segunda-feira, 25 de maio de 2026

Copa 2026 • Grupo A • Coreia do Sul

Do Hangul ao gol





O Hangul, alfabeto coreano criado no século XV, nasceu para aproximar o povo das palavras. Suas letras têm lógica, desenho e encaixe — na Coreia do Sul, até a escrita parece lembrar que organização também pode produzir beleza. Ali, de certa forma, até o alfabeto tem vocação tática.

No futebol, a seleção tenta fazer algo parecido: obrigar o mundo a entendê-la. Para quem vê de fora, a escalação coreana pode soar como uma coleção de nomes parecidos e pronúncias traiçoeiras: tantos Kim, Lee, Hwang e Cho que, à primeira vista, parecem falta de criatividade. Mas cada nome tem som, sentido e identidade — quase como uma jogada bem treinada.

O problema é que, no futebol, nem sempre a bola respeita a gramática. A Coreia sabe disso melhor do que ninguém. Já foi coadjuvante, zebra e anfitriã. Em 2002, escreveu sua página mais famosa. Chegou à semifinal e obrigou o planeta a pronunciar seu nome com cuidado: “Dae Han Min Guk!”
















Desde então, carrega uma mistura curiosa de orgulho e cobrança. Não basta mais participar; a Coreia já aprendeu a aparecer. É um país de tecnologia rápida, cultura pop exportável e futebol elétrico. Quando ataca, parece videoclipe: acelera, corta, muda o ritmo. Quando sofre, vira drama coreano: tensão, lágrimas e plot twist. Afinal, toda Copa precisa de um personagem que não entra como favorito, mas deixa alguém grande desconfortável no sofá.

A Coreia costuma ser esse tipo de visita: educada, sorrateira e fatal. Na última Copa, transformou cálculo em drama. Parecia eliminada, virou sobre Portugal nos acréscimos e deixou o Uruguai fazendo conta — e as malas. Isso depois de já ter aprontado em 2018, quando venceu a Alemanha e ajudou a eliminar a então campeã mundial ainda na fase de grupos.

Para a Copa de 2026, chega com um nome acima de todos: Son Heung-min, agora no Los Angeles FC. É capitão, símbolo e talvez protagonista de uma última empreitada. Ao lado dele, Kim Min-jae, do Bayern, dá peso europeu à defesa. No meio, Lee Kang-in, do PSG, oferece talento e imaginação. Hwang Hee-chan, dos Wolves, acrescenta força, velocidade e faro de gol no ataque.














No banco, Hong Myung-bo, herói de 2002, tenta transformar memória em inspiração. A expectativa é realista: passar da fase de grupos já renderia uma boa história. Chegar mais longe seria transformar subtítulo em manchete. Porque a Coreia pode não ser favorita, mas sabe muito bem escrever surpresas.















ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)









HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)





Marcelo Martensen (MILAN)

publicitário, colecionador de histórias do

futebol e criador do "De Letra na Copa";

entende de Copas; de Hangul, segue tentando







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