Em campo, o Brasil tratou a partida com a seriedade
que a história pedia. No Jogo da Paz, a Seleção foi para o intervalo com dois
gols de Roger e uma pintura de Ronaldinho Gaúcho, depois de um drible à la
Zidane. Entre 2004 e 2026, mudaram o palco e o peso do jogo, mas o intervalo
repetiu a mesma fotografia: Brasil 3 a 0. Naquele dia, porém, o time voltou
para completar a goleada, que terminou em 6 a 0, com mais dois de Ronaldinho e
um de Nilmar. Em 2026, essa parte ficou faltando.
Há ainda um encontro mais recente entre Brasil e
Haiti, pela Copa América Centenário, em 2016, e ali as coincidências parecem
ainda mais provocadoras. O palco também era nos Estados Unidos, só que em
Orlando. No gol brasileiro estava Alisson; Marquinhos aparecia na zaga,
enquanto Casemiro começava a se firmar no meio. Todos ainda carregavam o rótulo
de promessas, antes de virarem pilares de uma geração. Outra vez, o Brasil fez
3 a 0 no primeiro tempo. Na volta do intervalo, porém, vieram mais quatro gols.
Placar final: 7 a 1. E, de novo, a mesma sensação incômoda ao olhar para 2026:
ficou faltando alguma coisa.
O Brasil da Filadélfia demorou a achar o caminho contra o Haiti. Antes do gol, Raphinha balançou a rede em impedimento e, depois, perdeu outro lance que também não valeria. A conta só abriu aos 23min, numa jogada torta: Vini chutou, Cunha disputou o rebote, Delcroix tentou cortar e carimbou o pé do atacante antes de ver a bola entrar. Aos 35min, Vini lançou Cunha no contra-ataque, e o camisa 9 acertou um belo chute no ângulo de Placide. Nos acréscimos, Paquetá deu um passe de cinema para Vini arrancar nas costas da zaga e fazer o terceiro.
A Seleção voltou do intervalo como quem ainda tinha
muito a dizer, mas foi deixando o jogo escapar para um roteiro diferente dos
confrontos de outrora. O Brasil passou boa parte do segundo tempo rondando
a área haitiana, mas criou menos do que deveria e permitiu ao adversário
respirar mais do que o jogo aceitava. Aos 18min, Alisson precisou salvar
uma cabeçada de Ade; logo depois, Ancelotti ouviu a torcida e chamou Endrick. O
menino chegou a marcar, mas estava impedido. Dali em diante, o Haiti encontrou
espaços demais para uma partida desenhada para ser goleada, enquanto o Brasil
acumulava ataques sem transformar superioridade em gol.
O 3 a 0 nunca será pouco em uma Copa do Mundo. Mas,
diante do que o primeiro tempo prometeu e do que a comparação com a história
escancarava, ficou a sensação de um segundo tempo perdido.
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário,
criador do De Letra na Copa
e descrente
da Seleção Brasileira




