sexta-feira, 17 de julho de 2026

2026 | La Mano de Tuchel

 







O confronto entre Argentina e Inglaterra nunca é apenas uma partida de futebol. É uma rivalidade política transposta para as quatro linhas: de 1966, com Rattín incompreendido no tapete vermelho de Wembley, passando por 1986, quando a ferida das Malvinas alçou Maradona ao papel de roteirista divino e profano, até Beckham, entre 1998 e 2002, que atravessou a fronteira que separa o vilão do herói.

No duelo mais célebre entre as duas seleções, em 1986, Diego Maradona sintetizou a dualidade humana ao assinar as duas obras mais emblemáticas da história das Copas. Primeiro, ludibriou o império britânico com a astúcia trapaceira e poética da "Mão de Deus". Minutos depois, redimiu sua própria heresia ao costurar a defesa inglesa no "Gol do Século", transformando a vingança militar em uma obra de arte emoldurada.

Foi o dia em que o futebol provou que o talento, quando misturado à genialidade transgressora, é capaz de reescrever a história com os pés e as mãos. “La Mano de Dios”, como quis Dieguito. Quarenta anos depois, as mãos de um alemão à beira do campo voltaram a empurrar a Argentina sobre a Inglaterra. 2 a 1, de novo.




 










Como não poderia deixar de ser, o jogo começou quente. Em menos de três minutos, Paredes já havia dado um chega-pra-lá em Bellingham, Enzo Fernández acertara um soco na nuca de Anderson, e o camisa 10 inglês foi tirar satisfações com os argentinos. O tempo fechou. A arbitragem fraca do americano Ismail Elfath deixou o jogo correr — e, com ele, a pancadaria. O primeiro cartão amarelo só foi mostrado aos 37 minutos, quando Anderson precisou apelar para interromper uma fila de dribles de Messi no meio dos ingleses. A falta de critério contaminou todo o primeiro tempo, que teve muito atrito e poucas chances de gol. O placar seguia em branco.

O segundo tempo mudou o jogo. Logo após o intervalo, Julián Álvarez teve duas chances para abrir o placar, mas Pickford defendeu ambas. A resposta inglesa veio aos 9 minutos. Kane lançou para o ataque, Tagliafico cortou mal, e a sobra ficou com Morgan Rogers. O cruzamento encontrou Gordon na área; ele se antecipou a Molina e mandou para o fundo da rede: Inglaterra 1 a 0.

 



 










Com o placar adverso mais uma vez no Mundial, a Argentina foi para cima. E a Inglaterra recuou. O time de Scaloni cresceu no jogo justamente quando Thomas Tuchel escolheu se encolher: mexidas conservadoras como um símbolo de covardia, a saída de Gordon, autor do gol, para a entrada de mais um zagueiro. Foi o convite que a Argentina esperava. Quando começa a gostar do jogo, é um perigo.

Aos 39, Enzo arriscou de longe, e Pickford mandou para escanteio. Na cobrança, Messi saiu curto com De Paul, recebeu de volta e tocou para Enzo tentar de novo. Dessa vez, não houve defesa possível. Livre de marcação, o camisa 24 argentino ajeitou o corpo, escolheu o canto e fuzilou para empatar a partida: 1 a 1.

A Argentina seguiu pressionando, com o Egito ainda vivo na memória e a força da torcida na ponta da chuteira. Já nos acréscimos, Mac Allister voltou a acertar a trave de Pickford. Na sequência, veio a redenção. Messi, com o pé “ruim”, colocou a bola na cabeça de Lautaro. Livre, o centroavante testou para o fundo do gol inglês: 2 a 1, outra vez.

 



 










A Scaloneta fez de novo. Uma virada saída da alma argentina, de um time com autoridade, repertório e, acima de tudo, raça. Em simbiose com a torcida, a Argentina se recusa a perder e está na final pela segunda Copa consecutiva. Será a sétima decisão dos hermanos, agora em busca do tetra — aquele que, há 32 anos, foi conquistado pelo Brasil.

É: não foram só os ingleses que estacionaram na sala de troféus da Copa do Mundo.



 

 

 

 









Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa,

embasbacado com Messi, aos 39 anos, comendo a bola outra vez.

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