A Nova Marcha dos Elefantes
A Costa do Marfim, conhecida como os Elefantes, é
uma das seleções mais fascinantes do futebol africano. Carrega a memória de uma
geração dourada, mas chega ao ciclo de 2026 com outra identidade e um novo
fôlego: menos dependente de nomes históricos, mais organizada e
confiante após a conquista da Copa Africana de Nações de 2024.
A estreia marfinense em Copas aconteceu em 2006, na
Alemanha, justamente com um elenco que impunha respeito. Drogba, os irmãos
Touré, Dindane e Kalou formavam uma equipe talentosa, de dar inveja.
Entretanto, o sorteio foi cruel: Argentina, Holanda e Sérvia e Montenegro.
Apesar de uma memorável vitória por 3 a 2 sobre os sérvios e um empate épico
por 2 a 2 com os argentinos, a equipe foi eliminada ainda na fase de grupos. Em
2010, na África do Sul, o desafio não foi menor no grupo com Brasil, Portugal e
Coreia do Norte — foi novamente eliminada. Em 2014, parecia pronta para enfim
brilhar, com o já veterano Drogba em campo e jogadores da elite do futebol
europeu, mas a derrota para a Grécia no fim do terceiro jogo derrubou novamente
os Elefantes na fase de grupos. Depois disso, a seleção ficou fora das Copas de
2018 e 2022. Foi um balde de água fria na geração dourada, que havia chegado ao
fim sem entregar tudo o que prometia, o que acelerou o processo de renovação.
O ciclo pós-geração dourada foi marcado por incertezas, trocas de treinadores e resultados irregulares. A reconstrução parecia não encontrar rumo até que a Costa do Marfim encontrou em Emerse Faé um técnico capaz de reorganizar o elenco e valorizar os novos talentos. O ponto de virada veio na Copa Africana de Nações de 2024, disputada em casa. Em um torneio que começou perto do desastre, com a seleção-sede à beira da eliminação ainda na fase de grupos, a equipe se reinventou no limite. Derrubou adversários de peso, cresceu jogo a jogo e se sagrou campeã continental pela terceira vez, vencendo a tradicional Nigéria na final. Mais do que um troféu, o título foi uma resposta. A prova de que a Costa do Marfim voltava a ter uma seleção competitiva, coesa e capaz de resistir à pressão quando o jogo exige mais do que talento.
Nas eliminatórias para 2026, a Costa do Marfim
mostrou a organização que faltou nos ciclos anteriores. Embalada pelo título da
Copa Africana de Nações, manteve uma base estável, cresceu sob o comando de
Emerse Faé e aproveitou o novo formato do Mundial, com nove vagas para a
África, para confirmar seu retorno ao maior palco do futebol.
A espinha dorsal da Costa do Marfim mistura
experiência, força física e juventude. Sébastien Haller, símbolo de superação
após vencer um câncer nos testículos, é a principal referência ofensiva. No
meio, Franck Kessié segue sendo uma peça de enorme importância pela energia e
qualidade técnica, enquanto Simon Adingra oferece velocidade, drible e
capacidade de decisão, e Yahia Fofana dá segurança entre as traves.
A seleção amadureceu sem romper com sua hierarquia,
sinal de uma transição bem conduzida. Faé prefere uma base mais enxuta e
entrosada a uma lista cheia de apostas, escolha que pode pesar a favor em uma
Copa de tiro curto. Nomes como Karim Konaté, Odilon Kossounou e
Ibrahim Sangaré dão peso internacional ao elenco. Com Emerse Faé, os Elefantes
parecem menos dependentes de lampejos individuais e mais sustentados por um
grupo que já sabe competir junto.
No grupo com Alemanha, Equador e Curaçao, a
classificação é possível — mas não automática. Se Adingra, Haller, Kessié e
companhia encontrarem espaço, os marfinenses podem deixar de ser apenas uma
ameaça simpática para se tornarem o incômodo que ninguém quer cruzar. Porque elefante, quando
ganha embalo, não pede licença: atravessa.
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
João Ferreira
(Djandjas)
imigrante
em Dublin e amante do futebol raiz, desde a Copa de 1986
Para ler sobre a Alemanha, de Loes, clique aqui
Para ler sobre Curaçao, de Fetu, clique aqui
Para ler sobre o Equador, de Xico, clique aqui





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