terça-feira, 26 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo B • Bósnia e Herzegovina

 Dos escombros à Copa



Enquanto o Brasil parava para ver o tetra em 1994, a Bósnia e Herzegovina ainda tentava entender se sequer teria um país para chamar de seu. A frase parece pesada, mas define bem a história de uma seleção que nasceu em meio à guerra. Enquanto o mundo assistia às jogadas de Romário e Bebeto na Copa dos Estados Unidos, a Bósnia vivia bombardeios, cidades destruídas e famílias fugindo para sobreviver após o fim da Iugoslávia.

Em Sarajevo, campos foram destruídos e clubes tradicionais quase desapareceram no caos do conflito. Mesmo assim, o futebol virou refúgio para um povo dividido por etnias e religiões. Foi nesse cenário que surgiram nomes como Edin Džeko, que cresceu ouvindo sirenes de ataque antes de se tornar o maior ídolo do país, e Vedad Ibišević, que fugiu da guerra como refugiado e, anos depois, marcou o primeiro gol da história da Bósnia em Copas do Mundo.
















A classificação para a Copa de 2014 foi muito mais do que futebol. Era uma forma de mostrar ao mundo que um país destruído ainda conseguia sonhar. A seleção acabou se tornando símbolo de união para um povo que, durante anos, viveu separado pelo medo e pela guerra.

Em 2026, no Grupo B, a missão parece difícil. Mas, depois de superar guerras, destruição e anos tentando reconstruir o próprio país, talvez o futebol tenha se tornado justamente o lugar onde a Bósnia mais aprendeu a desafiar o impossível. Depois de vencer a repescagem contra a poderosa Itália nas eliminatórias e deixar os italianos fora de outra Copa, o sonho agora é chegar pela primeira vez à fase de mata-mata.
















Para muita gente, pode parecer apenas futebol. Mas, para a Bósnia e Herzegovina, cada jogo ainda carrega algo maior: a prova de que um país que quase desapareceu conseguiu encontrar no futebol um motivo para seguir unido.















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Wagner Vieira (Wagnão)
empresário, gremista e apreciador do futebol do leste europeu



Copa 2026 • Grupo B • Canadá

Toronto contra o tempo



Estamos a menos de um mês da Copa do Mundo, e a ideia é trazer um pouco do clima diretamente de Toronto. Para começar, a prefeita Olivia Chow não ajudou muito. Depois de prometer que a Fan Fest da cidade teria entrada gratuita, voltou atrás e anunciou cobrança de 10 dólares canadenses por pessoa — na cotação de 24 de maio de 2026, 1 dólar americano valia 1,38 dólar canadense. A reação foi imediata. A população chiou, a prefeitura recuou e garantiu que 80% dos ingressos seriam gratuitos. Ainda assim, os outros 20% seguirão pagos, destinados a áreas VIP.

Como se não bastasse, o estádio do Toronto FC, palco dos jogos da cidade, também virou assunto. Em vez de uma ampliação permanente, os organizadores optaram por arquibancadas temporárias. Para quem vê de perto, a cena não é exatamente tranquilizadora. O estádio fica em frente ao Lake Ontario, região de muito vento. Some a isso torcedores de Copa pulando, vibrando e comemorando gols, e a preocupação parece compreensível. Os testes realizados até agora não aliviaram muito esse receio. Alguns torcedores já relataram uma experiência incômoda, e Toronto convive com o nada honroso apelido informal de “pior estádio da Copa”.


Dentro de campo, o Canadá também corre contra o tempo. A grande dúvida é Alphonso Davies, lateral-esquerdo do Bayern e principal estrela da seleção, que sofreu lesão muscular na coxa esquerda na semifinal da Champions, contra o PSG. A convocação sai em 29 de maio, mas na estreia o capitão deve ser Stephen Eustáquio, meio-campista do Los Angeles FC, mantendo viva a tradição da comunidade portuguesa no futebol canadense. No ataque, a esperança passa por Jonathan David, nascido nos Estados Unidos e naturalizado canadense. Atualmente na Juventus, ele soma 35 partidas e 6 gols, mas ainda não se firmou como titular absoluto.

Entre desfalques, incertezas, trapalhadas políticas e arquibancadas preocupantes, Toronto chega à Copa cercada de perguntas. Ainda mais em um país apaixonado por hóquei no gelo e em uma cidade que também vibra com os Raptors, no basquete, e os Blue Jays, no beisebol.


O sucesso da Copa em Toronto, por enquanto, segue como incógnita. O jeito será acompanhar tudo de perto e trazer para vocês o que acontecer por aqui. Porque, com ou sem Copa do Mundo, Toronto continua sendo uma cidade espetacular — e vale muito a pena conhecê-la.
































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Frederico Neumann (FREDÃO)

Comunicólogo, cantor, compositor e empreendedor,

mora com a família em Toronto há 9 anos.




segunda-feira, 25 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo A • Tchéquia

A Boêmia nunca foi um país de meias medidas

(O careca espremedor de laranjas que o diga)



A Tchéquia, que durante anos teve que explicar ao mundo inteiro que não era a Eslováquia — e que o nome comprido, República Tcheca, estava saindo de moda porque ninguém conseguia colocá-lo adequadamente numa camiseta — chegou à Copa do Mundo de 2026 com aquela postura específica de quem sempre soube que era ruim, mas raramente teve a oportunidade certa para provar isso num palco que valesse o esforço. A mudança de nome para Tchéquia, oficializada em 2016 junto com o nome em inglês, Czechia, foi uma decisão que demorou décadas para acontecer e que ainda causa confusão em comentaristas de televisão no mundo inteiro. O que, de certa forma, é uma metáfora perfeita para o próprio país: claro por dentro e complicado de explicar para quem está de fora, olhando sem paciência suficiente.

Praga é uma cidade que torna as pessoas poéticas involuntariamente, o que é um problema sério quando se está tentando escrever sobre futebol e fica pensando no rio Vltava, na arquitetura barroca e em Franz Kafka, que nasceu ali e passou a vida tentando descrever burocracias absurdas sem saber que, com precisão de profeta, também estava antecipando o processo de classificação para fases avançadas de uma Copa do Mundo ou de uma Eurocopa — ainda que disputada sob a égide de controles remotos.

 



 











A cerveja tcheca é a melhor do mundo, ainda que o apologista da ioga, mestre Carica, discorde em seus momentos mais efusivos nas cadeiras aconchegantes dos pubs azuis. Não se trata de opinião: é um fato estabelecido que qualquer pessoa que tenha visitado o país — como nosso amadíssimo Popera — e entrado num pub em Praga confirmaria sem hesitação. E mencionar isso num texto sobre Copa do Mundo não é desvio de tema, porque a cultura da cerveja tcheca diz algo fundamental sobre o povo que a produz: há uma seriedade absoluta em relação às coisas que importam, uma recusa em fazer pela metade aquilo que se decidiu fazer com cuidado. Os tchecos fazem cerveja com essa seriedade há séculos, com resultados que o mundo inteiro tenta imitar.

 



 











A seleção de 2026 joga com um princípio parecido: seriedade aplicada, sem exibicionismo desnecessário, sem floreios que não sirvam a um propósito real. É um futebol menos preocupado em chamar atenção por comemorações efusivas e mais interessado em sobreviver, competir e, se possível, vencer. Algo que vai muito além da estética — embora a memória ainda permita lembrar, com a devida reverência, aquelas cabeçadas precisas de um careca decisivo diante da tremedeira laranja, no quarto do primo que preferiu a distância quando foi confrontado com a realidade implacável da quarta década de vida.

O país que, por séculos, muitos chamaram de Boêmia — antes de integrar o Império Austro-Húngaro, depois a Tchecoslováquia e, por fim, separar-se pacificamente da Eslováquia em 1993, no chamado Divórcio de Veludo, nome que nada tem a ver com a calça que o blogueiro do De Letra odiava possuir — carrega dentro de si uma tradição cultural que vai muito além do futebol, mas que ajuda a explicar bastante sobre a maneira como os tchecos jogam.

Bedřich Smetana compôs Má vlast, Minha Pátria, que é uma das obras mais emocionalmente complexas de toda a música clássica europeia. Há algo na maneira como aquela música oscila entre a grandiosidade e a melancolia que ressoa perfeitamente com a maneira como a seleção tcheca aborda um torneio: com a consciência de que pode ser grandioso, mas com a memória de que as coisas também podem virar pelo avesso sem muito aviso.

 



 













Antonín Panenka inventou o pênalti mais famoso da história, em 1976: aquela cavada delicada no centro do gol que deu à Tchecoslováquia o título europeu e proporcionaria o bi em 2008 (?). Desde então, carrega o seu nome em todas as línguas do futebol mundial.  Mencionar Panenka aqui é obrigatório porque, nas oitavas de final da Copa, a Tchéquia irá para os pênaltis e o quinto cobrador fará exatamente uma “panenka”, com aquela audácia tranquila de quem é nascido em Praga para entender completamente. A bola entrará no centro das redes enquanto o goleiro adversário já terá mergulhado para o canto; a torcida tcheca, no estádio e em todos os pubs do país, viverá aquele silêncio de dois segundos que precede um grito muito maior do que o tempo que o separa da eternidade.


 


 









Nas quartas, a Tchéquia encontrará um adversário com mais estrelas, mais dinheiro nos clubes representados, mais histórico de Copa do Mundo e aquela confiança de quem nem precisou conferir duas vezes quem estava do outro lado para se sentir em posição confortável. Será um daqueles jogos em que o futebol decide que ser belo independentemente do resultado, em que cada posse de bola parece ter peso e cada troca de passes carrega algo que vai além da tática. A Tchéquia jogará quarenta e cinco minutos que, daqui a vinte anos, aparecerão em documentários como exemplo de como uma equipe menor pode obrigar uma equipe maior a disputar os quarenta e cinco minutos seguintes com um respeito que não estava nos planos originais de ninguém.

A Tchéquia perderá nas quartas de final, mas perderá de uma maneira qualitativamente diferente de simplesmente perder. Cairá depois de mostrar que era boa o bastante para incomodar quem chegou até ali achando que não precisaria suar tanto. Há uma dignidade específica nesse tipo de derrota, e os tchecos parecem entendê-la bem: são um povo que atravessou a ocupação nazista, a dominação soviética e a dissolução de um país inteiro, chegando do outro lado com a identidade intacta — na cerveja, na cultura e, de vez em quando, no futebol.

O legado dessa Copa para a Tchéquia não será fácil de medir em estatísticas. Elas não capturam adequadamente o que acontece quando um país que passou anos explicando que havia mudado de nome para algo mais simples de caber numa camiseta aparece em uma Copa do Mundo e faz o mundo inteiro aprender não apenas esse nome, mas também alguns sobrenomes complicadíssimos de jogadores que, de repente, todos querem pronunciar corretamente. Koller era fácil. E essa é uma forma muito particular de respeito que o futebol oferece — talvez a única plataforma cultural capaz de espalhar reconhecimento com tanta velocidade e tamanha abrangência geográfica.

 



 










A Boêmia histórica — aquela região que ajudou a dar ao mundo o adjetivo “boêmio”, usado para descrever quem vive fora das convenções com elegância e sem pedir desculpas — estará presente na seleção de 2026 de uma maneira que talvez ninguém articule explicitamente, mas que qualquer pessoa atenta conseguirá perceber. Estará naquele jeito de jogar que não é previsível o bastante para ser contido, nem caótico o suficiente para ser ignorado; naquele espaço intermediário onde as coisas mais interessantes costumam acontecer quando um time decide ser fiel a si mesmo, independentemente do que os adversários planejem fazer a respeito.

A Tchéquia voltará. Voltará com um nome que o mundo já aprendeu a escrever, com jogadores cujos sobrenomes os locutores acabarão aprendendo a pronunciar de maneira razoável. Voltará com aquela seriedade de quem sabe que as coisas boas levam o tempo que precisam levar e não melhoram simplesmente porque alguém decidiu apressá-las. E voltará com a memória de 2026 funcionando como aquele tipo de combustível que não aparece no tanque, mas está lá, presente em cada decisão que uma equipe toma quando o jogo fica difícil e a única opção real é continuar sendo o que se é — com a convicção de que isso basta para construir algo digno de ser lembrado. Como ainda são lembrados 1976 e 2008 (?), mesmo que os livros insistam em discordar.

 


 












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      Luís Felipe Canto (PERU)

                                                                                 Advogado e amante de times aplicados taticamente, que conseguem se defender dos tecnicamente superiores e surpreendê-los



 

 

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Copa 2026 • Grupo A • Coreia do Sul

Do Hangul ao gol





O Hangul, alfabeto coreano criado no século XV, nasceu para aproximar o povo das palavras. Suas letras têm lógica, desenho e encaixe — na Coreia do Sul, até a escrita parece lembrar que organização também pode produzir beleza. Ali, de certa forma, até o alfabeto tem vocação tática.

No futebol, a seleção tenta fazer algo parecido: obrigar o mundo a entendê-la. Para quem vê de fora, a escalação coreana pode soar como uma coleção de nomes parecidos e pronúncias traiçoeiras: tantos Kim, Lee, Hwang e Cho que, à primeira vista, parecem falta de criatividade. Mas cada nome tem som, sentido e identidade — quase como uma jogada bem treinada.

O problema é que, no futebol, nem sempre a bola respeita a gramática. A Coreia sabe disso melhor do que ninguém. Já foi coadjuvante, zebra e anfitriã. Em 2002, escreveu sua página mais famosa. Chegou à semifinal e obrigou o planeta a pronunciar seu nome com cuidado: “Dae Han Min Guk!”
















Desde então, carrega uma mistura curiosa de orgulho e cobrança. Não basta mais participar; a Coreia já aprendeu a aparecer. É um país de tecnologia rápida, cultura pop exportável e futebol elétrico. Quando ataca, parece videoclipe: acelera, corta, muda o ritmo. Quando sofre, vira drama coreano: tensão, lágrimas e plot twist. Afinal, toda Copa precisa de um personagem que não entra como favorito, mas deixa alguém grande desconfortável no sofá.

A Coreia costuma ser esse tipo de visita: educada, sorrateira e fatal. Na última Copa, transformou cálculo em drama. Parecia eliminada, virou sobre Portugal nos acréscimos e deixou o Uruguai fazendo conta — e as malas. Isso depois de já ter aprontado em 2018, quando venceu a Alemanha e ajudou a eliminar a então campeã mundial ainda na fase de grupos.

Para a Copa de 2026, chega com um nome acima de todos: Son Heung-min, agora no Los Angeles FC. É capitão, símbolo e talvez protagonista de uma última empreitada. Ao lado dele, Kim Min-jae, do Bayern, dá peso europeu à defesa. No meio, Lee Kang-in, do PSG, oferece talento e imaginação. Hwang Hee-chan, dos Wolves, acrescenta força, velocidade e faro de gol no ataque.














No banco, Hong Myung-bo, herói de 2002, tenta transformar memória em inspiração. A expectativa é realista: passar da fase de grupos já renderia uma boa história. Chegar mais longe seria transformar subtítulo em manchete. Porque a Coreia pode não ser favorita, mas sabe muito bem escrever surpresas.















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Marcelo Martensen (MILAN)

publicitário, colecionador de histórias do

futebol e criador do "De Letra na Copa";

entende de Copas; de Hangul, segue tentando






 

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