sexta-feira, 29 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo E • Equador

Sem Sombra de Dúvida



O Equador chega à Copa do Mundo de 2026 cercado de desconfiança por parte dos europeus, mas com respeito cada vez maior dentro da América do Sul. Segunda colocada nas eliminatórias sul-americanas, a seleção mostrou organização, intensidade e maturidade para competir contra qualquer adversário.

 Há algo de simbólico no próprio nome do país. Por estar sobre a linha equatorial, o Equador vive um fenômeno curioso nos dias de equinócio, em março e setembro: ao meio-dia, a luz solar incide de forma quase perfeitamente perpendicular, fazendo com que as sombras de pessoas e objetos praticamente desapareçam por alguns instantes.

Talvez seja essa a melhor imagem para entender esta seleção. Durante muito tempo, o Equador viveu à sombra dos gigantes sul-americanos. Brasil, Argentina, Uruguai e até Colômbia sempre ocuparam mais espaço no imaginário do futebol mundial. Mas esta geração parece disposta a fazer sua própria sombra desaparecer — não por falta de peso, mas por estar exatamente no ponto em que queria chegar.

 


Liderado por Moisés Caicedo, destaque do Chelsea, o Equador encontrou um meio-campo moderno, físico e extremamente competitivo. É uma equipe que corre, marca, pressiona e não se intimida diante de camisas mais tradicionais. Na frente, Gonzalo Plata oferece velocidade, habilidade e ousadia, características que também chamam a atenção da torcida do Flamengo.

O mais interessante dessa geração é justamente o equilíbrio. O Equador não depende apenas de um craque ou de uma inspiração isolada. Tem uma base sólida, jogadores espalhados por grandes centros do futebol europeu e uma confiança que cresceu junto com os resultados. Aquilo que antes parecia improvável para o futebol equatoriano hoje já não causa espanto.

Enquanto alguns nomes ficaram pelo caminho, como Arboleda, que acumulou mais polêmicas do que atuações confiáveis, a seleção parece ter amadurecido sem olhar para trás. O grupo não sentiu falta. Pelo contrário: ganhou foco, hierarquia e uma identidade mais clara.

 



 









Muita gente ainda olha para o Equador e enxerga apenas um “pequeno país sul-americano”. Mas em Copa do Mundo, tamanho nunca entrou em campo. Alemanha, Costa do Marfim e qualquer outro adversário que subestimar essa equipe podem descobrir tarde demais que o Equador já deixou de ser azarão.

O Equador está longe de ser favorito ao título, mas toda Copa tem uma seleção que chega em silêncio, cresce no torneio e obriga o mundo a prestar atenção. Em 2026, poucos candidatos parecem tão perigosos quanto a La Tri sul-americana: uma equipe que já não vive à sombra de ninguém.

 


 














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HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar) 

 



Francisco Felsberg (XICO)

professor de remo em Caraíva e tricampeão de Bolão da Copa



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Copa 2026 • Grupo E • Costa do Marfim

A Nova Marcha dos Elefantes



A Costa do Marfim, conhecida como os Elefantes, é uma das seleções mais fascinantes do futebol africano. Carrega a memória de uma geração dourada, mas chega ao ciclo de 2026 com outra identidade e um novo fôlego: menos dependente de nomes históricos, mais organizada e confiante após a conquista da Copa Africana de Nações de 2024.

A estreia marfinense em Copas aconteceu em 2006, na Alemanha, justamente com um elenco que impunha respeito. Drogba, os irmãos Touré, Dindane e Kalou formavam uma equipe talentosa, de dar inveja. Entretanto, o sorteio foi cruel: Argentina, Holanda e Sérvia e Montenegro. Apesar de uma memorável vitória por 3 a 2 sobre os sérvios e um empate épico por 2 a 2 com os argentinos, a equipe foi eliminada ainda na fase de grupos. Em 2010, na África do Sul, o desafio não foi menor no grupo com Brasil, Portugal e Coreia do Norte — foi novamente eliminada. Em 2014, parecia pronta para enfim brilhar, com o já veterano Drogba em campo e jogadores da elite do futebol europeu, mas a derrota para a Grécia no fim do terceiro jogo derrubou novamente os Elefantes na fase de grupos. Depois disso, a seleção ficou fora das Copas de 2018 e 2022. Foi um balde de água fria na geração dourada, que havia chegado ao fim sem entregar tudo o que prometia, o que acelerou o processo de renovação.

 



 











O ciclo pós-geração dourada foi marcado por incertezas, trocas de treinadores e resultados irregulares. A reconstrução parecia não encontrar rumo até que a Costa do Marfim encontrou em Emerse Faé um técnico capaz de reorganizar o elenco e valorizar os novos talentos. O ponto de virada veio na Copa Africana de Nações de 2024, disputada em casa. Em um torneio que começou perto do desastre, com a seleção-sede à beira da eliminação ainda na fase de grupos, a equipe se reinventou no limite. Derrubou adversários de peso, cresceu jogo a jogo e se sagrou campeã continental pela terceira vez, vencendo a tradicional Nigéria na final. Mais do que um troféu, o título foi uma resposta. A prova de que a Costa do Marfim voltava a ter uma seleção competitiva, coesa e capaz de resistir à pressão quando o jogo exige mais do que talento.
















Nas eliminatórias para 2026, a Costa do Marfim mostrou a organização que faltou nos ciclos anteriores. Embalada pelo título da Copa Africana de Nações, manteve uma base estável, cresceu sob o comando de Emerse Faé e aproveitou o novo formato do Mundial, com nove vagas para a África, para confirmar seu retorno ao maior palco do futebol.

A espinha dorsal da Costa do Marfim mistura experiência, força física e juventude. Sébastien Haller, símbolo de superação após vencer um câncer nos testículos, é a principal referência ofensiva. No meio, Franck Kessié segue sendo uma peça de enorme importância pela energia e qualidade técnica, enquanto Simon Adingra oferece velocidade, drible e capacidade de decisão, e Yahia Fofana dá segurança entre as traves.

A seleção amadureceu sem romper com sua hierarquia, sinal de uma transição bem conduzida. Faé prefere uma base mais enxuta e entrosada a uma lista cheia de apostas, escolha que pode pesar a favor em uma Copa de tiro curto. Nomes como Karim Konaté,  Odilon Kossounou e Ibrahim Sangaré dão peso internacional ao elenco. Com Emerse Faé, os Elefantes parecem menos dependentes de lampejos individuais e mais sustentados por um grupo que já sabe competir junto.

No grupo com Alemanha, Equador e Curaçao, a classificação é possível — mas não automática. Se Adingra, Haller, Kessié e companhia encontrarem espaço, os marfinenses podem deixar de ser apenas uma ameaça simpática para se tornarem o incômodo que ninguém quer cruzar. Porque elefante, quando ganha embalo, não pede licença: atravessa.

 
















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HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar) 




João Ferreira (Djandjas)

imigrante em Dublin e amante do futebol raiz, desde a Copa de 1986



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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo E • Curaçao

A Grande Travessia





Prólogo


Malandros, tratantes e trapaceiros. Patifes e canalhas. Larápios, delinquentes, saqueadores e mulherengos.

Irmãos, estamos juntos até o fim.

Lutaremos face a face, correremos lado a lado, bradaremos em uma só voz e, juntos, conquistaremos corações e mentes. A travessia será severa. O tempo e o mar estarão contra todos nós. Ao fim dela, apenas um destino nos espera: o paraíso ou a morte.

“Adelante Kòrsou! Forsa, nos lo bai huntu pa Kòp i Glòria!”

Avante, Curaçao! Força, rumaremos juntos à Copa e à glória!

— Cmte. Barba Negra



A Copa do Mundo de 2026 traz, a despeito de qualquer prognóstico, um novo formato. Agora, o torneio passa a contar com 48 seleções, ampliando o mapa do futebol e permitindo que novos personagens escrevam a própria história. Entre eles está Curaçao, o senhor dos mares.

Diga-me você, caro leitor: como transformar sonhos em realidade?

 

Em tempos de Copa, tentamos encontrar sentido na imprevisibilidade da vida, como se cada jogo revelasse uma ordem escondida no caos. É nesse instante que o espírito de uma nação aparece: nas vozes que se unem, na emoção que atravessa gerações e na sensação de pertencimento coletivo. Como o Ouroboros, a serpente que engole a própria cauda, a Copa também fala de ciclos, renovação e eternidade. Assim é a vida. Assim é o futebol.

 



 











O pequeno país das Antilhas, fincado no mar do Caribe, chamado Curaçao, fez-se grande. Por sua posição estratégica nas rotas marítimas do Caribe, a ilha foi forjada durante séculos por disputas, travessias e encontros. Mesmo assim, nunca deixou de acolher viajantes. Agora, Curaçao chega à sua primeira Copa do Mundo e se torna a menor nação a disputar o torneio. Não se engane: a grandeza de um povo não se mede pelo tamanho do território, mas pela força com que ele se levanta. Como dizem os próprios curaçauenses: “Nos ta chiki, pero nos ta duru” — somos pequenos, mas somos fortes.

O povo de Curaçao é simples, alegre e profundamente ligado ao mar, à música e à vida comunitária. Sua torcida deseja representar muito mais do que futebol na Copa do Mundo. Quer entrar em campo junto com a seleção, levando uma alma vibrante, resiliente e colorida. Com cantos cheios de ritmo, cores intensas e paixão contagiante, Curaçao quer transformar cada partida numa celebração da identidade, do orgulho nacional e da esperança coletiva. Nos gramados, levará a energia calorosa de uma pequena nação com espírito gigante.

Dentro de campo, a seleção carrega traços da tradicional escola holandesa. Grande parte de seus jogadores foi formada nas categorias de base dos Países Baixos e cresceu dentro da cultura tática europeia. Leandro Bacuna, capitão da seleção, lidera o time dentro e fora de campo. É a peça-chave da equipe e simboliza um grupo que não vai à Copa apenas para aparecer na foto, mas para reverenciar seu povo. A esperança de gols passa por Gervane Kastaneer, artilheiro da seleção nas eliminatórias, com cinco gols em seis partidas, e pelo jovem atacante Jearl Margaritha, conhecido como “Panna” — pequeno portão —, dono de habilidade, velocidade e facilidade para driblar adversários.

 


Qual personagem entrará para a história de Curaçao? Ninguém sabe. O que se sabe é que, sob o comando de Dick Advocaat, a equipe aposta em uma defesa sólida, linhas compactas e transições rápidas. Pode variar entre o 4-4-2 e o 4-3-3, sempre tentando surpreender adversários em um grupo difícil, com Alemanha, Costa do Marfim e Equador.

O sonho é vencer, vencer, vencer.

 

Epílogo

 

“A menor torcida do mundo não para de cantar. Curaçao se defende como quem desafia o próprio destino. Do outro lado, a Costa do Marfim desce mais uma vez ao ataque, precisando da vitória para avançar.

Vem Haller. Domina, gira o corpo com classe, levanta a cabeça e abre a jogada para Kessié, que acelera por dentro. A defesa está mal postada. Ele ganha campo em velocidade e enfia em profundidade para Nicolas Pépé. Ele domina, rabisca para cima da marcação, ginga o corpo, avança até a entrada da área e prepara o chute.

Chega rasgaaaando por baixo, Obispo. Firme. Preciso. Gigante na antecipação. Ergue uma muralha azul diante do marfim.

Obispo toca rápido para Leandro Bacuna, que puxa o contra-ataque. A bola gira de um lado ao outro até encontrar espaço entre as linhas adversárias. Bacuna levanta a cabeça e enfia um passe preciso, rasgando o gramado como uma lâmina sobre o mar do Caribe.

Vem Jearl Margaritha como um raio.

Ele ganha na velocidade, domina no limite da área, leva o primeiro marcador com um toque seco, deixa o segundo para trás num giro rápido e avança diante do goleiro. O estádio inteiro prende a respiração.

Margaritha bate cruzado.

É gol.

Gooooooool de Curaçao!

Um chute firme, no canto, fazendo a rede balançar. E quando ela dança, todo mundo se agita. A torcida balança no ritmo dos tambores caribenhos.

Explode, Curaçao!

 














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HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)

 

 

Marcos Alencar (FETU)

Publicitário, corsário e visionário



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Copa 2026 • Grupo E • Alemanha

O Peso do Chumbo




A camisa da Alemanha sempre pesou como chumbo no imaginário de quem a enfrenta. Por décadas, o mundo se acostumou a ver o futebol como um jogo de onze contra onze em que, no fim, os alemães venciam. Mas o esporte, em sua ironia implacável, cobrou a conta da glória de 2014. Desde então, a camisa que entortava varais parecia arrastar seus próprios jogadores em campo, presa aos fantasmas das eliminações vexatórias nas fases de grupos da Rússia e do Qatar.

 Hoje, a seleção que se prepara para a Copa de 2026 já não é o reflexo de Toni Kroos ou Thomas Müller. A velha guarda, aquela que nos fez engolir a seco o 7 a 1, finalmente pendurou as chuteiras internacionais — com a exceção de Manuel Neuer, que caminha para sua quinta Copa.

 



 











Sob o comando de Julian Nagelsmann, o chumbo virou engenharia letal. O treinador abandonou a posse de bola estéril do passado recente e instaurou um futebol híbrido, agressivo e vertical, reflexo do momento especial vivido por seus principais protagonistas nos clubes. O termômetro desse time atende pelo apelido de “Wusiala”: Florian Wirtz chega à Copa depois de seguir encantando a Europa pelo Bayer Leverkusen, ditando o ritmo do jogo com uma maturidade assustadora. Ao seu lado, Jamal Musiala desfila como o grande motor criativo do Bayern de Munique. Juntos, esses meninos jogam com a leveza de quem não carrega a cruz das derrotas recentes da seleção.

Eles não estão sozinhos. No ataque, a Alemanha conta com um Kai Havertz decisivo como peça móvel e letal no Arsenal campeão da Premier League. Para dar sustentação a essa máquina ofensiva, a defesa é liderada por Antonio Rüdiger, que traz na bagagem a agressividade e a aura vencedora do Real Madrid — ainda que o clube merengue atravesse um raro vácuo recente de títulos. Atrás dele, Manuel Neuer ainda guarda a meta alemã, como último sobrevivente daquela geração campeã que viu a camisa pesar, cair e tentar se reerguer.

 



 









Com esse poder de fogo, a Alemanha sobrou nas eliminatórias europeias e garantiu seu lugar como cabeça de chave. Sorteada no acessível Grupo E, ao lado de equipes como Costa do Marfim e Curaçao, a classificação para o mata-mata não é objetivo: é obrigação. Nagelsmann sabe que sua pressão pós-perda e suas linhas altíssimas fazem do time uma ameaça constante, mas também deixam a defesa exposta a contra-ataques rápidos. Por isso, adota o discurso de “desafiante”.

A Alemanha não desembarca na América do Norte como a favorita unânime de outrora, mas como um gigante ferido que recriou a própria identidade. Se o sistema defensivo aguentar o tranco, o talento que sobra do meio para frente tem fôlego e magia suficientes para empurrar os alemães até, pelo menos, as semifinais — e devolver à sua camisa o peso de ser o pesadelo de qualquer adversário. 

 
















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Luiz Paulo Aranha (LOES)

sócio e gestor da MOAT Capital e são-paulino



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Copa 2026 • Grupo D • Austrália

O Aluno Invisível



Todo professor tem turmas e alunos marcantes, seja pelo desempenho brilhante em sala de aula, seja pelos comportamentos traumáticos dos educandos, daqueles que rendem momentos desesperadores e “causos” memoráveis. Projetando tal analogia para o mundo da bola, sabe-se que, nas Copas do Mundo, existe uma primeira ordem, composta pelos protagonistas de sempre, circunscritos aos oito seletos países que já levantaram a taça — que serão sete em 2026, já que a Itália conseguiu a proeza de não vir de novo para a festa final da bola — somados a um ou outro pequeno território europeu considerado bom de bola, como Holanda, Croácia, Bélgica e a coqueluche do momento: Portugal, do interminável e formidável Cristiano Ronaldo, em sua sexta (e última) Copa.

Já na segunda prateleira, há o grupo dos promissores, ou seja, aqueles que não se destacam no dia a dia, mas que demonstram potencial de crescimento e visibilidade interessante. Neste bloco costumam fazer parte os anfitriões sem tradição em Copas, vide Coreia em 2002 e México em 1970 e 1986; times sul-americanos fora do eixo Brasil-Argentina, como Colômbia, Paraguai e outros que tais); médias equipes europeias; e a sensação africana ou asiática do momento — pelo retrospecto recente, seria o semifinalista de 2022, Marrocos.


 












Na metáfora acadêmica, estamos falando do aluno que não participa muito, mas que o docente sabe ser inteligente e capaz de realizar trabalhos acima da média, causando alguma surpresa ou admiração, de tempos em tempos.

O último bloco, por sua vez, é composto por uma hipotética zona do rebaixamento. É marcado por escretes que vêm aos Mundiais como prováveis sacos de pancadas, adversários preferidos dos que pleiteiam a artilharia das Copas — vide Miroslav Klose contra a Arábia Saudita, em 2002. Há também, nesse grupo, um componente folclórico, quase mítico, que transforma tais participantes, minúsculos no âmbito futebolístico — ou, na analogia supracitada, acadêmico — em aprendizes padrão “café com leite”.

Costumam ser os novatos em Copas ou países sem expressão com a bola nos pés e populações similares às de bairros paulistanos, como foi a Islândia em 2018 e, atualmente, na versão turbinada do Mundial, direcionada a times quase amadores como Curaçao, Cabo Verde e Haiti. Eles, ao menos, tendem a nos fazer rir, já que a expectativa é minúscula, assim como ocorre com aqueles alunos que parecem ter saído diretamente de supletivos como Mobral ou Kumon.

A Austrália, todavia, faz parte de um terceiro e enfadonho bloco. É o típico “nem fede nem cheira”. É o aprendiz sem expressão. O aluno que o professor não decora o nome. É o time que não encanta, tampouco provoca risadas ou sensações marcantes. Neste sentido, seus jogos costumam ser difíceis de assistir, com pouca criatividade e muita destruição de jogadas, no melhor estilo “cintura dura” herdado de suas raízes britânicas.

Não tem nem a graciosidade de um coala, muito menos a altivez de um canguru perneta — ou melhor, maneta — que esconde sua bola, no caso, o filhote, nas bolsas internas, driblando os adversários de forma serelepe e sagaz. O único suspiro que esse time, com sete Copas nas costas, já trouxe foi a porrada de Tim Cahill no prélio ante os holandeses, na inesquecível e surpreendente Copa de 2014, quando foi comemorar com soquinhos típicos dos marsupiais aussies na bandeirinha de escanteio. Muito pouco para quem quer ir bem nas provas e passar de ano no mundo futebolístico.

O escrete da Grande Barreira de Corais até tentou mudar de escola, indo jogar há alguns anos as competições na Ásia. Deu-se bem, pois continuou se classificando — esta será sua sexta Copa seguida — e se preparando de modo mais adequado, diante de alunos mais competitivos, já que seus vizinhos insulares mal sabem o bê-á-bá do futebol, com exceção da também inócua, em termos futebolísticos, Nova Zelândia.

 



 










A Austrália chega à disputa no verão da América do Norte como sempre: insossa. Não parece capaz de repetir a façanha de quase empatar a vida de mentes brilhantes como Messi e companhia, da tricampeã Argentina do professor Scaloni em 2022, que suou para vencê-la no Qatar.

O time atual de Tony Popovic — que não é parente da divertida e rechonchuda Silvia — aposta em uma linha de três zagueiros muito físicos e alas bem espetados, com destaque para o gigante meio desengonçado Harry Souttar na zaga, a liderança discreta de Jackson Irvine no meio e a pálida promessa Nestory Irankunda, comprado recentemente pelo poderoso Bayern de Munique, no ataque. O mediano goleiro veterano Mat Ryan segue como capitão e espectador de jogos com muita disputa aérea e absoluta falta de talento no meio de campo, o que deve garantir confrontos sonolentos contra Estados Unidos, Paraguai e Turquia, no fraco Grupo D, em que Bobadilla, um aluno nota 6,5, pode acabar sendo o destaque.

Com tudo isso, talvez passe novamente de fase, aos trancos e barrancos, como um aluno de nota mínima que até cumpre o que foi requisitado, mas está longe de despertar qualquer sentimento mais veemente em seus espectadores, seja entusiasmo ou vergonha alheia.




 













A Austrália é mais do mesmo. Não passa da nota de corte, dos novos dezesseis avos de final. É um time médio, quase chato de assistir, que vai assinar a lista de presença e que o professor talvez nem reconheça depois. Simplesmente porque é ruim demais para surpreender e bom demais para passar vexame.

 


 



 









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HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)

 

 

Rafael Bauer (POPERA)

Professor Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais (Brasil e Rússia)





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