quarta-feira, 27 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo D • Estados Unidos

A Última Fronteira:

da órbita da Lua ao gramado de casa





Os Estados Unidos chegaram à Lua antes de aprender a gostar de empate — o país do touchdown, do home run, da cesta no estouro do cronômetro e do “vencedor a qualquer custo” sempre olhou com certa desconfiança para um esporte capaz de terminar em 0 a 0.

Em 1969, fincaram uma bandeira onde ninguém havia pisado. Transformaram a Lua em palco, a Guerra Fria em propaganda e um passo de Neil Armstrong em uma frase para a eternidade. Depois de décadas olhando para aquele feito como quem olha para um troféu antigo na estante, voltaram. Porém, dessa vez, não pousaram, tampouco deixaram novas pegadas. Contornaram aquele velho satélite como quem passa de carro diante da própria lenda só para lembrar ao mundo: “a gente ainda manda”.

Essa talvez seja a melhor definição dos Estados Unidos. Eles não ocupam apenas território; ocupam o imaginário. Estão nos filmes, nas guerras, nas marcas, nos bancos, nas sanções, nas redes sociais, nos hambúrgueres, no espaço, na ONU, nos acordos de paz e também nas confusões que deveriam ser evitadas. Quando o mundo pega fogo, é raro não haver uma sombra americana perto da fumaça; quando a Terra fica pequena, eles olham para cima; quando o céu parece o limite, eles mandam uma nave.

Os Estados Unidos aprenderam a transformar poder em linguagem. Dominam a cena antes mesmo de entrar nela. Vendem o sonho, fazem o espetáculo e cobram do mundo uma atenção quase obrigatória — às vezes no mesmo pacote, com a bandeira tremulando e uma trilha sonora de cinema. Mas existe um lugar onde esse império ainda não conquistou o topo: o futebol.


 



 










E é isso que torna a Copa de 2026 tão interessante. Porque o país que chegou à Lua, que coloca o próprio sotaque no planeta inteiro, agora recebe em casa o único jogo que nunca conseguiu dominar de verdade. Em 1994, os Estados Unidos sediaram uma Copa quase como quem apresentava o soccer ao próprio público. Em 2026, precisam provar que não estão apenas organizando um espetáculo, mas também tentando pertencer a ele. Não basta lotar estádios, vender ingressos, camisetas, copos temáticos e experiências premium com vista para o gramado. Agora é preciso jogar.

A seleção norte-americana chega com Pochettino no banco e uma geração que já não pode se esconder atrás da palavra “projeto”. Pulisic é o rosto do time, McKennie é o cérebro, Tyler Adams é a ordem, Antonee Robinson é o pulmão, Weah é a força e Balogun carrega a obrigação do gol. Não é um time favorito ao título, mas também não é mais uma curiosidade simpática do país do soccer. Em casa, os Estados Unidos precisam provar que não são apenas os donos da festa. Precisam parecer parte dela. Talvez essa seja a última fronteira.


 



 

 











Eles já dominaram continentes, mercados, discursos, guerras e órbitas. Na Lua, já chegaram de novo. No futebol, ainda estão tentando pousar no ponto mais alto do pódio.


N. do A.: aqui, falamos do futebol masculino. No feminino, os Estados Unidos já fincaram a bandeira no topo há muito tempo.
















ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)








HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)



Marcelo Martensen (MILAN)
publicitário e editor do De Letra na Copa

Copa 2026 • Grupo B • Suíça

 Dos Alpes se foram, aos Alpes voltarão:

O pesadelo de 14 retratado em 26




Considerada em 2013 o melhor país para nascer, a Suíça é tida como o sonho de consumo de casais inebriados pelo fogo da paixão, de esquiadores e amantes do clima frio. É cantada em verso e prosa como o lugar dos que buscam segurança e bons investimentos, ou, melhor dizendo, dos que se julgam com potencial para desfrutar de uma vida rica baseada em posses e consumo. Quem nunca ouviu alguém dizer "se eu ganhar muito dinheiro, me mudo para a Suíça", ou "não saia com este relógio de ouro; não estamos na Suíça" ou "quer respirar ar puro, vá para a Suíça". 

















Também conhecida pela excelência de seus relógios, tidos como os mais pontuais do mundo (contrastando com o moderador deste site), e pela fama de seus saborosos queijos, futebolisticamente falando, a Suíça nunca chamou muito a atenção. Em 1954, sediou uma excelente e imprevisível Copa do Mundo, onde uma grande potência do futebol começou a mostrar as suas armas: a temida Alemanha, então somente ocidental, que bateu o esquadrão húngaro de Puskas e levantou o seu primeiro caneco.

Em 54, a Suíça acabou eliminada nas quartas de final em um jogo maluco, como era comum naquele tempo, ao perder por 7 a 5 para a Áustria, berço do carismático, temível, inescrupuloso e monstruoso Adolf Hitler. Os dois países voltaram a se encontrar em 2008, quando sediaram em conjunto a Eurocopa — infelizmente, não passou da fase de grupos. Na verdade, sua grande conquista no futebol acabou sendo o seu poderio defensivo.

Em 2006, conseguiu a proeza de ser eliminada sem sofrer gols e saiu, portanto, invicta. Em 2010, o time alvirrubro conseguiu outra proeza: derrotar a Espanha, que viria a ser campeã. Entretanto, a equipe não conseguiu repetir o brilho defensivo de 2006 e, contando com sua histórica deficiência ofensiva, caiu ainda na primeira fase ao empatar com Honduras por um óbvio e costumeiro 0 a 0.  



 










Em 2026, a Suíça figura num grupo que não perdoa distrações e, de acordo com a lógica de sempre, deve brigar com determinação pela segunda vaga. Porém, em um torneio curto, realizado no calor norte-americano — que não tem nada a ver com os Alpes suíços —, tudo pode acontecer com uma velocidade que assusta.

Apesar de não contar mais com Shaqiri e com o veterano Seferović, a Suíça possui jogadores que têm chamado atenção e, por isso, é vista como uma seleção em ascensão consistente. Os veteranos Kobel (goleiro do Borussia Dortmund, seguro como um cofre suíço), Akanji (zagueiro do Inter de Milão, elegante e imponente), Granit Xhaka (o capitão eterno, que já era jovem promessa quando o texto anterior foi escrito e agora comanda tudo com 144 partidas nas costas) e Ricardo Rodríguez (lateral que chega em sua quarta Copa como se fosse a coisa mais natural do mundo) levam sua experiência para os jovens valores do time, como o dinâmico Dan Ndoye e o talentoso Fabian Rieder.

O maior destaque nominal do time suíço é o impetuoso e combativo Breel Embolo, centroavante do Rennes, com poder físico, pressing e aquela presença de área que os suíços raramente tiveram com tanta clareza. Porém, como sempre, é no ataque que os problemas podem aparecer. As demais opções ofensivas, como Amdouni, Itten e Zeqiri, precisarão provar que são capazes de resolver quando o jogo apertar de verdade. Mas jamais subestime a seleção suíça, até porque a equipe é comandada pelo perspicaz e meticuloso Murat Yakin, suíço de origem turca que transformou os rossocrociati em uma das seleções mais difíceis de bater da Europa.

  


 












Se me perguntarem se, mesmo assim, eu colocaria fé nesse time, eu responderia que, em outra esfera da realidade, sim. Mas nesta Copa do Mundo do calor americano, com jogos em cidades que jamais ouviram falar de fondue, sinceramente, não sei.

 




 











ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)

 A Suíça deve jogar no 3-4-2-1, marca registrada de Yakin, com três zagueiros, dois alas com liberdade para atacar e dois meias adiantados apoiando o centroavante. O esquema pode variar para um 4-3-3 dependendo do adversário, já que Yakin tem aquele hábito irritante dos treinadores inteligentes de mudar tudo sem avisar ninguém. A solidez defensiva continua sendo a espinha dorsal, mas desta vez há mais ambição nas transições para o ataque, o que é algo novo e levemente assustador para quem acompanha a seleção suíça há anos e espera um gol que nunca chega.








HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)



Luís Felipe Canto,
advogado
e amante de times aplicados taticamente, que conseguem
se defender dos tecnicamente superiores e surpreendê-los



[Nota do Autor: Gostaria de agradecer ao administrador e fundador do site a oportunidade de escrever nesse cultuado espaço; sem dúvida, a melhor fonte para quem quiser ficar por dentro das novidades desta Copa e da história de todas as outras. Sinto-me honrado em figurar ao lado de notórios conhecedores desse esporte que tanto amamos, apesar de tudo.]



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terça-feira, 26 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo B • Qatar

O Legado Dá Jogo




Um estádio pode nascer para desaparecer?
Em 2022, o Qatar apresentou ao mundo o Estádio 974, feito com os 974 contêineres que inspiraram seu nome e pensado como uma construção desmontável. Era a metáfora perfeita de uma Copa erguida para impressionar: moderna, cara, milimetricamente planejada — e, em alguns pontos, passageira.

Mas existe uma coisa que não se desmonta depois do apito final: o legado. A Copa de 2022 deixou no Qatar uma imagem contraditória. Fora de campo, o país virou centro do planeta: estádios futuristas, metrôs modernos, tecnologia de ponta, organização invejável e a final inesquecível entre Messi e Mbappé, em Lusail. Dentro de campo, porém, a seleção anfitriã foi pequena diante do próprio palco: três jogos, três derrotas e a sensação de que o país havia construído uma festa maior do que seu futebol. Por isso, 2026 tem outro peso.














O Qatar não chega mais carregado pela condição de anfitrião. Chega classificado pelo campo. A vaga conquistada contra os Emirados Árabes, com vitória por 2 a 1, foi mais do que um resultado: foi uma resposta. Depois de ser lembrado pela eliminação precoce, o Qatar agora tenta transformar a sede de 2022 em sede de vitória. O desafio é provar que o projeto iniciado antes da Copa em casa não terminou na arquitetura. Que as academias, os torneios, os investimentos e a experiência acumulada também formaram uma seleção capaz de competir. Não basta ter mostrado estádios; agora é preciso mostrar futebol.

A equipe chega sob o comando de Julen Lopetegui, técnico espanhol que conhece bem a pressão de uma Copa: em 2018, foi demitido da Espanha às vésperas do Mundial após acertar com o Real Madrid. Agora, no Qatar, tem a missão de dar mais competitividade a uma seleção que aprendeu a vencer na Ásia — é a atual bicampeã continental —, mas ainda busca respeito mundial.

O time tem nomes experientes, como Hassan Al Haydos, Pedro Miguel e Ahmed Alaaeldin. No gol, Meshaal Barsham é uma das figuras importantes da geração vitoriosa. No ataque, Almoez Ali segue como referência de área e presença física. Mas o craque é Akram Afif. Ele é o jogador capaz de fazer o Qatar parecer mais do que organizado: pode fazê-lo parecer perigoso. Criativo, decisivo, forte na bola parada e capaz de transformar um lance comum em chance clara de gol, Afif é o rosto técnico dessa tentativa de renascimento.




 













Em 2022, o Qatar mostrou que sabia organizar uma Copa.

Em 2026, precisa mostrar que também sabe jogar uma.
















ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)








HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)




MARCELO MARTENSEN (MILAN)

publicitário e criador do "De Letra na Copa"



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Copa 2026 • Grupo B • Bósnia e Herzegovina

 Dos Escombros à Copa



Enquanto o Brasil parava para ver o tetra em 1994, a Bósnia e Herzegovina ainda tentava entender se sequer teria um país para chamar de seu. A frase parece pesada, mas define bem a história de uma seleção que nasceu em meio à guerra. Enquanto o mundo assistia às jogadas de Romário e Bebeto na Copa dos Estados Unidos, a Bósnia vivia bombardeios, cidades destruídas e famílias fugindo para sobreviver após o fim da Iugoslávia.

Em Sarajevo, campos foram destruídos e clubes tradicionais quase desapareceram no caos do conflito. Mesmo assim, o futebol virou refúgio para um povo dividido por etnias e religiões. Foi nesse cenário que surgiram nomes como Edin Džeko, que cresceu ouvindo sirenes de ataque antes de se tornar o maior ídolo do país, e Vedad Ibišević, que fugiu da guerra como refugiado e, anos depois, marcou o primeiro gol da história da Bósnia em Copas do Mundo.
















A classificação para a Copa de 2014 foi muito mais do que futebol. Era uma forma de mostrar ao mundo que um país destruído ainda conseguia sonhar. A seleção acabou se tornando símbolo de união para um povo que, durante anos, viveu separado pelo medo e pela guerra.

Em 2026, no Grupo B, a missão parece difícil. Mas, depois de superar guerras, destruição e anos tentando reconstruir o próprio país, talvez o futebol tenha se tornado justamente o lugar onde a Bósnia mais aprendeu a desafiar o impossível. Depois de vencer a repescagem contra a poderosa Itália nas eliminatórias e deixar os italianos fora de outra Copa, o sonho agora é chegar pela primeira vez à fase de mata-mata.
















Para muita gente, pode parecer apenas futebol. Mas, para a Bósnia e Herzegovina, cada jogo ainda carrega algo maior: a prova de que um país que quase desapareceu conseguiu encontrar no futebol um motivo para seguir unido.















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Wagner Vieira (Wagnão)
empresário, gremista e apreciador do futebol do leste europeu


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