O Aluno Invisível
Todo professor tem turmas e alunos marcantes, seja
pelo desempenho brilhante em sala de aula, seja pelos comportamentos
traumáticos dos educandos, daqueles que rendem momentos desesperadores e
“causos” memoráveis. Projetando tal analogia para o mundo da bola, sabe-se que,
nas Copas do Mundo, existe uma primeira ordem, composta pelos protagonistas de
sempre, circunscritos aos oito seletos países que já levantaram a taça — que
serão sete em 2026, já que a Itália conseguiu a proeza de não vir de novo para a
festa final da bola — somados a um ou outro pequeno território europeu
considerado bom de bola, como Holanda, Croácia, Bélgica e a coqueluche do
momento: Portugal, do interminável e formidável Cristiano Ronaldo, em sua sexta
(e última) Copa.
Já na segunda prateleira, há o grupo dos
promissores, ou seja, aqueles que não se destacam no dia a dia, mas que
demonstram potencial de crescimento e visibilidade interessante. Neste bloco
costumam fazer parte os anfitriões sem tradição em Copas, vide Coreia em 2002 e
México em 1970 e 1986; times sul-americanos fora do eixo Brasil-Argentina, como
Colômbia, Paraguai e outros que tais); médias equipes europeias; e a sensação
africana ou asiática do momento — pelo retrospecto recente, seria o
semifinalista de 2022, Marrocos.
Na metáfora acadêmica, estamos falando do aluno que
não participa muito, mas que o docente sabe ser inteligente e capaz de realizar
trabalhos acima da média, causando alguma surpresa ou admiração, de tempos em
tempos.
O último bloco, por sua vez, é composto por uma
hipotética zona do rebaixamento. É marcado por escretes que vêm aos Mundiais
como prováveis sacos de pancadas, adversários preferidos dos que pleiteiam a
artilharia das Copas — vide Miroslav Klose contra a Arábia Saudita, em 2002. Há
também, nesse grupo, um componente folclórico, quase mítico, que transforma
tais participantes, minúsculos no âmbito futebolístico — ou, na analogia
supracitada, acadêmico — em aprendizes padrão “café com leite”.
Costumam ser os novatos em Copas ou países sem
expressão com a bola nos pés e populações similares às de bairros paulistanos,
como foi a Islândia em 2018 e, atualmente, na versão turbinada do Mundial,
direcionada a times quase amadores como Curaçao, Cabo Verde e Haiti. Eles, ao
menos, tendem a nos fazer rir, já que a expectativa é minúscula, assim como
ocorre com aqueles alunos que parecem ter saído diretamente de supletivos como
Mobral ou Kumon.
A Austrália, todavia, faz parte de um terceiro e
enfadonho bloco. É o típico “nem fede nem cheira”. É o aprendiz sem expressão.
O aluno que o professor não decora o nome. É o time que não encanta, tampouco
provoca risadas ou sensações marcantes. Neste sentido, seus jogos costumam ser
difíceis de assistir, com pouca criatividade e muita destruição de jogadas, no
melhor estilo “cintura dura” herdado de suas raízes britânicas.
Não tem nem a graciosidade de um coala, muito menos
a altivez de um canguru perneta — ou melhor, maneta — que esconde sua bola, no
caso, o filhote, nas bolsas internas, driblando os adversários de forma
serelepe e sagaz. O único suspiro que esse time, com sete Copas nas costas, já
trouxe foi a porrada de Tim Cahill no prélio ante os holandeses, na
inesquecível e surpreendente Copa de 2014, quando foi comemorar com soquinhos
típicos dos marsupiais aussies na bandeirinha de escanteio. Muito pouco para
quem quer ir bem nas provas e passar de ano no mundo futebolístico.
O escrete da Grande Barreira de Corais até tentou
mudar de escola, indo jogar há alguns anos as competições na Ásia. Deu-se bem,
pois continuou se classificando — esta será sua sexta Copa seguida — e se
preparando de modo mais adequado, diante de alunos mais competitivos, já que
seus vizinhos insulares mal sabem o bê-á-bá do futebol, com exceção da também
inócua, em termos futebolísticos, Nova Zelândia.
A Austrália chega à disputa no verão da América do
Norte como sempre: insossa. Não parece capaz de repetir a façanha de quase
empatar a vida de mentes brilhantes como Messi e companhia, da tricampeã
Argentina do professor Scaloni em 2022, que suou para vencê-la no Qatar.
O time atual de Tony Popovic — que não é parente da
divertida e rechonchuda Silvia — aposta em uma linha de três zagueiros muito
físicos e alas bem espetados, com destaque para o gigante meio desengonçado
Harry Souttar na zaga, a liderança discreta de Jackson Irvine no meio e a
pálida promessa Nestory Irankunda, comprado recentemente pelo poderoso Bayern
de Munique, no ataque. O mediano goleiro veterano Mat Ryan segue como capitão e
espectador de jogos com muita disputa aérea e absoluta falta de talento no meio
de campo, o que deve garantir confrontos sonolentos contra Estados Unidos,
Paraguai e Turquia, no fraco Grupo D, em que Bobadilla, um aluno nota 6,5, pode
acabar sendo o destaque.
Com tudo isso, talvez passe novamente de fase, aos
trancos e barrancos, como um aluno de nota mínima que até cumpre o que foi
requisitado, mas está longe de despertar qualquer sentimento mais veemente em
seus espectadores, seja entusiasmo ou vergonha alheia.
A Austrália é mais
do mesmo. Não passa da nota de corte, dos novos dezesseis avos de final. É um
time médio, quase chato de assistir, que vai assinar a lista de presença e que
o professor talvez nem reconheça depois. Simplesmente porque é ruim demais para
surpreender e bom demais para passar vexame.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Rafael
Bauer (POPERA)
Professor
Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da
Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais
(Brasil e Rússia)










