A Última Dança dos Diabos Vermelhos
Há uma melancolia específica que acompanha os
grandes projetos inacabados. A Bélgica dos anos 2010 foi um deles. Reuniu, ao
mesmo tempo, o melhor goleiro do mundo, um dos grandes meias de sua geração e
um centroavante capaz de decidir qualquer partida. Tinha Hazard, tinha De
Bruyne, tinha Lukaku, tinha Courtois. E ficou — apenas — em terceiro lugar. Em
2022, o tombo foi maior. O elenco envelheceu mal, as vaidades afloraram, e a
derrota para o Marrocos na fase de grupos expôs a fragilidade de uma seleção
que nunca encontrou seu sistema ideal. Roberto Martínez caiu. Com ele, caiu
também a ilusão de que a geração dourada ainda tinha fôlego para uma última
dança.
Rudi Garcia chegou ao comando com uma missão
ingrata: desmontar o que havia sobrado e reconstruir ao redor do que ainda era
bom. Para isso, precisou convencer Courtois a voltar, depois do goleiro do Real
Madrid romper relações com a federação durante a passagem de Martínez. Também
precisou lidar com Lukaku, que ameaçou encerrar a carreira na seleção e só
recuou com a mudança de comando. Dois gestos de autoridade que definiram o tom
do novo ciclo.
O grupo que coube à Bélgica é, sem exagero, o mais
fácil desta Copa do Mundo. Egito, Irã e Nova Zelândia não seriam favoritos,
individualmente, contra os Diabos Vermelhos, e o conjunto forma o caminho mais
tranquilo rumo ao mata-mata entre todos os cabeças de chave. Passar da fase de
grupos não é meta. É obrigação. A questão que interessa, portanto, não é o quê,
mas como. Em que condição a Bélgica chega ao mata-mata? Com quanto ritmo, com
quanto fôlego, com quantos por cento de Lukaku?
Romelu Lukaku é a grande interrogação. A temporada
no Napoli foi um desastre, marcada por lesão grave na pré-temporada,
desentendimento com Antonio Conte, ausências não autorizadas e tratamentos
paralelos para tentar chegar em forma à Copa. Chega convocado, mas em condição
física longe do ideal. O que não impede de lembrar que, quando está bem, Lukaku
segue sendo um dos atacantes mais difíceis do mundo de se marcar: físico,
inteligente e implacável na área.
Jérémy Doku foi, ao contrário, a melhor notícia da
temporada. O atacante do Manchester City jogou 55 partidas em todas as
competições, marcou 13 gols e deu 15 assistências. Aos 24 anos, é o jogador
mais desequilibrante da seleção e um dos mais difíceis de marcar em todo o
torneio. Sua velocidade e seu um contra um são armas que poucas defesas sabem
neutralizar. Ao lado de Leandro Trossard, campeão inglês pelo Arsenal e vice da
Champions, e Charles De Ketelaere, da Atalanta, completa um setor ofensivo que
talvez não tenha o brilho coletivo da Bélgica de 2018, mas chega a 2026 com
mais juventude, mais velocidade e menos apego ao passado.
Kevin De Bruyne, aos 34 anos, passou boa parte da
temporada machucado no Napoli: saiu em outubro e voltou apenas em março. Mas é
o tipo de jogador que não precisa de ritmo perfeito para ser decisivo. Uma
jogada, um passe, e o rumo de uma partida muda. Esta é, quase certamente, sua
última Copa. Ele sabe disso. E jogadores que sabem disso costumam deixar tudo
em campo. E Courtois continua sendo o melhor goleiro do planeta. Quem assiste
ao Real Madrid sabe: ele salva jogos que parecem perdidos com uma naturalidade
assustadora. Sua volta à seleção foi o maior presente que Garcia poderia
receber.
Garcia abandonou o 3-4-2-1 que nunca funcionou bem
sob Martínez e adotou um 4-2-3-1 que, com a bola, vira quase um 2-3-5. Os
laterais sobem com muita amplitude, De Bruyne opera como um meia clássico atrás
do centroavante, e Doku e Trossard têm liberdade para trabalhar no um contra um
pelas beiradas. É um futebol bonito, propositivo e de transições letais. O
problema é que, quando a equipe perde a bola alto, fica exposta. A zaga, agora
sem os monumentais Vertonghen e Alderweireld, não tem o mesmo calibre para
enfrentar contra-ataques de nível altíssimo, e a Bélgica vai criar esse espaço,
inevitavelmente. Mas Courtois existe exatamente para isso.
Com o grupo que tem pela frente, chegar às quartas
é o piso. Chegar às semifinais exigiria tudo funcionando ao mesmo tempo: Lukaku
fisicamente bem, De Bruyne tomando conta dos jogos, Doku explodindo no
mata-mata e Courtois salvando o que precisar ser salvo.
Se tudo isso acontecer, os Diabos Vermelhos podem
dar à sua geração dourada em fim de carreira o que ela nunca conseguiu: uma
final de Copa do Mundo.
Luiz
Paulo Aranha (LOES)
sócio e gestor da MOAT Capital e são-paulino
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