quarta-feira, 27 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo D • Paraguai

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Quando se fala em futebol sul-americano, o mapa costuma puxar o olhar para os mesmos lugares: o gigante Brasil, a apaixonada Argentina e o histórico Uruguai, pequeno no território e imenso na camisa. É quase automático: a América do Sul parece começar no Maracanã, atravessar La Bombonera e terminar no Centenário. Mas, bem no coração do continente, existe um país que nunca precisou fazer barulho demais para ser respeitado. Um país de fronteira, de tereré gelado e sol forte, com um povo fanático e uma camisa vermelha e branca que, quando aparece em Copa, raramente vem a passeio. Esse país é o Paraguai.

A Albirroja estreou em Mundiais logo na primeira, em 1930. Caiu no grupo com Bélgica e Estados Unidos, venceu os belgas e marcou ali seu primeiro gol em Copas. A derrota para os norte-americanos encerrou cedo aquela aventura, mas abriu uma história que nunca foi de protagonismo absoluto — e também nunca foi pequena. O Paraguai voltou em 1950, no Brasil, e em 1958, na Suécia. Em 50, empatou com os suecos e perdeu para a Itália, depois caiu num grupo duro na Copa seguinte, onde foi goleado pela França, venceu a Escócia e empatou com a Iugoslávia. Faltou pouco para avançar, mas esse “pouco” sempre acompanhou a seleção paraguaia como uma sombra.

Entre uma Copa e outra, veio a prova de que o Paraguai não era apenas coadjuvante: em 1953, conquistou a Copa América de forma invicta. Em 1979, voltou a levantar o torneio. Não era o Brasil de Pelé, nem a Argentina de Maradona, nem o Uruguai das glórias antigas. Era uma seleção cascuda, competitiva e orgulhosa, daquelas que tornam qualquer jogo desconfortável.

 



 










Em 1986, chegou às oitavas. Mas foi entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000 que ganhou sua imagem mais reconhecível: time duro de bater, goleiro-artilheiro e zagueiros cascudos, com faca nos dentes. José Luis Chilavert era um personagem: capitão, cobrador de falta, provocador profissional e segundo maior goleiro-artilheiro da história — só perde para um tal de Rogério Ceni. À frente dele, Arce e Gamarra davam ao Paraguai a sensação de muro: talvez desse para passar, mas nunca sem deixar algum pedaço pelo caminho.

 



 










A Albirroja esteve nas Copas de 1998 a 2010. Nas duas primeiras, passou da primeira fase e caiu nas oitavas. Em 2006, parou ainda na fase de grupos. Até que, em 2010, na África do Sul, veio a melhor campanha: chegou às quartas de final —encarou a Espanha, que depois seria campeã. A partida ficou marcada pela sensação de uma história que escapou pela ponta da chuteira: com o jogo em 0 a 0, o Paraguai teve a chance de sair na frente, colocou a futura campeã contra a parede, mas o pênalti perdido por Óscar Cardozo virou uma cicatriz na melhor campanha paraguaia em Copas. Depois, a porta se fechou. Ficou fora de 2014, 2018 e 2022, dezesseis anos longe do palco principal — tempo demais para um país que conhece o sabor de incomodar gigantes.

Agora, em 2026, o Paraguai volta à Copa com uma missão simples de dizer e difícil de cumprir: lembrar ao mundo que ainda existe futebol no centro da América do Sul. Não chega como favorito, nem cercado de holofotes e muito menos com o peso midiático dos vizinhos, mas talvez seja justamente aí que mora o perigo. O Paraguai sempre foi melhor quando entrou em campo sem pedir licença. Com uma torcida apaixonada, um povo que respira futebol e uma cultura que mistura tereré, chipa, sopa paraguaia e orgulho nacional, a Albirroja volta para tentar recuperar um lugar que já foi seu: o de seleção incômoda. Porque algumas seleções jogam para encantar. O Paraguai, muitas vezes, joga para lembrar que Copa do Mundo também se vence na raça, na alma e na teimosia.


















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HISTÓRICO EM COPAS (clique para abrir)




Felipe Sanches (BUCCA)
historiador e arqueólogo, mora em Toledo (PR); 
primeiro jogador de rugby da família



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