E veja o leitor a delicadeza da ironia: justamente
a França, pátria de racionalistas, enciclopedistas, revolucionários e poetas,
tornou-se no futebol uma especialista na arte prática da sobrevivência.
Enquanto os românticos do esporte aguardam espetáculo, beleza e exuberância
estética, os franceses seguem vencendo partidas com certa frieza
administrativa, quase ministerial, como quem compreendeu há muito que o mundo
raramente recompensa os excessivamente apaixonados.
Mas não nos precipitemos. Há nesta equipe atual uma
camada mais profunda do que o simples pragmatismo. Existe nela certa tensão
moral e estética que lembra os próprios romances franceses do século XIX:
personagens elegantíssimos caminhando sobre um terreno permanentemente
instável. A França contemporânea, assim como sua seleção, parece construída
sobre delicado equilíbrio entre glória e inquietação.
Observe-se Mbappé, por exemplo. O rapaz possui a
velocidade dos grandes extremos modernos, mas há nele também alguma coisa de
personagem balzaquiano: ambicioso, brilhante, consciente da própria importância
e condenado a carregar expectativas que frequentemente ultrapassam as
possibilidades normais de um homem. A França deposita sobre seus ombros não
apenas gols, mas símbolos. Deseja que ele represente simultaneamente
modernidade, triunfo esportivo, integração social e permanência cultural.
Convenhamos: não é pequena bagagem para quem precisa ainda encontrar espaços
entre zagueiros adversários.
Ao redor dele gravitam jogadores de refinamento
notável. Olise movimenta-se com a despreocupação elegante daqueles homens que
improvisam até quando obedecem rigorosamente à lógica. Tchouaméni oferece
estabilidade quase burocrática ao meio-campo — e digo isto como elogio, afinal,
certos burocratas sustentam impérios melhor do que muitos poetas. Já a defesa
francesa continua revelando aquela velha vocação nacional para a força
organizada, mistura curiosa de disciplina militar e vaidade aristocrática.
Entretanto, o que realmente fascina na França
jamais esteve apenas nos indivíduos. Está no fato de que o país parece
condenado a viver em permanente estado de contradição. Produziu revoluções em
nome da igualdade e impérios fundados sobre hierarquias brutais; exaltou
direitos universais enquanto atravessava crises sociais intermináveis; cultivou
a beleza com fervor quase religioso ao mesmo tempo em que jamais deixou de
sentir certa atração secreta pelo caos. E a seleção francesa herdou
precisamente isso: a capacidade de parecer sólida e instável simultaneamente.
Não surpreende, portanto, que a França seja tão
irresistivelmente literária. Algumas nações parecem ter encontrado uma
linguagem própria para narrar-se. A Alemanha frequentemente recorda uma grande
partitura, onde a beleza emerge da ordem e cada nota responde a uma arquitetura
invisível. A Inglaterra lembra certos segredos de Estado que atravessam
gerações: guarda com zelo a memória de ter inventado o futebol, embora por
vezes pareça esquecê-la nos momentos decisivos. A França, não. Assemelha-se
mais a esses grandes livros cheios de inteligência, vaidade, sensualidade e
crise moral, nos quais ninguém está inteiramente em paz consigo mesmo, embora
todos sustentem admiravelmente a aparência de controle.
E é curioso notar que essa imperfeição preserve sua
força. As seleções excessivamente resolvidas tendem a envelhecer
espiritualmente. A França continua perigosa. Inquieta. Há nela sempre algo
prestes a explodir ou a florescer.
Chegou forte à Copa de 2026, sem dúvida. Possui
elenco vasto, experiência recente de títulos, profundidade tática e é o jogador
mais decisivo do futebol contemporâneo. Mas suspeito que sua verdadeira
singularidade permaneça em outro lugar. A França continua fascinando porque
joga como sua própria literatura escreveu durante séculos: convencida da
grandeza humana, ainda que intimamente consciente de suas fraturas.
Tal é o destino das grandes contradições: jamais
encontram a paz, mas raramente deixam de produzir beleza.
— Nem a tempestade conseguiu apagar o azul da
França.
Na Filadélfia, a partida contra o Iraque precisou
ser interrompida por mais de duas horas após um alerta de raios. Torcedores
deixaram as arquibancadas, o gramado desapareceu sob a chuva e, por alguns
instantes, o futebol pareceu render-se à força indomável do céu. Quando o jogo
recomeçou, porém, a França retomou também a narrativa. Mbappé marcou duas
vezes, Dembélé completou o placar, e o 3 a 0 confirmou aquilo que o ensaio
inteiro procurou sugerir: esta seleção continua habitando o delicado território
onde convivem ordem e inquietação, controle e imprevisibilidade. Nem mesmo a
tempestade foi capaz de resolver essa contradição. Apenas a iluminou por alguns
minutos: mesmo quando o céu desaba, a França ainda consegue encontrar uma forma
elegante de seguir adiante.
Eduardo
Canto (DUDA)
Enfant de
la Poésie
Poeta,
santista e aficionado pelo football inglês







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