Do Hangul ao gol
O Hangul, alfabeto coreano criado no século XV,
nasceu para aproximar o povo das palavras. Suas letras têm lógica, desenho e
encaixe — na Coreia do Sul, até a escrita parece lembrar que organização também
pode produzir beleza. Ali, de certa forma, até o alfabeto tem vocação tática.
No futebol, a seleção tenta fazer algo parecido:
obrigar o mundo a entendê-la. Para quem vê de fora, a escalação coreana pode
soar como uma coleção de nomes parecidos e pronúncias traiçoeiras: tantos Kim,
Lee, Hwang e Cho que, à primeira vista, parecem falta de criatividade. Mas cada
nome tem som, sentido e identidade — quase como uma jogada bem treinada.
O problema é que, no futebol, nem sempre a bola
respeita a gramática. A Coreia sabe disso melhor do que ninguém. Já foi
coadjuvante, zebra e anfitriã. Em 2002, escreveu sua página mais famosa. Chegou
à semifinal e obrigou o planeta a pronunciar seu nome com cuidado: “Dae Han Min
Guk!”
Desde então, carrega uma mistura curiosa de orgulho
e cobrança. Não basta mais participar; a Coreia já aprendeu a aparecer. É um
país de tecnologia rápida, cultura pop exportável e futebol elétrico. Quando
ataca, parece videoclipe: acelera, corta, muda o ritmo. Quando sofre, vira
drama coreano: tensão, lágrimas e plot twist. Afinal, toda Copa precisa de um
personagem que não entra como favorito, mas deixa alguém grande desconfortável
no sofá.
A Coreia costuma ser esse tipo de visita: educada,
sorrateira e fatal. Na última Copa, transformou cálculo em drama. Parecia
eliminada, virou sobre Portugal nos acréscimos e deixou o Uruguai fazendo conta
— e as malas. Isso depois de já ter aprontado em 2018, quando venceu a Alemanha
e ajudou a eliminar a então campeã mundial ainda na fase de grupos.
Para a Copa de 2026, chega com um nome acima de
todos: Son Heung-min, agora no Los Angeles FC. É capitão, símbolo e talvez
protagonista de uma última empreitada. Ao lado dele, Kim Min-jae, do Bayern, dá
peso europeu à defesa. No meio, Lee Kang-in, do PSG, oferece talento e
imaginação. Hwang Hee-chan, dos Wolves, acrescenta força, velocidade e faro de
gol no ataque.
No banco, Hong Myung-bo, herói de 2002, tenta transformar memória em inspiração. A expectativa é realista: passar da fase de grupos já renderia uma boa história. Chegar mais longe seria transformar subtítulo em manchete. Porque a Coreia pode não ser favorita, mas sabe muito bem escrever surpresas.
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Marcelo Martensen (MILAN)
publicitário, colecionador de histórias do
futebol e criador do "De Letra na Copa";
entende de Copas; de Hangul, segue tentando





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