segunda-feira, 6 de julho de 2026

2026 | A Sexta Queda








O Brasil voltou a enfrentar a Noruega em uma Copa do Mundo após 28 anos. Naquela oportunidade, a Seleção abriu o placar com Bebeto, aos 33 min do 2° tempo, mas levou o empate e a virada em menos de sete minutos, com Tore Andre Flo e Rekdal, de pênalti. O lance gerou revolta num primeiro momento e a marcação foi tratada como mandrake, mas, dois dias depois, uma imagem de uma TV sueca escancarou o puxão de Júnior Baiano na camisa do centroavante norueguês. O pênalti, tão contestado na hora, tinha sido claro. Naquele dia, o Brasil perdeu para a Noruega por 2 a 1. Ontem, perdeu de novo. Pelo mesmo placar.

 



 














Na partida de Nova Jersey, a Noruega tinha um plano: passava pelos pés de Haaland. Não havia novidade nenhuma nisso. Estava nas estatísticas, escancarado para quem quisesse ver: Haaland tinha apenas 47 toques na bola em toda a Copa de 2026, com uma média absurda de 6,7 toques para cada gol marcado. Estava claro: o Colossus da Noruega é uma força brutal, e quando embala, ninguém segura no corpo a corpo. É um tanque de impacto físico, feito para tocar pouco na bola e causar muito estrago na área. Por isso, Haaland precisava ser marcado de perto. Não foi.

Mas não estamos aqui só para falar de Haaland. Antes de ele decidir a partida, o Brasil teve duas chances de fazer o mesmo. Na primeira, Bruno Guimarães telegrafou a cobrança de pênalti e permitiu a defesa de Nyland. A pergunta veio na hora: por que Vini não bateu, se ele era o craque do time? Ao que tudo indica, a decisão já vinha da comissão técnica antes do jogo. Mas qual foi o critério? Já dizia Neném Prancha, um dos maiores personagens do futebol brasileiro: “Pênalti é uma coisa tão importante que quem devia bater é o presidente do clube”. E, naquele Brasil, o presidente era Vini.















A entrada de Endrick no 2° tempo deu ao Brasil a profundidade que o jogo pedia, e logo na primeira bola essa escolha criou uma chance do tamanho da Copa. Mas o menino adiantou demais a bola, o goleiro norueguês cresceu na frente dele e, na tentativa de tirar, acabou tirando demais: para fora. Em outros tempos, Ronaldo ou Romário teria driblado o goleiro e empurrado para o gol vazio. Já dizia Muricy Ramalho: “A bola pune”. E, depois de duas chances claras desperdiçadas, estava escrito que iria punir.

O problema é que, poucos minutos depois, a entrada de Neymar desmontou a ideia: Endrick foi empurrado para a ponta, o Brasil perdeu a referência na área e a profundidade que tinha acabado de aparecer foi jogada fora. Neymar até poderia ter entrado, mas não naquela circunstância. O time precisava insistir no que havia funcionado. Ao mexer tão rápido, Ancelotti matou uma opção correta antes que ela amadurecesse e abriu caminho para a Noruega crescer. Com liberdade, o time escandinavo passou a trocar passes diante da passividade brasileira e, a dez minutos do fim, encontrou espaço nas costas de Danilo para fazer um cruzamento chegar onde não deveria: na cabeça de Haaland. Noruega 1 a 0.

 



 











E quando uma seleção termina um jogo com apenas 34% de posse de bola, a pior marca brasileira em Mundiais desde o início dos registros, em 1966, não dá para esperar outro desfecho além de mais espaço para o adversário finalizar. Pouco antes dos 90 minutos, Haaland recebeu na entrada da área, teve tempo para ajeitar o corpo, escolher o canto e bater sem marcação, no canto de Alisson: 2 a 0.

A Seleção ainda diminuiu em outro pênalti, marcado após uma cotovelada em Casemiro. Nyland provocou, Neymar entrou na pilha, mandou o goleiro escolher o canto e marcou. Depois, bateu boca com o norueguês, numa cena deprimente e desnecessária. Nyland estava apenas ganhando tempo, com o Brasil sendo eliminado, enquanto Neymar caía exatamente no jogo emocional que a Noruega queria.

O fim do jogo foi o retrato de uma Seleção sem controle emocional. O Brasil terminou brigando com o relógio e com os noruegueses, enquanto via se manter um tabu que atravessa décadas: contra a Noruega, a camisa mais pesada do mundo continua sem vitória. O retrospecto oficial conta com 5 jogos, 3 vitórias da Noruega e 2 empates. Os escandinavos são a única seleção do mundo que enfrentou o Brasil mais de uma vez e permanece invicta.

 




 











França, Holanda, Alemanha, Bélgica, Croácia e Noruega: pela sexta Copa seguida desde o penta, a Seleção morreu no quinto jogo para um europeu. Só que agora, com uma fase eliminatória a mais, a queda veio ainda nas oitavas. Mudou o formato, mudou o tamanho do torneio, mas a ferida continuou aberta no mesmo lugar. O sonho do hexa, mais uma vez, parou diante da mesma porta fechada.

  

 

  

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa,

nunca acreditou na Seleção Brasileira

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