Campo Minado
Desta vez, a apreensão se justifica ainda mais por
estarmos em um ano de guerra efetiva entre EUA e Irã, envolvendo também o
Oriente Médio e com impactos humanitários e econômicos de proporção global. Nos
últimos meses, houve risco real de a seleção iraniana boicotar a Copa ou ser
proibida de participar do torneio por essas razões, afinal, a competição será
disputada também em território norte-americano. Embora haja jogos de seu Grupo
G no Canadá, a tabela mostra que o Irã disputará suas partidas da primeira fase
em Seattle e Inglewood, ambas na Costa Oeste dos EUA. É compreensível,
portanto, que, diante desse cenário, os olhares sobre a seleção iraniana neste
torneio não estejam voltados apenas para suas qualidades esportivas.
Não se pode negar, entretanto, que o Irã é, há
muito tempo, uma potência do futebol no continente asiático, ainda que não
tenha conquistado uma Copa da Ásia desde a Revolução Islâmica — ocasião em que
houve uma transformação decisiva no seio da sociedade do país. Desde que a Copa
do Mundo expandiu a participação para além de 24 seleções, primeiro para 32 a
partir da França, em 1998, e agora para 48 nesta edição, o Team Melli só
deixou de comparecer em 2002 e 2010. A atual edição marcará sua quarta aparição
seguida, o que não é pouco, ainda mais se considerada a relativa tranquilidade
de sua classificação nas eliminatórias locais.
A Copa do Mundo será talvez a principal
oportunidade de o Irã finalmente superar seu histórico de eliminações precoces
e avançar de fase pela primeira vez. Em 2018, a seleção chegou perto,
apresentou bom futebol e somou quatro pontos, com vitória sobre o Marrocos,
derrota pela diferença mínima contra a Espanha e um digno empate diante de
Portugal.
Para 2026, após uma provável estreia indigesta
contra a Bélgica, não é irrealista imaginar uma vitória diante dos
neozelandeses e uma partida equilibrada contra o Egito, resultado que, em caso
de ao menos um empate, poderia abrir caminho para o avanço da equipe do icônico
ex-atacante Ali Daei — entre 1993 e 2006, marcou 106 gols por sua seleção,
marca superada apenas por Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.
Formada majoritariamente por jogadores de sua liga
local, a seleção iraniana ainda depende de alguns nomes experientes para tentar
transformar organização em perigo real. A principal referência ofensiva é Mehdi
Taremi, hoje no Olympiakos, atacante de boa leitura de jogo e acostumado ao
futebol europeu. Ao seu redor, Alireza Jahanbakhsh oferece experiência pelos
lados, enquanto Saman Ghoddos pode ajudar na ligação entre meio e ataque. A
ausência de Sardar Azmoun, fora da lista preliminar, aumenta ainda mais o peso
sobre Taremi e deixa claro que o Irã chega à Copa com menos brilho individual
do que em outros ciclos, mas ainda com jogadores capazes de decidir em momentos
curtos.
Cercado por tensões que ultrapassam o gramado, o Team
Melli tentará transformar a guerra que o cerca fora de campo em uma batalha
exclusivamente esportiva: vencer jogos, sobreviver ao grupo e, enfim, avançar de
fase pela primeira vez.
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Adriano
Gomes (CARICA)
Pai da
Akemi e da Ayumi, é assíduo frequentador da Rua Javari























