por 2 a 0 para a Escócia, veio o 9 a 0 contra a Iugoslávia, uma goleada que expôs muito mais do que fragilidade em campo. Havia uma promessa de premiação não cumprida, coberta pela pressão política e baseada no medo. No último jogo, contra o Brasil, Mwepu Ilunga correu antes da cobrança de falta e chutou a bola para longe. Durante anos, o lance foi tratado como piada, mas, na verdade, carregava o desespero de um grupo que jogava sob ameaça.
O Zaire deixou aquela Copa sem nenhum ponto, sem
marcar um gol sequer e com uma história pesada demais para o mundo àquela
época. Depois, o próprio nome do país mudou. O regime caiu, o território voltou
a ser República Democrática do Congo e a bola seguiu atravessando uma história
marcada por guerras e saque de riquezas, reabrindo feridas principalmente no
leste do país. A seleção, por muito tempo, ficou presa à memória daquele
Mundial, pois a dificuldade de descobrir talentos e participar de Copas se tornou
constante.
Cinquenta e dois anos depois, a República
Democrática do Congo voltou à Copa, e já de cara para enfrentar Portugal, um
dos postulantes ao título. Do outro lado havia uma camisa tão pesada quanto a
história portuguesa recente: Cristiano Ronaldo, em sua sexta Copa, capitão de
uma nau acostumada a navegar em grandes mares.
Aos 41 anos, CR7 entrou em campo ainda tratado como
o farol de uma seleção portuguesa agora estrelada, mesmo pedindo outros ventos.
Carregava a pose de conquistador e a sensação de que vencer era obrigação,
desconhecendo que os congolenses não voltaram ao Mundial para fazer figuração.
Diante da nau portuguesa, havia um leopardo disposto a subir no convés.
Portugal saiu na frente com a certeza de que a
goleada era questão de tempo. Os jovens campeões do mundo em seus clubes ensaiaram
a jogada pela esquerda, até que Pedro Neto, do Chelsea, cruzou na cabeça de João Neves, do PSG. A
estreia parecia seguir o roteiro esperado para uma seleção candidata a ir longe,
mas a República Democrática do Congo não atravessou cinquenta e dois anos para aceitar apenas
um papel decorativo.
Quando Wissa apareceu no meio da zaga lusitana para
empatar, nos acréscimos da primeira etapa, o jogo mudou de sentido. Já não era
apenas Portugal deixando escapar uma vitória: era o Congo arrancando da própria
história uma página inteiramente sua, reescrita com orgulho, sem apagar a
memória.
O país que um dia foi reduzido a uma piada de
cobrança de falta voltou ao Mundial e saiu de campo de cabeça erguida. Desta
vez, em vez da bola, chutou o favoritismo para longe.
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário,
criador do De Letra na Copa
e entusiasta da República Democrática do Congo




