Por una Alma
Há seleções que jogam futebol. E há seleções que
parecem carregar uma espécie de destino cultural. A Argentina pertence a essa
segunda categoria. Assistir à atual seleção argentina é, de certa forma,
assistir ao próprio imaginário argentino tentando sobreviver ao tempo: o drama,
a elegância melancólica, a tensão permanente entre genialidade e ruína,
entre orgulho nacional e abismo emocional.
A Argentina não joga como uma máquina. Joga como um
tango. E isso não é mero romantismo sul-americano. O tango sempre foi uma arte
da tensão contida: passos calculados escondendo desespero, elegância camuflando
feridas, sensualidade convivendo com tragédia. Astor Piazzolla captou isso ao
modernizar o tango sem destruir sua alma melancólica. Carlos Gardel transformou
essa mesma melancolia em identidade nacional. Scaloni fez algo semelhante no
futebol: modernizou a Argentina sem amputar sua essência emocional.
A seleção campeã do mundo em 2022 poderia
facilmente ter se tornado apenas um monumento nostálgico erguido ao redor de
Lionel Messi. Muitas campeãs sucumbem exatamente a isso: transformam-se em
procissões lentas de veteranos protegendo memórias antigas. Mas esta Argentina
parece ter encontrado algo raro na história do futebol sul-americano:
continuidade competitiva sem perder identidade estética.
Messi continua sendo o centro gravitacional — e um
dos maiores gênios universais da história do futebol desde Pelé. Não apenas
pela técnica, mas porque reorganizou durante quase duas décadas a própria
percepção do que um jogador pode ser dentro de campo. Messi não jogava apenas
partidas; ele alterava geometrias, ritmos e probabilidades. E o mais
impressionante na Argentina atual é isto: a seleção parece ter aprendido a
existir sem depender inteiramente do milagre constante de seu camisa 10. Isso
diz muito sobre Scaloni.
Durante décadas, a Argentina confundiu intensidade
emocional com desorganização tática. Era comum ver seleções argentinas
brilhantes tecnicamente, mas reféns do próprio caos psicológico. A atual
geração é diferente. Cristian Romero oferece agressividade controlada sem
transformar o sistema defensivo num espetáculo de impulsividade. Enzo Fernández
dá fluidez moderna à saída de bola. MacAllister surge como o símbolo mais
sofisticado desta nova Argentina: um meio-campista de inteligência silenciosa,
quase europeia em certos momentos, mas sem perder a malícia competitiva típica
do futebol argentino. Julián Álvarez representa algo extremamente importante:
mobilidade coletiva acima do estrelismo individual.
Sobre a seleção argentina pairou durante anos uma
sombra peculiar: a busca incessante por um novo Maradona. Messi sofreu isso
como poucos atletas na história sofreram o peso simbólico de uma comparação
nacional. O título no Qatar libertou não apenas Messi, mas a própria Argentina.
Pela primeira vez em muito tempo, a seleção parece jogar menos angustiada
diante de sua própria mitologia.
Ainda assim, esta equipe conserva um dos traços
mais reconhecíveis da alma portenha: a sensação de que beleza e sofrimento
caminham juntos. A Argentina raramente vence de maneira burocrática. Mesmo
organizada, continua carregando certa dramaticidade emocional que a aproxima
mais de um tango de Piazzolla do que de uma grande partitura alemã. Há tensão,
há provocação, há orgulho ferido transformado em combustível competitivo. E é
dessa tensão que nasce parte de sua força para 2026.
Tecnicamente, a campeã do mundo continua
fortíssima. O elenco envelheceu menos do que se imaginava após o tri. A
estrutura coletiva permanece sólida. Scaloni conseguiu algo raríssimo em
seleções nacionais: criar continuidade emocional e tática ao mesmo tempo. E
enquanto muitas potências europeias ainda parecem procurar uma identidade
clara, a Argentina entra no próximo ciclo mundialista sabendo exatamente o que
é.
Mas existe também a questão inevitável: o tempo.
Messi chegará à Copa de 2026 já distante fisicamente do jogador devastador de
Barcelona. E isso transforma a Argentina numa experiência fascinante. Pela
primeira vez desde 2006, o país precisará descobrir até que ponto aprendeu
realmente a sobreviver sem depender integralmente de um gênio absoluto.
No fundo, esta Argentina campeã compreendeu algo
que Piazzolla entendia perfeitamente sobre arte e identidade: tradição só
permanece viva quando encontra coragem para se reinventar sem perder a própria
alma.
Como os grandes tangos, continua deslizando entre a nostalgia e o futuro — sem pertencer inteiramente a nenhum dos dois.
ESQUEMA TÁTICO (clique para
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HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Eduardo
Canto (DUDA)
Por las
Manos de la Poesía
Poeta,
santista e aficionado pelo fútbol argentino





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