Valsa em Alemão
Pois a valsa voltou ao grande palco em 2026, e a
ironia é que ela voltou tocada em alemão. Quem reconstruiu a orquestra
austríaca não foi um vienense romântico, mas Ralf Rangnick, o treinador alemão
de 67 anos, apontado como padrinho do gegenpressing e referência global em
pressão alta, formado nas passagens por Stuttgart, Hoffenheim, Schalke e pela
escola Red Bull de Salzburg e Leipzig.
Desde que assumiu a seleção em 2022, Rangnick deu à
Áustria uma identidade clara: pressão imediata, recuperação rápida e transição
vertical. Dos vinte e seis convocados, catorze atuam na Bundesliga, e a espinha
dorsal tem forte influência da escola Red Bull, com nomes como Baumgartner e
Seiwald. Sindelar talvez reconhecesse o talento desta geração, mas estranharia
o método: onde antes havia toque e improviso, agora há gatilhos de marcação,
intensidade e uma valsa regida com batuta alemã.
A Áustria é um time de pressão e mobilidade.
Sabitzer é o primeiro violino, líder técnico e eventual falso nove; Laimer
encarna o motor do gegenpressing; Baumgartner ataca espaços, Seiwald dá
contenção e Chukwuemeka acrescenta a curiosidade de quem nasceu na Áustria —
cresceu na base inglesa e escolheu vestir o vermelho e branco dos pais. O meio
é o setor mais forte da seleção e a melhor tradução do projeto de Rangnick.
Quando o mecanismo funciona, é sufocante. Os 5 a 1 sobre Gana, em março, em
Viena, foi o cartão de visita mais recente: pressão alta, saída adversária
engolida e gols espalhados por vários setores. Antes de tudo, esta Áustria é
uma orquestra de meio-campo.
O problema é que toda orquestra precisa de um
tenor, e esse é justamente o naipe que falta. Rangnick leva apenas três
centroavantes de ofício, nenhum em seu auge: Arnautović, recordista histórico da seleção, mas já aos
37 anos; Gregoritsch, regular, porém sem grande poder de fogo; e Kalajdžić, gigante de quase dois metros que raramente
atravessa uma temporada inteira sem se machucar. Por isso, o falso nove não é luxo,
mas necessidade. E ainda há a sombra defensiva no rosto mais ilustre do
elenco: David Alaba.
Capitão e maior referência recente da Áustria,
Alaba chega à Copa com poucos minutos nas pernas, contrato encerrado no Real
Madrid e mais liderança do que ritmo competitivo. Aos 33 anos, ainda oferece
versatilidade para jogar na zaga, na lateral ou na saída de bola, mas
seu físico inspira cuidados em uma equipe que depende de pressão alta. Lienhart e Danso dão lastro ao setor, embora ninguém ali tenha a estatura do capitão em
seu melhor dia.
Quanto ao palco, sejamos diretos: a Áustria pegou o
grupo mais fácil da Copa. A Argentina é favorita, e a briga austríaca passa
pela segunda vaga contra Jordânia, estreante em Copas, e Argélia, seleção
perigosa, mas irregular. Pela força do elenco e pela identidade mais clara, a
Áustria larga na frente nessa disputa, com estreia contra os jordanianos, em
Santa Clara, duelo pesado com os argentinos, em Dallas, e decisão provável
diante dos argelinos, em Kansas City.
É possível ir além no mata-mata, mas com ressalvas:
o gegenpressing de Rangnick cobra caro fisicamente, deixa espaço nas costas e
pode sofrer em uma Copa compacta. Ainda assim, a Euro de 2024 serve de
referência, já que a Áustria liderou um grupo com França e Holanda e só caiu
nas oitavas para a Turquia, jogando bem. No novo formato, avançar é obrigação;
as oitavas são o alvo realista, e as quartas dependem do chaveamento.
A valsa vienense voltou ao mundo depois de quase 30
anos de silêncio. Que importa se, desta vez, ela é regida em alemão. O
importante é que voltou a tocar.
ESQUEMA TÁTICO (clique para
ampliar)
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Luiz
Paulo Aranha (LOES)
sócio e
gestor da MOAT Capital e são-paulino
Para ler
sobre a Argentina, de Duda, clique
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Para ler
sobre a Argélia, de Popera, clique aqui







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