Durante dias, as redes sociais trataram de escrever
o roteiro da partida antes do primeiro apito. Vozinha tornou-se personagem
mundial, Cabo Verde converteu-se na esperança dos que aguardavam a grande
surpresa da Copa, e a eliminação argentina passou a ser anunciada como
inevitável. O futebol, entretanto, conserva um velho hábito: prefere os fatos
às previsões e raramente se deixa seduzir pelos algoritmos.
A classificação exigiu da Argentina tudo o que uma
campeã pode oferecer. Messi abriu o caminho com um gol reservado aos homens
capazes de enxergar espaços invisíveis. Cabo Verde respondeu duas vezes e
confirmou aquilo que já demonstrara ao longo da competição: não atravessara a
fase de grupos por acaso. Resistira à Espanha, enfrentara o Uruguai sem temor e
chegava ao primeiro mata-mata convencida de que nenhuma camisa bastaria para
vencê-la. Em muitos instantes, a impressão era a de que seus jogadores se multiplicavam
pelo gramado, fechando brechas com a mesma intensidade com que atacavam.
A prorrogação transformou-se num exercício de
resistência. Já não existiam favoritos nem azarões. Apenas duas seleções
entregues ao limite das próprias forças, disputando cada palmo do campo como
quem defendia uma biografia inteira. Quando o terceiro gol argentino enfim
surgiu, não mais representava apenas a classificação. Representava o triunfo de
uma equipe que soube atravessar a tormenta sem renunciar à própria identidade.
Talvez a homenagem mais justa a Cabo Verde consista
precisamente em reconhecer sua grandeza. Não caiu uma zebra. Caiu uma seleção
admiravelmente organizada, valente e merecedora dos aplausos que recebeu ao
deixar o campo.
Os grandes tangos nunca confundiram emoção com
facilidade. Também esta noite foi assim. A Argentina não avançou por caminhos
abertos. Seguiu adiante porque aceitou sofrer. E há conquistas cujo verdadeiro
valor só se revela quando a dificuldade lhes confere a medida exata.
Eduardo Canto (DUDA)
Por las Manos de la
Poesía
Poeta, santista e aficionado pelo fútbol argentino
(e agora também pelo cabo-verdiano)




