, Brolin, Dahlin, Larsson e Ibrahimović. Hoje, a melodia passa por Viktor Gyökeres e Alexander Isak.

 



 









Depois da era Ibrahimović, a Suécia passou um tempo procurando uma nova forma de ser interessante. Continuou difícil de enfrentar, mas parecia faltar algo que transformasse competitividade em ameaça real. Agora, com Gyökeres e Isak, a Suécia volta a ter um ataque que obriga o adversário a prestar atenção antes mesmo de a bola rolar. Gyökeres joga com fome de área e tem arrancadas que dão outro ritmo ao time, incomodando zagueiros com uma presença que não depende de firula. Isak é diferente: mais leve e mais técnico na maneira de aparecer. Não precisa atropelar a jogada para dominar a cena, já que muitas vezes encontra espaços que ninguém viu. Um empurra a defesa para trás, o outro aproveita o intervalo que se abre. Um abre caminho, o outro encontra a nota certa.

 



 












No Grupo F, contra Holanda, Japão e Tunísia, isso pode fazer diferença. A Holanda deve ser o teste mais duro, com mais bola e mais qualidade técnica. O Japão tende a oferecer velocidade e organização. A Tunísia, mesmo mais limitada, costuma fazer da resistência uma forma de sobreviver. Nesse cenário, a Suécia talvez não precise dominar todos os jogos, precisa apenas criar as condições para que sua dupla de ataque funcione.

A questão é saber se o time conseguirá colocar os dois para tocar a mesma música. Ter bons atacantes não basta quando a bola não chega e o meio-campo não sustenta o jogo. A Suécia não pode virar uma seleção de dois sucessos isolados, precisa soar como banda. Ainda assim, há algo perigoso nesse time. Talvez não seja uma potência renascida, mas pode ser uma daquelas seleções que entram sem tanto barulho e acabam incomodando mais do que se esperava.




 










O Roxette levou a Suécia ao mundo em forma de canção. Gyökeres e Isak tentarão fazer o mesmo em forma de gol. A Suécia de 2026 talvez não seja uma grande sinfonia, mas tem dois bons motivos para aumentar o volume da TV.

















ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)











HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)




Marcelo Martensen

Publicitário, editor do De Letra na Copa e fã de Roxette



Para ler sobre a Holanda, de Josu, clique aqui

Para ler sobre o Japão, de Henrique, clique aqui

Para ler sobre a Tunísia, de Milan, clique aqui

 



sábado, 30 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo F • Tunísia

Uma Velha Esperança



Há muito, muito, muito tempo atrás, em uma galáxia bem mais próxima do que parece, a Tunísia serviu de cenário para um dos planetas mais famosos da cultura pop. Foi no sul do país que George Lucas encontrou as paisagens que deram vida a Tatooine, planeta natal de Luke Skywalker na saga Star Wars. O nome, inclusive, veio de Tataouine, cidade real tunisiana que ajudou a batizar aquele deserto fictício perdido entre dois sóis.

Mas, em 2026, a Tunísia não quer apenas ser lembrada como cenário de aventura espacial: quer escrever sua própria saga em campo. Nesta Copa do Mundo, veremos o sétimo voo das Águias de Cartago — quase uma Millennium Falcon africana cruzando o deserto. O imponente apelido da seleção tunisiana representa o país onde ficava a antiga Cartago, histórica rival de Roma.

 



 










Sua primeira aparição em Mundiais veio em 1978, na Argentina, num grupo com Polônia, Alemanha Ocidental e México. As derrotas para poloneses e alemães impediram a classificação, mas não apagaram o feito. Contra o México, a Tunísia venceu por 3 a 1 e cravou seu nome na história: foi a primeira seleção africana a triunfar em uma Copa do Mundo.

Depois daquele voo pioneiro de 1978, as Águias de Cartago levaram vinte anos para voltar ao céu das Copas. O retorno veio em 1998, na França, com uma geração promissora e um detalhe curioso: Clayton, brasileiro do Maranhão naturalizado tunisiano, era um dos destaques do time. A expectativa existia, mas a realidade foi dura. Duas derrotas, um empate e mais uma eliminação na primeira fase.

Entre 2002 e 2006, a Tunísia voltou ao Mundial, mas repetiu o velho roteiro: competitiva, organizada, porém presa à fase de grupos. Depois de um hiato, retornou em 2018, na Rússia, onde venceu o Panamá e conquistou apenas sua segunda vitória na história das Copas, caindo novamente após derrotas para Inglaterra e Bélgica. No Catar, em 2022, as Águias de Cartago chegaram a bater a França, então campeã mundial, num resultado histórico. Ainda assim, o voo parou outra vez no mesmo lugar: o terceiro posto do grupo e a sensação de que faltava pouco para finalmente atravessar a fronteira do mata-mata.

 



 












Agora, em 2026, a Tunísia estará no Grupo F, ao lado de Suécia, Japão e Holanda. No papel, é um grupo ingrato demais para sonhar. As Águias de Cartago chegam com o objetivo simbólico de voar mais alto, mas a realidade aponta para uma missão duríssima: competir com dignidade, endurecer os jogos e, quem sabe, arrancar pontos que já seriam históricos. A classificação parece distante; o desafio, desta vez, é fazer a Tunísia sair da Copa maior do que entrou.

 



 











Do deserto que inspirou Tatooine aos gramados da América, a Tunísia parte para mais uma missão. Não chega como uma Aliança Rebelde pronta para derrubar o Império, mas enfrentará potências da bola já na primeira fase — e, desta vez, talvez nem um Jedi pudesse ajudar.

As Águias de Cartago carregam algo mais terreno: a velha esperança de transformar um simples momento em glória.

Que a Força esteja com a Tunísia.

 
















ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)









HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)




Marcelo Martensen

Publicitário, editor do De Letra na Copa e fã de Star Wars




Para ler sobre a Holanda, de Josu, clique aqui

Para ler sobre o Japão, de Henrique, clique aqui

Para ler sobre a Suécia, de Milan, clique aqui





sexta-feira, 29 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo F • Japão

Blue Lock Ativado 



Se você achava que os Samurais Azuis — apelido oficial da seleção japonesa de futebol — só sabiam dar show de educação limpando o vestiário e recolhendo o lixo nas arquibancadas, prepare-se: em 2026, eles querem mesmo limpar o chão com os adversários.

O futebol japonês não é mais aquele dos tempos em que o Oliver Tsubasa, protagonista fictício da franquia de mangá e anime Super Campeões, demorava três episódios para correr de uma área a outra. A evolução do Samurai Blue é assustadora. Se, na estreia em Copas, em 1998, a gente olhava com aquela simpatia de quem vê um cachorrinho tentando subir a escada, hoje os caras jogam um futebol vertical, dinâmico e de altíssima intensidade, capaz de fazer qualquer gigante tremer nas bases — que o digam Alemanha e Espanha, vítimas daquela blitz implacável no Qatar.

 















Para esta Copa de 2026, o professor Hajime Moriyasu montou uma verdadeira máquina. O time esbanja a tradicional disciplina tática e uma entrega física invejável, mas o grande diferencial é a evolução técnica dessa geração. Com a genialidade de Takefusa Kubo armando o jogo e as arrancadas do motorzinho Kaoru Mitoma* pelas pontas — com dribles tão precisos que parecem calculados por algoritmo —, os adversários vão precisar de muito mais do que sorte para segurar o ímpeto japonês no Grupo F.

A ausência de Takumi Minamino chama atenção porque não se trata de um nome qualquer. Ex-Liverpool, destaque do Monaco e peça importante da seleção nos últimos ciclos, ele foi, por anos, um dos rostos mais reconhecíveis do futebol japonês na Europa. Sua falta marca uma mudança de rota: Moriyasu parece apostar em um Japão mais intenso, menos preso a hierarquias antigas e mais moldado à geração de Kubo, Maeda e companhia. Para um time que quer deixar de ser promessa e virar ameaça real, até ausências importantes ajudam a contar a história da renovação. Sob a liderança de Wataru Endo, capitão e xerife do meio-campo, a seleção nipônica promete não ser apenas uma "surpresa simpática", mas sim uma candidata real a ir longe no mata-mata.

 



 











No fim das contas, é impossível não torcer pelo Japão. Eles trazem para a Copa o mais puro espírito esportivo: competem com uma lealdade exemplar, jogam um futebol bonito e, de quebra, ainda deixam o vestiário brilhando. Em um torneio deste tamanho, a Samurai Blue prova que a verdadeira honra está em jogar com o coração na ponta da chuteira. Olho neles, porque o projeto "Blue Lock" parece mais vivo do que nunca — e quem subestimar o Japão pode acabar varrido do caminho.


*Atualização: após a publicação deste texto, Kaoru Mitoma ficou fora da lista final do Japão para a Copa por lesão. A análise original o tratava como um dos possíveis destaques da seleção, mas sua ausência muda o cenário japonês e torna a missão no grupo um pouco mais difícil.







 










ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)









HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)

 

 

Henrique Oti Shinomata

Médico da Santa Casa de São Paulo 



Para ler sobre a Holanda, de Josu, clique aqui

Para ler sobre a Tunísia, de Milan, clique aqui

Para ler sobre a Suécia, de Milan, clique aqui