O Legado Dá Jogo
Um estádio pode nascer para desaparecer?
Em 2022, o Qatar apresentou ao mundo o Estádio 974, feito com os 974
contêineres que inspiraram seu nome e pensado como uma construção desmontável.
Era a metáfora perfeita de uma Copa erguida para impressionar: moderna, cara,
milimetricamente planejada — e, em alguns pontos, passageira.
Mas existe uma coisa que não se desmonta depois do
apito final: o legado. A Copa de 2022 deixou no Qatar uma imagem contraditória.
Fora de campo, o país virou centro do planeta: estádios futuristas, metrôs
modernos, tecnologia de ponta, organização invejável e a final inesquecível
entre Messi e Mbappé, em Lusail. Dentro de campo, porém, a seleção anfitriã foi
pequena diante do próprio palco: três jogos, três derrotas e a sensação de que
o país havia construído uma festa maior do que seu futebol. Por isso, 2026 tem
outro peso.
O Qatar não chega mais carregado pela condição de
anfitrião. Chega classificado pelo campo. A vaga conquistada contra os Emirados
Árabes, com vitória por 2 a 1, foi mais do que um resultado: foi uma resposta.
Depois de ser lembrado pela eliminação precoce, o Qatar agora tenta transformar
a sede de 2022 em sede de vitória. O desafio é provar que o projeto iniciado
antes da Copa em casa não terminou na arquitetura. Que as academias, os
torneios, os investimentos e a experiência acumulada também formaram uma seleção
capaz de competir. Não basta ter mostrado estádios; agora é preciso mostrar
futebol.
A equipe chega sob o comando de Julen Lopetegui,
técnico espanhol que conhece bem a pressão de uma Copa: em 2018, foi demitido
da Espanha às vésperas do Mundial após acertar com o Real Madrid. Agora, no
Qatar, tem a missão de dar mais competitividade a uma seleção que aprendeu a
vencer na Ásia — é a atual bicampeã continental —, mas ainda busca respeito
mundial.
O time tem nomes experientes, como Hassan Al
Haydos, Pedro Miguel e Ahmed Alaaeldin. No gol, Meshaal Barsham é uma das
figuras importantes da geração vitoriosa. No ataque, Almoez Ali segue como
referência de área e presença física. Mas o craque é Akram Afif. Ele é o
jogador capaz de fazer o Qatar parecer mais do que organizado: pode fazê-lo
parecer perigoso. Criativo, decisivo, forte na bola parada e capaz de
transformar um lance comum em chance clara de gol, Afif é o rosto técnico dessa
tentativa de renascimento.
Em 2022, o Qatar mostrou que sabia organizar uma
Copa.
Em 2026, precisa mostrar que também sabe jogar uma.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
MARCELO MARTENSEN (MILAN)
publicitário e criador do "De Letra na Copa"
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