quarta-feira, 8 de julho de 2026

2026 | El Mozo de la Ilusión

 







Certas noites recusam-se a terminar quando o relógio determina. Permanecem abertas, como se o próprio tempo hesitasse em encerrar aquilo que ainda não esgotou suas possibilidades. A Argentina conhece esse território como poucas seleções. Não porque ignore a derrota, mas porque se mostra incapaz de aceitá-la antes do último instante.

O Egito esteve perto de escrever uma das maiores páginas de sua história. Organizado, disciplinado e valente, abriu dois gols de vantagem diante da campeã do mundo e obrigou os argentinos a caminhar pela estreita fronteira que separa a esperança da resignação. Durante boa parte da partida, não havia saída.

 



 










Foi então que Lionel Messi voltou a fazer aquilo que os grandes artistas realizam quando a obra desmorona: recusou o desfecho mais provável. Aos trinta e nove anos, dono de uma carreira que já não precisa provar nada, continua jogando como se cada partida fosse a primeira e a última. Marcou, criou, conduziu e, ao apito final, chorou. Não eram lágrimas de quem conquistava apenas uma classificação. Eram as de alguém que ainda enxerga a Copa do Mundo como um privilégio que exige entrega absoluta.

A reação argentina pertence àquelas raras viradas que permanecem na memória coletiva dos Mundiais. Não apenas pelo placar, mas pela maneira como foi construída. Diante de um adversário que resistia com admirável dignidade, a equipe de Scaloni encontrou forças para transformar o impossível em provisório e o improvável em realidade.

















As discussões surgidas depois do apito final não alteram a essência da noite. A classificação foi conquistada dentro do campo, onde a Argentina precisou superar um oponente excelente e um cenário que se desenhava perdido. O Egito despede-se de cabeça erguida. Fez a maior partida de sua história em Mundiais e obrigou a campeã do mundo a oferecer sua melhor versão.

Os grandes tangos guardam um segredo que o futebol argentino aprendeu há muito tempo: o último compasso nunca pertence ao desespero, mas à esperança.

Foi por isso que a Argentina voltou.

Não apenas ao placar.

Voltou ao lugar onde sempre se sente mais confortável: aquele em que a emoção desafia a lógica e a coragem se recusa a obedecer ao destino.

 



 

 

 










Eduardo Canto (DUDA)

Por las manos del tango

Poeta, santista e aficionado pelo fútbol argentino