Dos Alpes se foram, aos Alpes voltarão:
O pesadelo de 14 retratado em 26
Considerada em 2013 o melhor país para nascer, a
Suíça é tida como o sonho de consumo de casais inebriados pelo fogo da paixão,
de esquiadores e amantes do clima frio. É cantada em verso e prosa como o lugar
dos que buscam segurança e bons investimentos, ou, melhor dizendo, dos que se
julgam com potencial para desfrutar de uma vida rica baseada em posses e
consumo. Quem nunca ouviu alguém dizer "se eu ganhar muito dinheiro, me
mudo para a Suíça", ou "não saia com este relógio de ouro; não
estamos na Suíça" ou "quer respirar ar puro, vá para a
Suíça".
Também conhecida pela excelência de seus relógios,
tidos como os mais pontuais do mundo (contrastando com o moderador deste site),
e pela fama de seus saborosos queijos, futebolisticamente falando, a Suíça
nunca chamou muito a atenção. Em 1954, sediou uma excelente e imprevisível Copa
do Mundo, onde uma grande potência do futebol começou a mostrar as suas armas:
a temida Alemanha, então somente ocidental, que bateu o esquadrão húngaro de
Puskas e levantou o seu primeiro caneco.
Em 54, a Suíça acabou eliminada nas quartas de
final em um jogo maluco, como era comum naquele tempo, ao perder por 7 a 5 para
a Áustria, berço do carismático, temível, inescrupuloso e monstruoso Adolf
Hitler. Os dois países voltaram a se encontrar em 2008, quando sediaram em
conjunto a Eurocopa — infelizmente, não passou da fase de grupos. Na verdade,
sua grande conquista no futebol acabou sendo o seu poderio defensivo.
Em 2006, conseguiu a proeza de ser eliminada sem sofrer gols e saiu, portanto, invicta. Em 2010, o time alvirrubro conseguiu outra proeza: derrotar a Espanha, que viria a ser campeã. Entretanto, a equipe não conseguiu repetir o brilho defensivo de 2006 e, contando com sua histórica deficiência ofensiva, caiu ainda na primeira fase ao empatar com Honduras por um óbvio e costumeiro 0 a 0.
Em 2026, a Suíça figura num grupo que não perdoa distrações e, de acordo com a lógica de sempre, deve brigar com determinação pela segunda vaga. Porém, em um torneio curto, realizado no calor norte-americano — que não tem nada a ver com os Alpes suíços —, tudo pode acontecer com uma velocidade que assusta.
Apesar de não contar mais com Shaqiri e com o
veterano Seferović, a Suíça
possui jogadores que têm chamado atenção e, por isso, é vista como
uma seleção em ascensão consistente. Os veteranos Kobel (goleiro do Borussia
Dortmund, seguro como um cofre suíço), Akanji (zagueiro do Inter de Milão,
elegante e imponente), Granit Xhaka (o capitão eterno, que já era jovem
promessa quando o texto anterior foi escrito e agora comanda tudo com 144
partidas nas costas) e Ricardo Rodríguez (lateral que chega em sua quarta Copa
como se fosse a coisa mais natural do mundo) levam sua experiência para os
jovens valores do time, como o dinâmico Dan Ndoye e o talentoso Fabian Rieder.
O maior destaque nominal do time suíço é o
impetuoso e combativo Breel Embolo, centroavante do Rennes, com poder
físico, pressing e aquela presença de área que os suíços
raramente tiveram com tanta clareza. Porém, como sempre, é no ataque que os
problemas podem aparecer. As demais opções ofensivas, como Amdouni, Itten e
Zeqiri, precisarão provar que são capazes de resolver quando o jogo apertar de
verdade. Mas jamais subestime a seleção suíça, até porque a equipe é comandada
pelo perspicaz e meticuloso Murat Yakin, suíço de origem turca que transformou
os rossocrociati em uma das seleções mais difíceis de bater da
Europa.
Se me perguntarem se, mesmo assim, eu colocaria fé
nesse time, eu responderia que, em outra esfera da realidade, sim. Mas nesta
Copa do Mundo do calor americano, com jogos em cidades que jamais ouviram falar
de fondue, sinceramente, não sei.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
A Suíça deve jogar no 3-4-2-1, marca registrada de Yakin, com três zagueiros, dois alas com liberdade para atacar e dois meias adiantados apoiando o centroavante. O esquema pode variar para um 4-3-3 dependendo do adversário, já que Yakin tem aquele hábito irritante dos treinadores inteligentes de mudar tudo sem avisar ninguém. A solidez defensiva continua sendo a espinha dorsal, mas desta vez há mais ambição nas transições para o ataque, o que é algo novo e levemente assustador para quem acompanha a seleção suíça há anos e espera um gol que nunca chega.
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)





