O Último Oceano
Portugal, o país que o viu nascer, sempre entendeu
de partidas. Durante séculos, seus homens olharam para o mar e viram não um
fim, mas uma pergunta: e se houver mais? E partiram. Enfrentaram tempestades
que nenhum de nós poderia imaginar. Cá dentro do peito de cada desbravador, no
escuro dos porões, devia haver medo — não se fala disso nos livros de história.
Mas fala-se do resultado. Descobriram mundos. E o menino da Madeira, séculos
depois, descobriria o seu.
Não foi fácil. As crônicas esportivas gostam de
contar a glória. Gostam dos números — os gols, os recordes, os troféus. Mas o
que ninguém viu foi o menino sozinho num campo de terra batida, chutando contra
um muro, porque não tinha time, não tinha técnico, não tinha nada. Só tinha
aquela bola e a certeza silenciosa de que precisava sair da ilha. Precisava. Essa
palavra vai voltar.
Ele saiu. E a vida, depois disso, nunca foi certa.
Fernando Pessoa, o poeta que melhor entendeu a alma
portuguesa, escreveu um verso que parece feito para esta história:
"Navegar é preciso, viver não é preciso."
A frase ecoa pelos séculos como um manifesto da
condição humana. Mas o que o gênio quis dizer? A beleza está na ambiguidade, na
aparente contradição. Segundo historiadores da língua, o vocábulo "preciso" carrega
dois significados distintos no português arcaico — e Pessoa, gênio que era,
empregou ambos.
Na primeira oração — "navegar é preciso" —
o termo assume o sentido de necessário, indispensável.
Navegar é uma obrigação quase existencial para um povo que já nasceu de frente
para o mar: o ser humano precisa lançar-se ao mar, perseguir horizontes, buscar
algo maior que a si mesmo. Na segunda — "viver não é preciso" —
o sentido se desloca para exato, certo, previsível.
Viver não é preciso porque a vida não segue rotas cartografadas. Não há mapa
que garanta o destino. Não há bússola que aponte para a felicidade ou para a
glória. Viver é errar, é duvidar de si, é tentar outra vez.
Hoje, o palco é outro. O gramado substituiu o mar,
e as chuteiras tomaram o lugar das longas botas de couro. Mas a essência é a
mesma: Portugal precisa novamente cruzar o desconhecido em busca de um Novo
Mundo — a conquista inédita de uma Copa do Mundo. E, assim
como as caravelas precisavam de um comandante, esta seleção tem o seu.
A trajetória de Cristiano Ronaldo é a própria
epopeia marítima em miniatura. Da pequena Ilha da Madeira ao estrelato global,
ele navegou contra ventos e correntezas que ninguém mais ousaria enfrentar.
Foram cinco Copas do Mundo, lágrimas na Euro 2004, o grito de 2016, a redenção
de 2019. Cada capítulo dessa trajetória funcionava como uma viagem de
desbravamento: ora bonança, ora tempestade. Mas sempre, sempre navegando: a
Copa do Mundo nunca se deixou conquistar.
Paradoxalmente, Brasil e França sabem exatamente o
que é vencer uma Copa. O Brasil ostenta cinco estrelas; a França, duas, sendo
uma recente. Para essas nações, o caminho é preciso no sentido
de já ter sido percorrido, conhecido, mapeado. Há um script, uma confiança que
nasce da memória. Portugal não tem esse mapa.
Para Portugal, a Copa é um oceano desconhecido. E
isso, ironicamente, é a sua maior força. Porque se viver não é preciso — se a
vida não segue roteiros —, então o futebol também não segue. O
imponderável é a matéria-prima do esporte. O favoritismo não ganha jogo. A
história não entra em campo. Quem decide é o momento, a coragem, a genialidade
de um instante.
“A Última Dança”
Cristiano Ronaldo tem 41 anos. Esta Copa, seja qual
for o cenário, será seu derradeiro capítulo. O menino da Ilha da Madeira que
driblou a pobreza, a rejeição no Sporting, as críticas no Manchester United, a
pressão no Real Madrid, o exílio dourado em Riad. Tudo converge para um só
instante.
Ele não precisa de uma Copa para ser o que é. O
legado está construído como um farol: cinco Bolas de Ouro, artilheiro máximo da
história moderna do futebol, líder de todas as estatísticas possíveis. Mas o
futebol não vive de estatísticas — vive de símbolos. E o símbolo que falta a
Portugal é o mais poderoso de todos: A COPA DO MUNDO.
Um antigo gigante das navegações, hoje uma nação de
pouco mais de dez milhões de habitantes, carrega nas costas a missão de fazer o
que Brasil, Alemanha, Argentina, França, Itália, Inglaterra, Espanha e Uruguai
já fizeram. Mas, diferente deles, Portugal nunca pisou no topo do mundo. E
talvez seja exatamente por isso que mereça chegar.
Porque navegar é preciso. E Cristiano Ronaldo, o último grande navegador, tem um último oceano a cruzar.
Que os ventos soprem a favor da esquadra lusitana.
ESQUEMA TÁTICO (clique para
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HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Felipe Trezza (FI)
Advogado, palmeirense e fã do CR7
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