terça-feira, 7 de julho de 2026

2026 | O Silêncio do Azteca

 







Antes de falar da vitória épica da Inglaterra sobre o México, neste histórico 6 de julho de 2026, é preciso acender as luzes do palco onde essa história foi escrita. O México ainda não havia perdido em casa na história das Copas e, nesta edição, sequer tinha sofrido gol. No Estádio Azteca, o Santuário da Copa, a invencibilidade mexicana em Mundiais seguia intacta, guardada por décadas de mística. Mas havia um fantasma sentado na arquibancada.

Exatos 40 anos antes, naquele mesmo estádio, a Inglaterra viveu uma de suas derrotas mais dolorosas. Foi ali, em 1986, que Maradona escreveu contra os ingleses “La Mano de Dios” e marcou o gol mais famoso de sua carreira, quando driblou meio time bretão antes de empurrar a bola para a glória — uma ferida aberta no templo máximo das Copas. Quatro décadas depois, ela ainda assombrava o English Team. A Inglaterra voltou ao Azteca, mas, desta vez, não saiu assombrada.

 



 









Depois do resgate histórico, enfim, o jogo. E não foi qualquer jogo. México 2 x 3 Inglaterra já nasce como uma das grandes partidas desta Copa: pelo contexto, pelo palco e, sobretudo, pela atuação de Jude Bellingham. O primeiro tempo começou com o México dominando as ações, pressionando e tentando criar perigo, enquanto a Inglaterra buscava equilibrar a partida. Até que, em uma bela jogada de Saka, Bellingham apareceu para mergulhar de peixinho e inaugurar o placar: Inglaterra 1 a 0.

Sim, estávamos pedindo Saka como titular.

E nem deu tempo de comemorar. Poucos minutos depois, em mais uma bela troca de passes, Bellingham apareceu novamente para marcar seu segundo gol e ampliar para 2 a 0. O Estádio Azteca ficou atônito. Em 89 partidas disputadas pelo México no Santuário da Copa, apenas duas derrotas haviam sido registradas, nenhuma delas em Copas do Mundo. A Inglaterra estava prestes a escrever uma página histórica.

Mas o México reagiu.

Quiñones aproveitou uma bola rebatida dentro da área e acertou um chute violentíssimo para diminuir a vantagem inglesa: 2 a 1. O Santuário veio abaixo, e a pressão mexicana tomou conta dos minutos finais da primeira etapa.

 


O English Team voltou melhor para o segundo tempo e criou boas oportunidades logo nos primeiros minutos. Mas a partida ainda reservava seu momento mais dramático.

Quansah chegou atrasado em uma dividida, acertou a canela do adversário e recebeu cartão vermelho. A Inglaterra ficou com um jogador a menos, e o Azteca voltou a ferver.

Mas a Inglaterra tem Harry Kane.

Em uma bola lançada para o ataque, Kane, de alguma forma, conseguiu encontrar Gordon em velocidade. O atacante ficou cara a cara com o goleiro mexicano, o driblou e sofreu um pênalti incontestável. Que partida fez Gordon. Um dos melhores em campo. Fica fácil entender por que o Barcelona fez tanto esforço para contratá-lo para a próxima temporada.

Kane foi para a cobrança.

Gol.

Como sempre. Frio, preciso, inapelável.

Inglaterra 3 a 1.

Poucos minutos depois, porém, foi a vez de Kane cometer um pênalti. Jiménez converteu e recolocou o México no jogo. 3 a 2.

O Azteca pulsava.

Que jogo. Como não amar a Copa do Mundo?

 



 










O que se viu até o apito final foi uma pressão mexicana raramente vista. Cruzamentos, escanteios, bolas alçadas na área, finalizações de todos os lados. Ataque contra defesa. No meio daquele caos, Bellingham parecia estar em todos os lugares do campo. Defendia, marcava, armava, corria e ainda encontrava forças para segurar a bola. Uma atuação simplesmente espetacular.

Para aumentar ainda mais o drama, o árbitro acrescentou 11 minutos.

Onze.

Uma eternidade.

E a Inglaterra resistiu.

 



 









Uma vitória épica, construída em um dos cenários mais difíceis possíveis. Contra o México, no Azteca, com um jogador a menos e sob pressão sufocante até o último segundo. Thomas Tuchel cala seus críticos mais uma vez e mostra por que escolheu este grupo. Ele queria um time guerreiro, competitivo, intenso e com sangue nas veias.

 

Conseguiu.

Sim, a Inglaterra vai brigar pelo título.

E, depois de uma noite como esta, por que não sonhar?

It's coming home.

 

 

 

 

João Ferreira (Djandjas)

imigrante em Dublin e amante do futebol raiz, desde a Copa de 1986