quinta-feira, 11 de junho de 2026

2026 | O Santuário da Copa








Muito antes do futebol virar uma religião, o vale do México já era o cenário de uma civilização grandiosa, onde os astecas erguiam impérios movidos pela paixão e por rituais de jogos coletivos. Essa mesma energia pesada, quase sagrada, parece ter ficado impregnada no cimento do Estádio Azteca. O colosso mexicano não ganhou o nome dos antigos guerreiros por acaso. Foi naquele gramado que Pelé virou rei, em 1970, e onde Maradona assinou sua genialidade, em 1986. Hoje, ao abrir as portas para sua terceira Copa do Mundo, o Azteca faz o que nenhum outro estádio no planeta conseguiu: vira a ponte entre o passado dos deuses e o nascimento de novas lendas.


















Como se o futebol gostasse de espelhos, África do Sul e México fizeram uma espécie de jogo de volta, 16 anos depois de abrirem a Copa de 2010. Desta vez, contudo, os ventos da globalização desenharam outro enredo. O primeiro gol do Mundial nasceu dos pés de Julián Quiñones, um colombiano naturalizado mexicano, reflexo daquela que já é considerada a Copa com o maior número de atletas nascidos fora dos países que defendem. Esse novo mapa do futebol deixa ainda mais isoladas as raras seleções que seguem sem nenhum jogador nascido fora de suas fronteiras — oito, no total, entre elas o Brasil.

Não foi surpresa ver o México tomar as rédeas da partida desde o início — menos ainda ver Quiñones como protagonista. Artilheiro da Saudi Pro League pelo Al Qadsiah, com 33 gols, à frente de Cristiano Ronaldo, o camisa 16 precisou de apenas 9 minutos para inaugurar a Copa. A defesa sul-africana bobeou e a bola sobrou limpa para ele chutar forte, por entre as pernas do goleiro Williams. O domínio mexicano foi absoluto no primeiro tempo, e o próprio Quiñones quase ampliou a vantagem com um chute na trave.

 















Se a primeira etapa foi de Quiñones, a segunda foi de Raúl Jiménez. O atacante, que anos atrás lutou pela própria vida após uma grave fratura craniana, provou que o destino às vezes recompensa os persistentes. Aos 35 anos, com a mesma cabeça que quase o tirou do futebol, subiu para selar o placar e transformar o gol em redenção — o primeiro dele em Copas do Mundo.

Mas nem só de glórias vive o futebol. O espetáculo ganhou contornos de comédia pastelão com a arbitragem de Wilton Pereira Sampaio, primeiro brasileiro a apitar uma abertura de Mundial. Conhecido pelo pulso firme, ele distribuiu três cartões vermelhos na partida — o primeiro hat-trick em um jogo inaugural de Copa. Em uma das expulsões mais bizarras da noite, Wilton tentou explicar a decisão em inglês para a transmissão, enquanto um jogador sul-africano ao lado parecia não entender absolutamente nada. A cena viralizou, mas deixemos o meme para as redes: no velho Azteca, até a arbitragem encontrou um jeito de entrar para a história.
















Do futebol-arte de Pelé à redenção de Raúl Jiménez, o Azteca provou de novo que é muito mais do que um estádio de concreto. É um teatro vivo em que o trágico, o histórico e o cômico se misturam, lembrando que o futebol muda suas regras e fronteiras, mas nunca perde a alma. 




 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário, criador do De Letra na Copa