No BC Place de Vancouver, num mar vermelho e civilizado (torcida de pé, bonés à mão durante os hinos, ao melhor estilo da Colúmbia Britânica), o primeiro tempo foi morno e tático. A Suíça de Murat Yakin teve a melhor chance logo aos 11, quando Embolo saiu cara a cara após lançamento de Ricardo Rodríguez, mas finalizou com a perna que "só sobe no ônibus" e parou em Crépeau. O Canadá de Jesse Marsch cresceu no fim da etapa, sem pontaria. Cartões a Larin e Xhaka aos 32 esquentaram o ambiente, e foi 0 a 0 ao intervalo.
O recomeço foi retumbante. Aos 46 segundos da volta, Manzambi puxou pela direita e cruzou rasteiro para Rubén Vargas, livre na segunda trave, fuzilar: 1 a 0. Aos 57, Embolo segurou a bola de costas e tocou para o próprio Johan Manzambi, que, aproveitando um vacilo da zaga (Johnston escorregou) e uma falha de Crépeau, bateu de primeira para fazer 2 a 0.
A joia suíça, atacante de 19 anos do Freiburg, chegou ao seu terceiro gol no torneio (já havia feito dois saindo do banco contra a Bósnia) e assumiu a artilharia da seleção em seu primeiro jogo como titular. O Canadá descontou aos 76 com Promise David, recém-ingressado na partida, num voleio oportunista após bela assistência de Saliba. Ao final do jogo ainda teve um abafa emocionante. Johnston e Cornelius cabecearam bem, mas Gregor Kobel fechou o gol. Com isso a Suíça, eficiente como sempre, terminou líder do Grupo B com 7 pontos.
Em Seattle, o jogo demorou 29 minutos para fazer
despontar uma estrela. Kerim Alajbegović (18 anos, nascido em Colônia, de pais
bósnios de Bugojno, que recusou a Alemanha para vestir a camisa do país dos
avós) driblou dois marcadores e soltou uma bomba de fora da área, no ângulo:
em um dos gols mais bonitos da primeira fase. O moleque, revelação do RB
Salzburg, já tem passagem confirmada ao Bayer Leverkusen, em julho, o que
aponta promissora carreira. Aos 34, a Bósnia fez o segundo: numa tentativa de
tabela de Edin Džeko, Sultan Al-Brake desviou contra o próprio gol.
E aqui mora o drama. Aos 40 anos, Džeko ainda
acertou a trave, em seguida, e ficou em branco. Tivesse aquele lance sido
creditado a ele, o eterno camisa 9, que não balançava as redes em Copas desde
2014 (na estreia da seleção no Mundial do Brasil), viraria o terceiro
artilheiro mais velho da história, atrás apenas de Roger Milla (42 anos, 1994)
e de Cristiano Ronaldo, que justamente na véspera, aos 41, pulara para o
segundo posto contra o Uzbequistão.
O gol contra e a arbitragem lhe roubaram a glória;
coube ao garoto, que nas Eliminatórias o servira de assistência, herdar o
protagonismo. O bastão de craque bósnio, dessa maneira, definitivamente passou
de mão.
O Qatar, por sua vez, diminuiu aos 42 com o capitão
Hassan Al-Haydos e quase empatou (Pedro Miguel enfiou bola na trave no segundo
tempo), mas a Bósnia de Sergej Barbarez controlou bem o jogo e, aos 80, Ermin
Mahmić aproveitou nova falha catari para selar o 3 a 1 e sua inédita
classificação ao mata-mata.
Encerrada a fase inicial, portanto, a Suíça avança
em primeiro (7 pts.) e pega um terceiro colocado nas oitavas; o Canadá,
vibrante no ataque, porém frágil na defesa e uma dor de cabeça para Marsch,
fecha em segundo (4 pts.) e vai cruzar com o vice do Grupo A.
Já a Bósnia (4 pts.) lidera a tabela dos melhores
terceiros, embalada por seu promissor adolescente e eterno ídolo quarentão. Já
o Qatar, pouco competitivo, foi punido pelos próprios erros, despedindo-se na
lanterna, sem vitórias.
O Grupo B se foi como começou: com a frieza suíça
mandando no relógio e a juventude lembrando que toda Copa coroa um novo herói.
Rafael
Bauer (POPERA)
Professor
Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da
Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais
(Brasil e Rússia)




