A Boêmia nunca foi um país de meias medidas
A Tchéquia, que durante anos teve que explicar ao
mundo inteiro que não era a Eslováquia — e que o nome comprido, República
Tcheca, estava saindo de moda porque ninguém conseguia colocá-lo adequadamente
numa camiseta — chegou à Copa do Mundo de 2026 com aquela postura específica de
quem sempre soube que era ruim, mas raramente teve a oportunidade certa para
provar isso num palco que valesse o esforço. A mudança de nome para Tchéquia,
oficializada em 2016 junto com o nome em inglês, Czechia, foi uma decisão que
demorou décadas para acontecer e que ainda causa confusão em comentaristas de
televisão no mundo inteiro. O que, de certa forma, é uma metáfora perfeita para
o próprio país: claro por dentro e complicado de explicar para quem está de
fora, olhando sem paciência suficiente.
Praga é uma cidade que torna as pessoas poéticas
involuntariamente, o que é um problema sério quando se está tentando escrever
sobre futebol e fica pensando no rio Vltava, na arquitetura barroca e em Franz
Kafka, que nasceu ali e passou a vida tentando descrever burocracias absurdas
sem saber que, com precisão de profeta, também estava antecipando o processo de
classificação para fases avançadas de uma Copa do Mundo ou de uma Eurocopa —
ainda que disputada sob a égide de controles remotos.
A cerveja tcheca é a melhor do mundo, ainda que o
apologista da ioga, mestre Carica, discorde em seus momentos mais efusivos nas
cadeiras aconchegantes dos pubs azuis. Não se trata de opinião: é um fato
estabelecido que qualquer pessoa que tenha visitado o país — como nosso
amadíssimo Popera — e entrado num pub em Praga confirmaria sem hesitação. E
mencionar isso num texto sobre Copa do Mundo não é desvio de tema, porque a
cultura da cerveja tcheca diz algo fundamental sobre o povo que a produz: há
uma seriedade absoluta em relação às coisas que importam, uma recusa em fazer
pela metade aquilo que se decidiu fazer com cuidado. Os tchecos fazem cerveja
com essa seriedade há séculos, com resultados que o mundo inteiro tenta imitar.
A seleção de 2026 joga com um princípio parecido:
seriedade aplicada, sem exibicionismo desnecessário, sem floreios que não
sirvam a um propósito real. É um futebol menos preocupado em chamar atenção por
comemorações efusivas e mais interessado em sobreviver, competir e, se
possível, vencer. Algo que vai muito além da estética — embora a memória ainda
permita lembrar, com a devida reverência, aquelas cabeçadas precisas de um
careca decisivo diante da tremedeira laranja, no quarto do primo que preferiu a
distância quando foi confrontado com a realidade implacável da quarta década de
vida.
O país que, por séculos, muitos chamaram de Boêmia
— antes de integrar o Império Austro-Húngaro, depois a Tchecoslováquia e, por
fim, separar-se pacificamente da Eslováquia em 1993, no chamado Divórcio de
Veludo, nome que nada tem a ver com a calça que o blogueiro do De Letra odiava
possuir — carrega dentro de si uma tradição cultural que vai muito além do
futebol, mas que ajuda a explicar bastante sobre a maneira como os tchecos
jogam.
Bedřich Smetana compôs Má vlast, Minha Pátria, que é uma das
obras mais emocionalmente complexas de toda a música clássica europeia. Há algo
na maneira como aquela música oscila entre a grandiosidade e a melancolia que
ressoa perfeitamente com a maneira como a seleção tcheca aborda um torneio: com
a consciência de que pode ser grandioso, mas com a memória de que as coisas
também podem virar pelo avesso sem muito aviso.
Antonín Panenka inventou o pênalti mais famoso da
história, em 1976: aquela cavada delicada no centro do gol que deu à
Tchecoslováquia o título europeu e proporcionaria o bi em 2008 (?). Desde
então, carrega o seu nome em todas as línguas do futebol
mundial. Mencionar Panenka aqui é obrigatório porque, nas oitavas de
final da Copa, a Tchéquia irá para os pênaltis e o quinto cobrador fará
exatamente uma “panenka”, com aquela audácia tranquila de quem é nascido em
Praga para entender completamente. A bola entrará no centro das redes enquanto
o goleiro adversário já terá mergulhado para o canto; a torcida tcheca, no
estádio e em todos os pubs do país, viverá aquele silêncio de dois segundos que
precede um grito muito maior do que o tempo que o separa da eternidade.
Nas quartas, a Tchéquia encontrará um adversário
com mais estrelas, mais dinheiro nos clubes representados, mais histórico de
Copa do Mundo e aquela confiança de quem nem precisou conferir duas vezes quem
estava do outro lado para se sentir em posição confortável. Será um daqueles
jogos em que o futebol decide que ser belo independentemente do resultado, em
que cada posse de bola parece ter peso e cada troca de passes carrega algo que
vai além da tática. A Tchéquia jogará quarenta e cinco minutos que, daqui a
vinte anos, aparecerão em documentários como exemplo de como uma equipe menor
pode obrigar uma equipe maior a disputar os quarenta e cinco minutos seguintes
com um respeito que não estava nos planos originais de ninguém.
A Tchéquia perderá nas quartas de final, mas
perderá de uma maneira qualitativamente diferente de simplesmente perder. Cairá
depois de mostrar que era boa o bastante para incomodar quem chegou até ali
achando que não precisaria suar tanto. Há uma dignidade específica nesse tipo
de derrota, e os tchecos parecem entendê-la bem: são um povo que atravessou a
ocupação nazista, a dominação soviética e a dissolução de um país inteiro,
chegando do outro lado com a identidade intacta — na cerveja, na cultura e, de
vez em quando, no futebol.
O legado dessa Copa para a Tchéquia não será fácil
de medir em estatísticas. Elas não capturam adequadamente o que acontece quando
um país que passou anos explicando que havia mudado de nome para algo mais
simples de caber numa camiseta aparece em uma Copa do Mundo e faz o mundo
inteiro aprender não apenas esse nome, mas também alguns sobrenomes
complicadíssimos de jogadores que, de repente, todos querem pronunciar
corretamente. Koller era fácil. E essa é uma forma muito particular de respeito
que o futebol oferece — talvez a única plataforma cultural capaz de espalhar
reconhecimento com tanta velocidade e tamanha abrangência geográfica.
A Boêmia histórica — aquela região que ajudou a dar
ao mundo o adjetivo “boêmio”, usado para descrever quem vive fora das
convenções com elegância e sem pedir desculpas — estará presente na seleção de
2026 de uma maneira que talvez ninguém articule explicitamente, mas que
qualquer pessoa atenta conseguirá perceber. Estará naquele jeito de jogar que
não é previsível o bastante para ser contido, nem caótico o suficiente para ser
ignorado; naquele espaço intermediário onde as coisas mais interessantes costumam
acontecer quando um time decide ser fiel a si mesmo, independentemente do que
os adversários planejem fazer a respeito.
A Tchéquia voltará. Voltará com um nome que o mundo
já aprendeu a escrever, com jogadores cujos sobrenomes os locutores acabarão
aprendendo a pronunciar de maneira razoável. Voltará com aquela seriedade de
quem sabe que as coisas boas levam o tempo que precisam levar e não melhoram
simplesmente porque alguém decidiu apressá-las. E voltará com a memória de 2026
funcionando como aquele tipo de combustível que não aparece no tanque, mas está
lá, presente em cada decisão que uma equipe toma quando o jogo fica difícil e a
única opção real é continuar sendo o que se é — com a convicção de que isso
basta para construir algo digno de ser lembrado. Como ainda são lembrados 1976
e 2008 (?), mesmo que os livros insistam em discordar.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Luís Felipe Canto (PERU)
Advogado e amante de times
aplicados taticamente, que conseguem se defender dos tecnicamente superiores e
surpreendê-los







