No sábado, contra a Suíça, o cenário exigiu outro
arranjo. Diante de um adversário cuja precisão fria controla o espaço e calcula
o tempo, a Argentina compreendeu a impossibilidade de qualquer homem, por mais
eterno que seja, vencer o relógio sozinho. A noite começou sob o signo da
cooperação. O cruzamento medido de Messi encontrou a cabeçada certeira de Mac
Allister, quebrando o gelo suíço logo cedo. Mas os Mundiais não toleram
roteiros lineares. O gol de Ndoye no segundo tempo devolveu o suspense e congelou
as arquibancadas em Kansas City.
Foi então que o absurdo interferiu no jogo. No
momento em que a Suíça crescia, Breel Embolo escolheu o pior dos caminhos. Sua
tentativa infantil de simular uma falta — um salto cênico e vazio, sem toque
algum do adversário — acabou desmascarada pelo árbitro. O segundo amarelo e a
consequente expulsão puniram a farsa, travando de vez as engrenagens suíças.
Com um jogador a mais, o time argentino passou a
controlar a partida sem ansiedade, guardando o desfecho para a prorrogação. Messi
não precisou ser o Salvador; pôde ser, simplesmente, o eixo de um time que se
recusava a morrer. A Argentina venceu ao descobrir em si um corpo capaz de
sustentar sua alma. A devoção antes concentrada em um único homem agora se
estende aos responsáveis por dividir o peso e a glória no gramado. O povo
argentino, devoto por natureza, compreendeu o caráter coletivo do milagre: o
altar já não pertence somente ao camisa 10. Pertence a todos.
É essa Argentina inteira, unida pela mesma fé, que
avança rumo a um dos confrontos mais carregados de memória do futebol. No
horizonte, as camisas brancas da Inglaterra já esperam. Não será apenas uma
partida. Será o reencontro com velhos fantasmas, com a bola carregando o peso
do passado. E a Albiceleste, agora protegida pela força do conjunto, terá a
chance de provar que sua nova engrenagem está pronta para a eternidade.
Eduardo
Canto (DUDA)
Por las
manos del tango
Poeta,
santista e aficionado pelo fútbol argentino





