terça-feira, 23 de junho de 2026

2026 | Le Bleu et l’Abîme

 







Confesso — embora toda confissão talvez não passe de uma forma elegante de vaidade intelectual — que sempre me divertiu a relação da França consigo mesma. Há países que possuem história; a França possui consciência histórica. Não lhe basta existir: necessita representar-se continuamente diante do planeta, como velha atriz que, mesmo magnífica, já não distingue inteiramente onde termina a vida e começa o palco. Daí a sensação singular que sua seleção nacional provoca aos olhos alheios. Não joga apenas futebol. Dramatiza uma ideia de civilização.

E veja o leitor a delicadeza da ironia: justamente a França, pátria de racionalistas, enciclopedistas, revolucionários e poetas, tornou-se no futebol uma especialista na arte prática da sobrevivência. Enquanto os românticos do esporte aguardam espetáculo, beleza e exuberância estética, os franceses seguem vencendo partidas com certa frieza administrativa, quase ministerial, como quem compreendeu há muito que o mundo raramente recompensa os excessivamente apaixonados.

 


Mas não nos precipitemos. Há nesta equipe atual uma camada mais profunda do que o simples pragmatismo. Existe nela certa tensão moral e estética que lembra os próprios romances franceses do século XIX: personagens elegantíssimos caminhando sobre um terreno permanentemente instável. A França contemporânea, assim como sua seleção, parece construída sobre delicado equilíbrio entre glória e inquietação.

Observe-se Mbappé, por exemplo. O rapaz possui a velocidade dos grandes extremos modernos, mas há nele também alguma coisa de personagem balzaquiano: ambicioso, brilhante, consciente da própria importância e condenado a carregar expectativas que frequentemente ultrapassam as possibilidades normais de um homem. A França deposita sobre seus ombros não apenas gols, mas símbolos. Deseja que ele represente simultaneamente modernidade, triunfo esportivo, integração social e permanência cultural. Convenhamos: não é pequena bagagem para quem precisa ainda encontrar espaços entre zagueiros adversários.




 









Ao redor dele gravitam jogadores de refinamento notável. Olise movimenta-se com a despreocupação elegante daqueles homens que improvisam até quando obedecem rigorosamente à lógica. Tchouaméni oferece estabilidade quase burocrática ao meio-campo — e digo isto como elogio, afinal, certos burocratas sustentam impérios melhor do que muitos poetas. Já a defesa francesa continua revelando aquela velha vocação nacional para a força organizada, mistura curiosa de disciplina militar e vaidade aristocrática.

Entretanto, o que realmente fascina na França jamais esteve apenas nos indivíduos. Está no fato de que o país parece condenado a viver em permanente estado de contradição. Produziu revoluções em nome da igualdade e impérios fundados sobre hierarquias brutais; exaltou direitos universais enquanto atravessava crises sociais intermináveis; cultivou a beleza com fervor quase religioso ao mesmo tempo em que jamais deixou de sentir certa atração secreta pelo caos. E a seleção francesa herdou precisamente isso: a capacidade de parecer sólida e instável simultaneamente.

 



 















Não surpreende, portanto, que a França seja tão irresistivelmente literária. Algumas nações parecem ter encontrado uma linguagem própria para narrar-se. A Alemanha frequentemente recorda uma grande partitura, onde a beleza emerge da ordem e cada nota responde a uma arquitetura invisível. A Inglaterra lembra certos segredos de Estado que atravessam gerações: guarda com zelo a memória de ter inventado o futebol, embora por vezes pareça esquecê-la nos momentos decisivos. A França, não. Assemelha-se mais a esses grandes livros cheios de inteligência, vaidade, sensualidade e crise moral, nos quais ninguém está inteiramente em paz consigo mesmo, embora todos sustentem admiravelmente a aparência de controle.

E é curioso notar que essa imperfeição preserve sua força. As seleções excessivamente resolvidas tendem a envelhecer espiritualmente. A França continua perigosa. Inquieta. Há nela sempre algo prestes a explodir ou a florescer.

Chegou forte à Copa de 2026, sem dúvida. Possui elenco vasto, experiência recente de títulos, profundidade tática e é o jogador mais decisivo do futebol contemporâneo. Mas suspeito que sua verdadeira singularidade permaneça em outro lugar. A França continua fascinando porque joga como sua própria literatura escreveu durante séculos: convencida da grandeza humana, ainda que intimamente consciente de suas fraturas.

Tal é o destino das grandes contradições: jamais encontram a paz, mas raramente deixam de produzir beleza.

— Nem a tempestade conseguiu apagar o azul da França.

 



 
















Na Filadélfia, a partida contra o Iraque precisou ser interrompida por mais de duas horas após um alerta de raios. Torcedores deixaram as arquibancadas, o gramado desapareceu sob a chuva e, por alguns instantes, o futebol pareceu render-se à força indomável do céu. Quando o jogo recomeçou, porém, a França retomou também a narrativa. Mbappé marcou duas vezes, Dembélé completou o placar, e o 3 a 0 confirmou aquilo que o ensaio inteiro procurou sugerir: esta seleção continua habitando o delicado território onde convivem ordem e inquietação, controle e imprevisibilidade. Nem mesmo a tempestade foi capaz de resolver essa contradição. Apenas a iluminou por alguns minutos: mesmo quando o céu desaba, a França ainda consegue encontrar uma forma elegante de seguir adiante.

 



 

 

 








Eduardo Canto (DUDA)

Enfant de la Poésie

Poeta, santista e aficionado pelo football inglês