O Peso do Chumbo
A camisa da Alemanha sempre pesou como chumbo no
imaginário de quem a enfrenta. Por décadas, o mundo se acostumou a ver o
futebol como um jogo de onze contra onze em que, no fim, os alemães venciam.
Mas o esporte, em sua ironia implacável, cobrou a conta da glória de 2014.
Desde então, a camisa que entortava varais parecia arrastar seus próprios
jogadores em campo, presa aos fantasmas das eliminações vexatórias nas fases de
grupos da Rússia e do Qatar.
Hoje, a seleção que se prepara para a Copa de
2026 já não é o reflexo de Toni Kroos ou Thomas Müller. A velha guarda, aquela
que nos fez engolir a seco o 7 a 1, finalmente pendurou as chuteiras
internacionais — com a exceção de Manuel Neuer, que caminha para sua quinta
Copa.
Sob o comando de Julian Nagelsmann, o chumbo virou
engenharia letal. O treinador abandonou a posse de bola estéril do passado
recente e instaurou um futebol híbrido, agressivo e vertical, reflexo do
momento especial vivido por seus principais protagonistas nos clubes. O
termômetro desse time atende pelo apelido de “Wusiala”: Florian Wirtz chega à
Copa depois de seguir encantando a Europa pelo Bayer Leverkusen, ditando o
ritmo do jogo com uma maturidade assustadora. Ao seu lado, Jamal Musiala
desfila como o grande motor criativo do Bayern de Munique. Juntos, esses
meninos jogam com a leveza de quem não carrega a cruz das derrotas recentes da
seleção.
Eles não estão sozinhos. No ataque, a Alemanha
conta com um Kai Havertz decisivo como peça móvel e letal no Arsenal campeão da
Premier League. Para dar sustentação a essa máquina ofensiva, a defesa é
liderada por Antonio Rüdiger, que traz na bagagem a agressividade e a aura
vencedora do Real Madrid — ainda que o clube merengue atravesse um raro vácuo
recente de títulos. Atrás dele, Manuel Neuer ainda guarda a meta alemã, como
último sobrevivente daquela geração campeã que viu a camisa pesar, cair e tentar
se reerguer.
Com esse poder de fogo, a Alemanha sobrou nas
eliminatórias europeias e garantiu seu lugar como cabeça de chave. Sorteada no
acessível Grupo E, ao lado de equipes como Costa do Marfim e Curaçao, a
classificação para o mata-mata não é objetivo: é obrigação. Nagelsmann sabe que
sua pressão pós-perda e suas linhas altíssimas fazem do time uma ameaça
constante, mas também deixam a defesa exposta a contra-ataques rápidos. Por
isso, adota o discurso de “desafiante”.
A Alemanha não desembarca na América do Norte como
a favorita unânime de outrora, mas como um gigante ferido que recriou a própria
identidade. Se o sistema defensivo aguentar o tranco, o talento que sobra do
meio para frente tem fôlego e magia suficientes para empurrar os alemães até,
pelo menos, as semifinais — e devolver à sua camisa o peso de ser o pesadelo de
qualquer adversário.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
Luiz Paulo Aranha (LOES)
sócio e gestor da MOAT capital e conselheiro do São
Paulo FC





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