A Bússola de Montella
Há seleções que entram em campo com a frieza de um
relógio, calculando a cada passe como desmontar o adversário. E há a Turquia. O
futebol em Istambul nunca foi sobre o cálculo; sempre foi sobre o caos, o
coração batendo no pescoço e a temperatura em constante ebulição. Os ecos
daquela geração mágica de 2002 — que só parou diante do Brasil de Ronaldo e
Rivaldo — ainda pairam no ar como assombração e inspiração. Hoje, a equipe que
desembarca na América do Norte para a Copa de 2026 tenta provar que não é apenas
um raio que cai a cada duas décadas, mas sim uma tempestade pronta e
amadurecida.
O que difere essa geração atual é a mistura fina entre a tradicional fúria emocional e uma rara frieza tática. Sob o comando do italiano Vincenzo Montella, a Turquia encontrou uma bússola. Montella blindou o sistema defensivo e entregou as chaves do ataque a uma juventude que já não se intimida nos grandes palcos. Hakan Çalhanoğlu, o grande maestro e capitão, segue regendo o meio-campo com a precisão que o consolidou como o motor da Inter de Milão. Na frente, a esperança passa pelos pés de Arda Güler, a joia que, no Real Madrid, aprendeu a transformar a audácia juvenil em eficiência letal, e de Kenan Yıldız, que a cada dia pede mais protagonismo vestindo a camisa da Juventus.
Foi essa transição rápida e talentosa que levou os
turcos até as quartas de final na Euro 2024. E para a Copa de 2026, o destino
não poderia ter sido mais generoso. A Turquia caiu no Grupo D, uma chave, para
ser honesto, fácil. Terão pela frente os Estados Unidos, anfitriões que ainda
não conseguiram passar de uma seleção mediana e sem grande poder de fogo; uma
Austrália, tecnicamente limitada que já não assusta; e um Paraguai, que há
muito tempo tenta lembrar o que é ser competitivo na América do Sul.
Nesse cenário, passar de fase deixou de ser um
sonho para ser uma obrigação absoluta, e o primeiro lugar do grupo é o único
resultado aceitável. Ironicamente, o maior adversário da Turquia na primeira
fase será ela mesma. Se a prancheta de Montella conseguir controlar os nervos e
evitar a clássica autossabotagem emocional que historicamente persegue o país
nos momentos de favoritismo, essa geração tem a pista livre e o talento
necessário para passear nas oitavas e chegar com força nas quartas de final, provando
que a paixão turca, quando organizada, é letal.
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Luiz
Paulo Aranha (LOES)
sócio e
gestor da MOAT capital e conselheiro do São Paulo FC
Para ler sobre os Estados Unidos, de Milan, clique aqui
Para ler sobre o Paraguai, de Bucca, clique aqui




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