O Egito esteve perto de escrever uma das maiores
páginas de sua história. Organizado, disciplinado e valente, abriu dois gols de
vantagem diante da campeã do mundo e obrigou os argentinos a caminhar pela
estreita fronteira que separa a esperança da resignação. Durante boa parte da
partida, não havia saída.
Foi então que Lionel Messi voltou a fazer aquilo
que os grandes artistas realizam quando a obra desmorona: recusou o desfecho
mais provável. Aos trinta e nove anos, dono de uma carreira que já não precisa
provar nada, continua jogando como se cada partida fosse a primeira e a última.
Marcou, criou, conduziu e, ao apito final, chorou. Não eram lágrimas de quem
conquistava apenas uma classificação. Eram as de alguém que ainda enxerga a
Copa do Mundo como um privilégio que exige entrega absoluta.
A reação argentina pertence àquelas raras viradas
que permanecem na memória coletiva dos Mundiais. Não apenas pelo placar, mas
pela maneira como foi construída. Diante de um adversário que resistia com
admirável dignidade, a equipe de Scaloni encontrou forças para transformar o
impossível em provisório e o improvável em realidade.
As discussões surgidas depois do apito final não
alteram a essência da noite. A classificação foi conquistada dentro do campo,
onde a Argentina precisou superar um oponente excelente e um cenário que se
desenhava perdido. O Egito despede-se de cabeça erguida. Fez a maior partida de
sua história em Mundiais e obrigou a campeã do mundo a oferecer sua melhor
versão.
Os grandes tangos guardam um segredo que o futebol
argentino aprendeu há muito tempo: o último compasso nunca pertence ao
desespero, mas à esperança.
Foi por isso que a Argentina voltou.
Não apenas ao placar.
Voltou ao lugar onde sempre se sente mais
confortável: aquele em que a emoção desafia a lógica e a coragem se recusa a
obedecer ao destino.
Eduardo Canto (DUDA)
Por las
manos del tango
Poeta,
santista e aficionado pelo fútbol argentino





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