segunda-feira, 1 de junho de 2026

Copa 2026 • Grupo G • Bélgica

A Última Dança dos Diabos Vermelhos



Há uma melancolia específica que acompanha os grandes projetos inacabados. A Bélgica dos anos 2010 foi um deles. Reuniu, ao mesmo tempo, o melhor goleiro do mundo, um dos grandes meias de sua geração e um centroavante capaz de decidir qualquer partida. Tinha Hazard, tinha De Bruyne, tinha Lukaku, tinha Courtois. E ficou — apenas — em terceiro lugar. Em 2022, o tombo foi maior. O elenco envelheceu mal, as vaidades afloraram, e a derrota para o Marrocos na fase de grupos expôs a fragilidade de uma seleção que nunca encontrou seu sistema ideal. Roberto Martínez caiu. Com ele, caiu também a ilusão de que a geração dourada ainda tinha fôlego para uma última dança.

 



 











Rudi Garcia chegou ao comando com uma missão ingrata: desmontar o que havia sobrado e reconstruir ao redor do que ainda era bom. Para isso, precisou convencer Courtois a voltar, depois do goleiro do Real Madrid romper relações com a federação durante a passagem de Martínez. Também precisou lidar com Lukaku, que ameaçou encerrar a carreira na seleção e só recuou com a mudança de comando. Dois gestos de autoridade que definiram o tom do novo ciclo.

O grupo que coube à Bélgica é, sem exagero, o mais fácil desta Copa do Mundo. Egito, Irã e Nova Zelândia não seriam favoritos, individualmente, contra os Diabos Vermelhos, e o conjunto forma o caminho mais tranquilo rumo ao mata-mata entre todos os cabeças de chave. Passar da fase de grupos não é meta. É obrigação. A questão que interessa, portanto, não é o quê, mas como. Em que condição a Bélgica chega ao mata-mata? Com quanto ritmo, com quanto fôlego, com quantos por cento de Lukaku?

Romelu Lukaku é a grande interrogação. A temporada no Napoli foi um desastre, marcada por lesão grave na pré-temporada, desentendimento com Antonio Conte, ausências não autorizadas e tratamentos paralelos para tentar chegar em forma à Copa. Chega convocado, mas em condição física longe do ideal. O que não impede de lembrar que, quando está bem, Lukaku segue sendo um dos atacantes mais difíceis do mundo de se marcar: físico, inteligente e implacável na área.

 



 









Jérémy Doku foi, ao contrário, a melhor notícia da temporada. O atacante do Manchester City jogou 55 partidas em todas as competições, marcou 13 gols e deu 15 assistências. Aos 24 anos, é o jogador mais desequilibrante da seleção e um dos mais difíceis de marcar em todo o torneio. Sua velocidade e seu um contra um são armas que poucas defesas sabem neutralizar. Ao lado de Leandro Trossard, campeão inglês pelo Arsenal e vice da Champions, e Charles De Ketelaere, da Atalanta, completa um setor ofensivo que talvez não tenha o brilho coletivo da Bélgica de 2018, mas chega a 2026 com mais juventude, mais velocidade e menos apego ao passado.

Kevin De Bruyne, aos 34 anos, passou boa parte da temporada machucado no Napoli: saiu em outubro e voltou apenas em março. Mas é o tipo de jogador que não precisa de ritmo perfeito para ser decisivo. Uma jogada, um passe, e o rumo de uma partida muda. Esta é, quase certamente, sua última Copa. Ele sabe disso. E jogadores que sabem disso costumam deixar tudo em campo. E Courtois continua sendo o melhor goleiro do planeta. Quem assiste ao Real Madrid sabe: ele salva jogos que parecem perdidos com uma naturalidade assustadora. Sua volta à seleção foi o maior presente que Garcia poderia receber.

Garcia abandonou o 3-4-2-1 que nunca funcionou bem sob Martínez e adotou um 4-2-3-1 que, com a bola, vira quase um 2-3-5. Os laterais sobem com muita amplitude, De Bruyne opera como um meia clássico atrás do centroavante, e Doku e Trossard têm liberdade para trabalhar no um contra um pelas beiradas. É um futebol bonito, propositivo e de transições letais. O problema é que, quando a equipe perde a bola alto, fica exposta. A zaga, agora sem os monumentais Vertonghen e Alderweireld, não tem o mesmo calibre para enfrentar contra-ataques de nível altíssimo, e a Bélgica vai criar esse espaço, inevitavelmente. Mas Courtois existe exatamente para isso.

 



 











Com o grupo que tem pela frente, chegar às quartas é o piso. Chegar às semifinais exigiria tudo funcionando ao mesmo tempo: Lukaku fisicamente bem, De Bruyne tomando conta dos jogos, Doku explodindo no mata-mata e Courtois salvando o que precisar ser salvo.

Se tudo isso acontecer, os Diabos Vermelhos podem dar à sua geração dourada em fim de carreira o que ela nunca conseguiu: uma final de Copa do Mundo.

 















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Luiz Paulo Aranha (LOES)

sócio e gestor da MOAT Capital e são-paulino




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Copa 2026 • Grupo G • Irã

Campo Minado



As atenções ao Irã nesta Copa do Mundo provavelmente estarão mais voltadas aos seus aspectos geopolíticos do que aos assuntos de campo. Isso já ocorreu em pelo menos outra ocasião, em 1998, quando EUA e Irã, inimigos na arena das relações internacionais, se enfrentaram no Mundial da França — vitória persa, em uma partida que contou com um dos maiores aparatos de segurança da história dos Mundiais.

Desta vez, a apreensão se justifica ainda mais por estarmos em um ano de guerra efetiva entre EUA e Irã, envolvendo também o Oriente Médio e com impactos humanitários e econômicos de proporção global. Nos últimos meses, houve risco real de a seleção iraniana boicotar a Copa ou ser proibida de participar do torneio por essas razões, afinal, a competição será disputada também em território norte-americano. Embora haja jogos de seu Grupo G no Canadá, a tabela mostra que o Irã disputará suas partidas da primeira fase em Seattle e Inglewood, ambas na Costa Oeste dos EUA. É compreensível, portanto, que, diante desse cenário, os olhares sobre a seleção iraniana neste torneio não estejam voltados apenas para suas qualidades esportivas.

 



 











Não se pode negar, entretanto, que o Irã é, há muito tempo, uma potência do futebol no continente asiático, ainda que não tenha conquistado uma Copa da Ásia desde a Revolução Islâmica — ocasião em que houve uma transformação decisiva no seio da sociedade do país. Desde que a Copa do Mundo expandiu a participação para além de 24 seleções, primeiro para 32 a partir da França, em 1998, e agora para 48 nesta edição, o Team Melli só deixou de comparecer em 2002 e 2010. A atual edição marcará sua quarta aparição seguida, o que não é pouco, ainda mais se considerada a relativa tranquilidade de sua classificação nas eliminatórias locais.

 



 











A Copa do Mundo será talvez a principal oportunidade de o Irã finalmente superar seu histórico de eliminações precoces e avançar de fase pela primeira vez. Em 2018, a seleção chegou perto, apresentou bom futebol e somou quatro pontos, com vitória sobre o Marrocos, derrota pela diferença mínima contra a Espanha e um digno empate diante de Portugal.

Para 2026, após uma provável estreia indigesta contra a Bélgica, não é irrealista imaginar uma vitória diante dos neozelandeses e uma partida equilibrada contra o Egito, resultado que, em caso de ao menos um empate, poderia abrir caminho para o avanço da equipe do icônico ex-atacante Ali Daei — entre 1993 e 2006, marcou 106 gols por sua seleção, marca superada apenas por Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

 



 











Formada majoritariamente por jogadores de sua liga local, a seleção iraniana ainda depende de alguns nomes experientes para tentar transformar organização em perigo real. A principal referência ofensiva é Mehdi Taremi, hoje no Olympiakos, atacante de boa leitura de jogo e acostumado ao futebol europeu. Ao seu redor, Alireza Jahanbakhsh oferece experiência pelos lados, enquanto Saman Ghoddos pode ajudar na ligação entre meio e ataque. A ausência de Sardar Azmoun, fora da lista preliminar, aumenta ainda mais o peso sobre Taremi e deixa claro que o Irã chega à Copa com menos brilho individual do que em outros ciclos, mas ainda com jogadores capazes de decidir em momentos curtos.

 



 











Cercado por tensões que ultrapassam o gramado, o Team Melli tentará transformar a guerra que o cerca fora de campo em uma batalha exclusivamente esportiva: vencer jogos, sobreviver ao grupo e, enfim, avançar de fase pela primeira vez.

 



 













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Adriano Gomes (CARICA)

Pai da Akemi e da Ayumi, é assíduo frequentador da Rua Javari 



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