sexta-feira, 5 de junho de 2026

Copa 2026 • Grupo J • Áustria

Valsa em Alemão



Houve um tempo em que a Áustria fazia um dos futebóis mais admirados da Europa. Nos anos 1930, o Wunderteam de Hugo Meisl encantava o continente com toques curtos, movimentação e tinha como maestro Matthias Sindelar, o “Mozart do futebol”, tão franzino e elegante que o apelidaram de “Homem de Papel”. Por um breve período, o som vienense foi referência no continente. Aí vieram a guerra, o exílio, o esquecimento — a Áustria sumiu. Foram 28 anos sem sequer pisar numa Copa, desde 1998, quando caiu na fase de grupos na França. O fantasma de Sindelar foi se apagando, e com ele a ideia de que aquele país pequeno um dia fizera arte com os pés.

 



 

















Pois a valsa voltou ao grande palco em 2026, e a ironia é que ela voltou tocada em alemão. Quem reconstruiu a orquestra austríaca não foi um vienense romântico, mas Ralf Rangnick, o treinador alemão de 67 anos, apontado como padrinho do gegenpressing e referência global em pressão alta, formado nas passagens por Stuttgart, Hoffenheim, Schalke e pela escola Red Bull de Salzburg e Leipzig.

Desde que assumiu a seleção em 2022, Rangnick deu à Áustria uma identidade clara: pressão imediata, recuperação rápida e transição vertical. Dos vinte e seis convocados, catorze atuam na Bundesliga, e a espinha dorsal tem forte influência da escola Red Bull, com nomes como Baumgartner e Seiwald. Sindelar talvez reconhecesse o talento desta geração, mas estranharia o método: onde antes havia toque e improviso, agora há gatilhos de marcação, intensidade e uma valsa regida com batuta alemã.

A Áustria é um time de pressão e mobilidade. Sabitzer é o primeiro violino, líder técnico e eventual falso nove; Laimer encarna o motor do gegenpressing; Baumgartner ataca espaços, Seiwald dá contenção e Chukwuemeka acrescenta a curiosidade de quem nasceu na Áustria — cresceu na base inglesa e escolheu vestir o vermelho e branco dos pais. O meio é o setor mais forte da seleção e a melhor tradução do projeto de Rangnick. Quando o mecanismo funciona, é sufocante. Os 5 a 1 sobre Gana, em março, em Viena, foi o cartão de visita mais recente: pressão alta, saída adversária engolida e gols espalhados por vários setores. Antes de tudo, esta Áustria é uma orquestra de meio-campo.

 



 









O problema é que toda orquestra precisa de um tenor, e esse é justamente o naipe que falta. Rangnick leva apenas três centroavantes de ofício, nenhum em seu auge: Arnautović, recordista histórico da seleção, mas já aos 37 anos; Gregoritsch, regular, porém sem grande poder de fogo; e Kalajdžić, gigante de quase dois metros que raramente atravessa uma temporada inteira sem se machucar. Por isso, o falso nove não é luxo, mas necessidade. E ainda há a sombra defensiva no rosto mais ilustre do elenco: David Alaba.

Capitão e maior referência recente da Áustria, Alaba chega à Copa com poucos minutos nas pernas, contrato encerrado no Real Madrid e mais liderança do que ritmo competitivo. Aos 33 anos, ainda oferece versatilidade para jogar na zaga, na lateral ou na saída de bola, mas seu físico inspira cuidados em uma equipe que depende de pressão alta. Lienhart e Danso dão lastro ao setor, embora ninguém ali tenha a estatura do capitão em seu melhor dia.

 



 











Quanto ao palco, sejamos diretos: a Áustria pegou o grupo mais fácil da Copa. A Argentina é favorita, e a briga austríaca passa pela segunda vaga contra Jordânia, estreante em Copas, e Argélia, seleção perigosa, mas irregular. Pela força do elenco e pela identidade mais clara, a Áustria larga na frente nessa disputa, com estreia contra os jordanianos, em Santa Clara, duelo pesado com os argentinos, em Dallas, e decisão provável diante dos argelinos, em Kansas City.

É possível ir além no mata-mata, mas com ressalvas: o gegenpressing de Rangnick cobra caro fisicamente, deixa espaço nas costas e pode sofrer em uma Copa compacta. Ainda assim, a Euro de 2024 serve de referência, já que a Áustria liderou um grupo com França e Holanda e só caiu nas oitavas para a Turquia, jogando bem. No novo formato, avançar é obrigação; as oitavas são o alvo realista, e as quartas dependem do chaveamento.

 



 

 










A valsa vienense voltou ao mundo depois de quase 30 anos de silêncio. Que importa se, desta vez, ela é regida em alemão. O importante é que voltou a tocar.

 



 














ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)









HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)



 

Luiz Paulo Aranha (LOES)

sócio e gestor da MOAT Capital e são-paulino



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