Esqueça Larissa Riquelme e vá para Ciudad del Este
Quando se fala em futebol sul-americano, o mapa
costuma puxar o olhar para os mesmos lugares: o gigante Brasil, a apaixonada
Argentina e o histórico Uruguai, pequeno no território e imenso na camisa. É
quase automático: a América do Sul parece começar no Maracanã, atravessar La
Bombonera e terminar no Centenário. Mas, bem no coração do continente, existe
um país que nunca precisou fazer barulho demais para ser respeitado. Um país de
fronteira, de tereré gelado e sol forte, com um povo fanático e uma camisa vermelha
e branca que, quando aparece em Copa, raramente vem a passeio. Esse país é o
Paraguai.
A Albirroja estreou em Mundiais logo na primeira,
em 1930. Caiu no grupo com Bélgica e Estados Unidos, venceu os belgas e marcou
ali seu primeiro gol em Copas. A derrota para os norte-americanos encerrou cedo
aquela aventura, mas abriu uma história que nunca foi de protagonismo absoluto
— e também nunca foi pequena. O Paraguai voltou em 1950, no Brasil, e em 1958,
na Suécia. Em 50, empatou com os suecos e perdeu para a Itália, depois caiu num
grupo duro na Copa seguinte, onde foi goleado pela França, venceu a Escócia e
empatou com a Iugoslávia. Faltou pouco para avançar, mas esse “pouco” sempre
acompanhou a seleção paraguaia como uma sombra.
Entre uma Copa e outra, veio a prova de que o
Paraguai não era apenas coadjuvante: em 1953, conquistou a Copa América de
forma invicta. Em 1979, voltou a levantar o torneio. Não era o Brasil de Pelé,
nem a Argentina de Maradona, nem o Uruguai das glórias antigas. Era uma seleção
cascuda, competitiva e orgulhosa, daquelas que tornam qualquer jogo
desconfortável.
Em 1986, chegou às oitavas. Mas foi entre o fim dos
anos 1990 e o início dos anos 2000 que ganhou sua imagem mais reconhecível:
time duro de bater, goleiro-artilheiro e zagueiros cascudos, com faca nos
dentes. José Luis Chilavert era um personagem: capitão, cobrador de falta,
provocador profissional e segundo maior goleiro-artilheiro da história — só
perde para um tal de Rogério Ceni. À frente dele, Arce e Gamarra davam ao
Paraguai a sensação de muro: talvez desse para passar, mas nunca sem deixar
algum pedaço pelo caminho.
A Albirroja esteve nas Copas de 1998 a 2010. Nas
duas primeiras, passou da primeira fase e caiu nas oitavas. Em 2006, parou
ainda na fase de grupos. Até que, em 2010, na África do Sul, veio a melhor
campanha: chegou às quartas de final —encarou a Espanha, que depois seria
campeã. A partida ficou marcada pela sensação de uma história que escapou pela
ponta da chuteira: com o jogo em 0 a 0, o Paraguai teve a chance de sair na
frente, colocou a futura campeã contra a parede, mas o pênalti perdido por
Óscar Cardozo virou uma cicatriz na melhor campanha paraguaia em Copas. Depois,
a porta se fechou. Ficou fora de 2014, 2018 e 2022, dezesseis anos longe do
palco principal — tempo demais para um país que conhece o sabor de incomodar
gigantes.
Agora, em 2026, o Paraguai volta à Copa com uma
missão simples de dizer e difícil de cumprir: lembrar ao mundo que ainda existe
futebol no centro da América do Sul. Não chega como favorito, nem cercado de
holofotes e muito menos com o peso midiático dos vizinhos, mas talvez seja
justamente aí que mora o perigo. O Paraguai sempre foi melhor quando entrou em
campo sem pedir licença. Com uma torcida apaixonada, um povo que respira
futebol e uma cultura que mistura tereré, chipa, sopa paraguaia e orgulho nacional,
a Albirroja volta para tentar recuperar um lugar que já foi seu: o de seleção
incômoda. Porque algumas seleções jogam para encantar. O Paraguai, muitas
vezes, joga para lembrar que Copa do Mundo também se vence na raça, na alma e
na teimosia.
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