No duelo mais célebre entre as duas seleções, em
1986, Diego Maradona sintetizou a dualidade humana ao assinar as duas obras
mais emblemáticas da história das Copas. Primeiro, ludibriou o império
britânico com a astúcia trapaceira e poética da "Mão de Deus".
Minutos depois, redimiu sua própria heresia ao costurar a defesa inglesa no
"Gol do Século", transformando a vingança militar em uma obra de arte
emoldurada.
Foi o dia em que o futebol provou que o talento, quando misturado à genialidade transgressora, é capaz de reescrever a história com os pés e as mãos. “La Mano de Dios”, como quis Dieguito. Quarenta anos depois, as mãos de um alemão à beira do campo voltaram a empurrar a Argentina sobre a Inglaterra. 2 a 1, de novo.
Como não poderia deixar de ser, o jogo começou
quente. Em menos de três minutos, Paredes já havia dado um chega-pra-lá em
Bellingham, Enzo Fernández acertara um soco na nuca de Anderson, e o camisa 10
inglês foi tirar satisfações com os argentinos. O tempo fechou. A arbitragem
fraca do americano Ismail Elfath deixou o jogo correr — e, com ele, a
pancadaria. O primeiro cartão amarelo só foi mostrado aos 37 minutos, quando Anderson
precisou apelar para interromper uma fila de dribles de Messi no meio dos
ingleses. A falta de critério contaminou todo o primeiro tempo, que teve muito
atrito e poucas chances de gol. O placar seguia em branco.
O segundo tempo mudou o jogo. Logo após o
intervalo, Julián Álvarez teve duas chances para abrir o placar, mas Pickford
defendeu ambas. A resposta inglesa veio aos 9 minutos. Kane lançou para o
ataque, Tagliafico cortou mal, e a sobra ficou com Morgan Rogers. O cruzamento
encontrou Gordon na área; ele se antecipou a Molina e mandou para o fundo da
rede: Inglaterra 1 a 0.
Com o placar adverso mais uma vez no Mundial, a
Argentina foi para cima. E a Inglaterra recuou. O time de Scaloni cresceu no
jogo justamente quando Thomas Tuchel escolheu se encolher: mexidas
conservadoras como um símbolo de covardia, a saída de Gordon, autor do gol,
para a entrada de mais um zagueiro. Foi o convite que a Argentina esperava.
Quando começa a gostar do jogo, é um perigo.
Aos 39, Enzo arriscou de longe, e Pickford mandou
para escanteio. Na cobrança, Messi saiu curto com De Paul, recebeu de volta e
tocou para Enzo tentar de novo. Dessa vez, não houve defesa possível.
Livre de marcação, o camisa 24 argentino ajeitou o corpo, escolheu o canto e
fuzilou para empatar a partida: 1 a 1.
A Argentina seguiu pressionando, com o Egito ainda
vivo na memória e a força da torcida na ponta da chuteira. Já nos acréscimos,
Mac Allister voltou a acertar a trave de Pickford. Na sequência, veio a
redenção. Messi, com o pé “ruim”, colocou a bola na cabeça de Lautaro. Livre, o
centroavante testou para o fundo do gol inglês: 2 a 1, outra vez.
A Scaloneta fez de novo. Uma virada saída da alma argentina, de um time com
autoridade, repertório e, acima de tudo, raça. Em simbiose com a torcida, a
Argentina se recusa a perder e está na final pela segunda Copa consecutiva. Será a
sétima decisão dos hermanos, agora em busca do tetra — aquele que, há 32 anos,
foi conquistado pelo Brasil.
É: não foram só os ingleses que estacionaram na sala de troféus da Copa do Mundo.
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário
e criador do De Letra na Copa,
embasbacado
com Messi, aos 39 anos, comendo a bola outra vez.






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