Ilha de Gigantes
Entre 1799 e 1812, Napoleão Bonaparte expandiu o Império Francês ao dominar grande parte da Europa ocidental e central. Ele reorganizou o mapa político ao anexar territórios como a Bélgica, os Países Baixos e o norte da Itália. Além disso, derrotou potências absolutistas e impôs sua hegemonia da Península Ibérica à Polônia. Para muitos, era o homem impossível de conter, o general que, por onde passava, deixava a impressão de que a história obedecia aos seus passos.
Entretanto, houve um lugar que não se curvou à sua vontade. Em 1º de janeiro de 1804, após anos de guerra na colônia francesa de São Domingos, o Haiti declarou sua independência. Os revolucionários derrotaram o exército de Napoleão usando táticas de guerrilha e explorando o desgaste causado pelas doenças tropicais. Cidades e plantações foram queimadas para cortar o abastecimento francês. Na Batalha de Vertières, as tropas revolucionárias negras venceram definitivamente os invasores. Era a primeira grande derrota militar de Napoleão fora da Europa. Nascia ali a primeira nação independente da América Latina e do Caribe, criada por uma revolta de escravizados vitoriosa.
Mais de um século e meio depois, o Haiti voltou a
encarar uma potência estrangeira, agora sem exércitos nem canhões pela frente.
O campo era outro: a Copa do Mundo de 1974. Diante da Itália, uma das escolas
mais tradicionais do futebol, a pequena seleção caribenha viveu seu instante de
eternidade quando Emmanuel Sanon arrancou em direção ao gol, driblou Dino Zoff e
encerrou uma invencibilidade lendária do italiano — 1142 minutos, a maior de um
goleiro por seleções na história do futebol. O Haiti perderia aquele jogo — e também
os outros dois, para Polônia e Argentina —, mas deixaria sua marca: por alguns
segundos, outra vez, o impossível pareceu se curvar diante da ilha.
Cinquenta e dois anos depois, o Haiti voltou a
encontrar o caminho da Copa, e, como quase tudo em sua história, nada veio sem
tensão. A classificação para 2026 foi uma travessia nervosa, feita longe de
casa, porque a grave crise social e o domínio de gangues armadas em Porto
Príncipe impediram a seleção de atuar no próprio país. Até o Stade Sylvio
Cator, estádio nacional haitiano, acabou tomado pelo caos, obrigando o time a
mandar seus jogos no exílio, em Willemstad, Curaçao.
Sem o calor de sua torcida, o Haiti precisou tirar
combustível das vitórias do passado para superar a favoritíssima Costa Rica,
além de Honduras e Nicarágua. A vaga direta veio no dia 18 de novembro de 2025
— coincidentemente, a data em que se celebra o Dia da Batalha de Vertières, o
triunfo definitivo contra as tropas napoleônicas.
Nesse cenário, o trabalho de Sébastien Migné ganhou
ainda mais peso. Contratado em março de 2024, o treinador francês montou uma
equipe competitiva sem sequer poder pisar no Haiti, por causa da situação de
segurança no país. O projeto passou pelo mapeamento de atletas da enorme
diáspora haitiana espalhada pelo mundo, reunindo veteranos consagrados, como o
goleiro Johny Placide, do Bastia, e nomes de alto nível técnico que atuam na
Europa, caso do meia Jean-Ricner Bellegarde, do Wolverhampton.
E o que esperar do Haiti no Grupo C da Copa do
Mundo? A estreia será contra a Escócia, depois virá o Brasil e, por fim,
Marrocos, justamente a seleção africana que ensinou o mundo a respeitar as
zebras bem organizadas. Os haitianos não entram como favoritos a uma das vagas,
nem há motivo para fingir o contrário. Mas, quando se olha para tudo o que esse
povo já atravessou, duvidar do Haiti parece sempre uma imprudência.
A Copa talvez seja breve e não entregue mais do que
alguns bons minutos de resistência. Ainda assim, para uma seleção que voltou ao
Mundial sem poder jogar em casa, cada partida já carrega algo maior do que a
tabela.
Porque o Haiti é um país que, mesmo ferido, está
acostumado a encontrar, no meio do caos, um jeito de vencer suas batalhas.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário,
criador do De Letra na Copa
e torcedor
de Les Grenadiers*
* Les Grenadiers é o apelido oficial da Seleção Haitiana de Futebol. O termo faz
referência aos granadeiros, que eram tropas de elite formadas por
soldados de grande coragem e força. Para o Haiti, o nome carrega uma ideia que
atravessa toda a sua história: resistência.






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