Na partida de Nova Jersey, a Noruega tinha um plano: passava pelos pés de Haaland. Não havia novidade nenhuma nisso. Estava
nas estatísticas, escancarado para quem quisesse ver: Haaland tinha apenas 47
toques na bola em toda a Copa de 2026, com uma média absurda de 6,7 toques para
cada gol marcado. Estava claro: o Colossus da Noruega é uma força brutal, e quando
embala, ninguém segura no corpo a corpo. É um tanque de impacto físico, feito
para tocar pouco na bola e causar muito estrago na área. Por isso, Haaland
precisava ser marcado de perto. Não foi.
Mas não estamos aqui só para falar de Haaland.
Antes de ele decidir a partida, o Brasil teve duas chances de fazer o
mesmo. Na primeira, Bruno Guimarães telegrafou a cobrança de pênalti e permitiu
a defesa de Nyland. A pergunta veio na hora: por que Vini não bateu, se ele era
o craque do time? Ao que tudo indica, a decisão já vinha da comissão técnica
antes do jogo. Mas qual foi o critério? Já dizia Neném Prancha, um dos maiores
personagens do futebol brasileiro: “Pênalti é uma coisa tão importante que quem
devia bater é o presidente do clube”. E, naquele Brasil, o presidente era Vini.
A entrada de Endrick no 2° tempo deu ao Brasil a
profundidade que o jogo pedia, e logo na primeira bola essa escolha criou uma chance do tamanho da Copa. Mas o
menino adiantou demais a bola, o goleiro norueguês cresceu na frente dele e, na
tentativa de tirar, acabou tirando demais: para fora. Em outros tempos, Ronaldo
ou Romário teria driblado o goleiro e empurrado para o gol vazio. Já dizia
Muricy Ramalho: “A bola pune”. E, depois de duas chances claras desperdiçadas,
estava escrito que iria punir.
O problema é que, poucos minutos depois, a entrada
de Neymar desmontou a ideia: Endrick foi empurrado para a ponta, o Brasil
perdeu a referência na área e a profundidade que tinha acabado de aparecer foi
jogada fora. Neymar até poderia ter entrado, mas não naquela
circunstância. O time precisava insistir no que havia funcionado. Ao mexer tão
rápido, Ancelotti matou uma opção correta antes que ela amadurecesse e abriu
caminho para a Noruega crescer. Com liberdade, o time escandinavo passou a
trocar passes diante da passividade brasileira e, a dez minutos do fim,
encontrou espaço nas costas de Danilo para fazer um cruzamento chegar onde não
deveria: na cabeça de Haaland. Noruega 1 a 0.
E quando uma seleção termina um jogo com apenas 34%
de posse de bola, a pior marca brasileira em Mundiais desde o início dos
registros, em 1966, não dá para esperar outro desfecho além de mais espaço para
o adversário finalizar. Pouco antes dos 90 minutos, Haaland recebeu na entrada
da área, teve tempo para ajeitar o corpo, escolher o canto e bater sem
marcação, no canto de Alisson: 2 a 0.
A Seleção ainda diminuiu em outro pênalti, marcado após uma cotovelada em Casemiro. Nyland provocou, Neymar entrou na pilha, mandou o goleiro escolher o canto e marcou. Depois, bateu boca com o norueguês, numa cena deprimente e desnecessária. Nyland estava apenas ganhando tempo, com o Brasil sendo eliminado, enquanto Neymar caía exatamente no jogo emocional que a Noruega queria.
O fim do jogo foi o retrato de uma Seleção sem controle emocional. O Brasil terminou brigando com o relógio e com os noruegueses, enquanto via se manter um tabu que atravessa décadas: contra a Noruega, a camisa mais pesada do mundo continua sem vitória. O retrospecto oficial conta com 5 jogos, 3 vitórias da Noruega e 2 empates. Os escandinavos são a única seleção do mundo que enfrentou o Brasil mais de uma vez e permanece invicta.
França, Holanda, Alemanha, Bélgica, Croácia e
Noruega: pela sexta Copa seguida desde o penta, a Seleção morreu no quinto jogo
para um europeu. Só que agora, com uma fase eliminatória a mais, a queda veio
ainda nas oitavas. Mudou o formato, mudou o tamanho do torneio, mas a ferida
continuou aberta no mesmo lugar. O sonho do hexa, mais uma vez, parou diante da
mesma porta fechada.
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário
e criador do De Letra na Copa,
nunca acreditou
na Seleção Brasileira





