Aquele Paraguai tinha Carlos Gamarra, um zagueiro
de precisão cirúrgica. Quatro anos antes, em 1998, ele disputou 383 minutos,
enfrentou Raúl, Kanu e Stoichkov, e terminou a Copa sem cometer uma única
falta. Contra a França, ainda jogou a prorrogação com o ombro deslocado (2 cm
de desvio na clavícula), sem apelar para a violência. Em 2002, outra vez no
sacrifício (agora literário), segurou Klose e a Alemanha até quase o fim.
Quase.
Gamarra, o xerife, não conseguiu levar o Paraguai
adiante. Ficou a imagem do time duro e valente, acostumado a sofrer, mas
condenado ao quase. Em 2026, a cobrança finalmente veio. O Paraguai não tinha
mais o zagueiro perfeito, nem Chilavert desafiando o goleiro do outro lado.
Tinha outra geração, outro goleiro e a mesma teimosia histórica de quem se nega
a cair. Desta vez, porém, não caiu.
O reencontro, agora pela inédita fase de 16 avos,
só podia ser dramático. No Gillette Stadium, em Boston, o Paraguai abriu a
conta aos 41 min do primeiro tempo, quando Galarza cruzou com precisão e Enciso
apareceu para testar no fundo do gol alemão. A resposta veio logo aos 8 da
etapa final: Wirtz colocou a bola na medida, e Havertz cabeceou firme para
empatar. A partir daí, a Alemanha fez o que a Alemanha faz de melhor: empurrou,
cercou e martelou. Mas o Paraguai fechou a porta com a boa e velha organização
defensiva, aliada ao sofrimento calculado e às defesas importantes do goleiro
Gill. Os guaranis sobreviveram à pressão de Nagelsmann e arrastaram o jogo para
mais uma prorrogação em mata-mata.
Na prorrogação, a Alemanha seguiu com a bola e
tentou vencer pelo alto. Aos 14 min, Tah subiu soberano em cobrança de
escanteio e fez o gol que seria o da classificação, mas o VAR entrou em cena. O
árbitro viu falta de Anton em Gill e anulou a festa alemã. No segundo tempo
extra, o desgaste tomou conta, o Paraguai resistiu mais uma vez, e o jogo foi
para “la definición por penales”.
Na marca da cal as coisas foram diferentes. Gill
brilhou ao defender as cobranças de Havertz e Woltemade e, embora o Paraguai
também tenha desperdiçado as batidas de Sanabria e Balbuena — este último
parado pelo veterano Neuer —, o zagueiro germânico Tah isolou o seu chute. Na
cobrança decisiva, o zagueiro paraguaio Canale manteve a frieza, converteu a
sua penalidade e garantiu a classificação da Albirroja para as oitavas de
final.
A Alemanha perdeu uma invencibilidade de 44 anos em
disputas de pênaltis em Mundiais, disse adeus precocemente pela terceira Copa
seguida e deixou o Brasil como o único pentacampeão em atividade. E o Paraguai,
por sua vez, segue sem pensar se é possível, porque o impossível ele já fez.
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário
e criador do De Letra na Copa,
acredita
na classificação paraguaia contra a França




