quarta-feira, 1 de julho de 2026

2026 | O Xerife e o Troco

 







Vinte e quatro anos antes de Alemanha e Paraguai voltarem a se cruzar em uma Copa, Oliver Kahn prometeu que se aposentaria se Chilavert marcasse um gol de falta nele. O capitão alemão sobreviveu à ameaça: o goleiro paraguaio cobrou uma por cima, e a Alemanha só escapou aos 88 minutos, quando o bom Schneider cruzou para o medíocre Neuville decidir. Dois jogadores do Leverkusen, recém-feridos pela final perdida da Champions, tiravam o Paraguai da Copa.

Aquele Paraguai tinha Carlos Gamarra, um zagueiro de precisão cirúrgica. Quatro anos antes, em 1998, ele disputou 383 minutos, enfrentou Raúl, Kanu e Stoichkov, e terminou a Copa sem cometer uma única falta. Contra a França, ainda jogou a prorrogação com o ombro deslocado (2 cm de desvio na clavícula), sem apelar para a violência. Em 2002, outra vez no sacrifício (agora literário), segurou Klose e a Alemanha até quase o fim. Quase.

Gamarra, o xerife, não conseguiu levar o Paraguai adiante. Ficou a imagem do time duro e valente, acostumado a sofrer, mas condenado ao quase. Em 2026, a cobrança finalmente veio. O Paraguai não tinha mais o zagueiro perfeito, nem Chilavert desafiando o goleiro do outro lado. Tinha outra geração, outro goleiro e a mesma teimosia histórica de quem se nega a cair. Desta vez, porém, não caiu.

 


O reencontro, agora pela inédita fase de 16 avos, só podia ser dramático. No Gillette Stadium, em Boston, o Paraguai abriu a conta aos 41 min do primeiro tempo, quando Galarza cruzou com precisão e Enciso apareceu para testar no fundo do gol alemão. A resposta veio logo aos 8 da etapa final: Wirtz colocou a bola na medida, e Havertz cabeceou firme para empatar. A partir daí, a Alemanha fez o que a Alemanha faz de melhor: empurrou, cercou e martelou. Mas o Paraguai fechou a porta com a boa e velha organização defensiva, aliada ao sofrimento calculado e às defesas importantes do goleiro Gill. Os guaranis sobreviveram à pressão de Nagelsmann e arrastaram o jogo para mais uma prorrogação em mata-mata.

 



 








Na prorrogação, a Alemanha seguiu com a bola e tentou vencer pelo alto. Aos 14 min, Tah subiu soberano em cobrança de escanteio e fez o gol que seria o da classificação, mas o VAR entrou em cena. O árbitro viu falta de Anton em Gill e anulou a festa alemã. No segundo tempo extra, o desgaste tomou conta, o Paraguai resistiu mais uma vez, e o jogo foi para “la definición por penales”.

Na marca da cal as coisas foram diferentes. Gill brilhou ao defender as cobranças de Havertz e Woltemade e, embora o Paraguai também tenha desperdiçado as batidas de Sanabria e Balbuena — este último parado pelo veterano Neuer —, o zagueiro germânico Tah isolou o seu chute. Na cobrança decisiva, o zagueiro paraguaio Canale manteve a frieza, converteu a sua penalidade e garantiu a classificação da Albirroja para as oitavas de final.

 



 











A Alemanha perdeu uma invencibilidade de 44 anos em disputas de pênaltis em Mundiais, disse adeus precocemente pela terceira Copa seguida e deixou o Brasil como o único pentacampeão em atividade. E o Paraguai, por sua vez, segue sem pensar se é possível, porque o impossível ele já fez.

 

 

 

 

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa,

acredita na classificação paraguaia contra a França

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