quinta-feira, 28 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo D • Austrália

O Aluno Invisível



Todo professor tem turmas e alunos marcantes, seja pelo desempenho brilhante em sala de aula, seja pelos comportamentos traumáticos dos educandos, daqueles que rendem momentos desesperadores e “causos” memoráveis. Projetando tal analogia para o mundo da bola, sabe-se que, nas Copas do Mundo, existe uma primeira ordem, composta pelos protagonistas de sempre, circunscritos aos oito seletos países que já levantaram a taça — que serão sete em 2026, já que a Itália conseguiu a proeza de não vir de novo para a festa final da bola — somados a um ou outro pequeno território europeu considerado bom de bola, como Holanda, Croácia, Bélgica e a coqueluche do momento: Portugal, do interminável e formidável Cristiano Ronaldo, em sua sexta (e última) Copa.

Já na segunda prateleira, há o grupo dos promissores, ou seja, aqueles que não se destacam no dia a dia, mas que demonstram potencial de crescimento e visibilidade interessante. Neste bloco costumam fazer parte os anfitriões sem tradição em Copas, vide Coreia em 2002 e México em 1970 e 1986; times sul-americanos fora do eixo Brasil-Argentina, como Colômbia, Paraguai e outros que tais); médias equipes europeias; e a sensação africana ou asiática do momento — pelo retrospecto recente, seria o semifinalista de 2022, Marrocos.


 












Na metáfora acadêmica, estamos falando do aluno que não participa muito, mas que o docente sabe ser inteligente e capaz de realizar trabalhos acima da média, causando alguma surpresa ou admiração, de tempos em tempos.

O último bloco, por sua vez, é composto por uma hipotética zona do rebaixamento. É marcado por escretes que vêm aos Mundiais como prováveis sacos de pancadas, adversários preferidos dos que pleiteiam a artilharia das Copas — vide Miroslav Klose contra a Arábia Saudita, em 2002. Há também, nesse grupo, um componente folclórico, quase mítico, que transforma tais participantes, minúsculos no âmbito futebolístico — ou, na analogia supracitada, acadêmico — em aprendizes padrão “café com leite”.

Costumam ser os novatos em Copas ou países sem expressão com a bola nos pés e populações similares às de bairros paulistanos, como foi a Islândia em 2018 e, atualmente, na versão turbinada do Mundial, direcionada a times quase amadores como Curaçao, Cabo Verde e Haiti. Eles, ao menos, tendem a nos fazer rir, já que a expectativa é minúscula, assim como ocorre com aqueles alunos que parecem ter saído diretamente de supletivos como Mobral ou Kumon.

A Austrália, todavia, faz parte de um terceiro e enfadonho bloco. É o típico “nem fede nem cheira”. É o aprendiz sem expressão. O aluno que o professor não decora o nome. É o time que não encanta, tampouco provoca risadas ou sensações marcantes. Neste sentido, seus jogos costumam ser difíceis de assistir, com pouca criatividade e muita destruição de jogadas, no melhor estilo “cintura dura” herdado de suas raízes britânicas.

Não tem nem a graciosidade de um coala, muito menos a altivez de um canguru perneta — ou melhor, maneta — que esconde sua bola, no caso, o filhote, nas bolsas internas, driblando os adversários de forma serelepe e sagaz. O único suspiro que esse time, com sete Copas nas costas, já trouxe foi a porrada de Tim Cahill no prélio ante os holandeses, na inesquecível e surpreendente Copa de 2014, quando foi comemorar com soquinhos típicos dos marsupiais aussies na bandeirinha de escanteio. Muito pouco para quem quer ir bem nas provas e passar de ano no mundo futebolístico.

O escrete da Grande Barreira de Corais até tentou mudar de escola, indo jogar há alguns anos as competições na Ásia. Deu-se bem, pois continuou se classificando — esta será sua sexta Copa seguida — e se preparando de modo mais adequado, diante de alunos mais competitivos, já que seus vizinhos insulares mal sabem o bê-á-bá do futebol, com exceção da também inócua, em termos futebolísticos, Nova Zelândia.

 



 










A Austrália chega à disputa no verão da América do Norte como sempre: insossa. Não parece capaz de repetir a façanha de quase empatar a vida de mentes brilhantes como Messi e companhia, da tricampeã Argentina do professor Scaloni em 2022, que suou para vencê-la no Qatar.

O time atual de Tony Popovic — que não é parente da divertida e rechonchuda Silvia — aposta em uma linha de três zagueiros muito físicos e alas bem espetados, com destaque para o gigante meio desengonçado Harry Souttar na zaga, a liderança discreta de Jackson Irvine no meio e a pálida promessa Nestory Irankunda, comprado recentemente pelo poderoso Bayern de Munique, no ataque. O mediano goleiro veterano Mat Ryan segue como capitão e espectador de jogos com muita disputa aérea e absoluta falta de talento no meio de campo, o que deve garantir confrontos sonolentos contra Estados Unidos, Paraguai e Turquia, no fraco Grupo D, em que Bobadilla, um aluno nota 6,5, pode acabar sendo o destaque.

Com tudo isso, talvez passe novamente de fase, aos trancos e barrancos, como um aluno de nota mínima que até cumpre o que foi requisitado, mas está longe de despertar qualquer sentimento mais veemente em seus espectadores, seja entusiasmo ou vergonha alheia.




 













A Austrália é mais do mesmo. Não passa da nota de corte, dos novos dezesseis avos de final. É um time médio, quase chato de assistir, que vai assinar a lista de presença e que o professor talvez nem reconheça depois. Simplesmente porque é ruim demais para surpreender e bom demais para passar vexame.

 


 



 









ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)









HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)

 

 

Rafael Bauer (POPERA)

Professor Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais (Brasil e Rússia)





Para ler sobre os Estados Unidos, de Milan,
clique aqui

Para ler sobre o Paraguai, de Bucca, clique aqui

Para ler sobre a Turquia, de Loes, clique aqui

 


Nenhum comentário: