segunda-feira, 8 de junho de 2026

Copa 2026 • Grupo K • Colômbia

Síndrome de Patriota



— Relaxe, James. Respire fundo. Deixe o peso dos euros, dos dólares e do banco de reservas derreter. Quando eu contar até três, você não estará mais em São Paulo, Madrid, Doha ou Liverpool. Um, dois, três... Onde você está?

— Eu... eu vejo amarelo. Muito amarelo. Um mar de camisas amarelas. O ar tem cheiro de café e cumbia. Sinto o chão firme sob minhas travas. Minha perna esquerda não pesa; ela flutua. Sou um rei.

— Excelente. Agora, mude o cenário. Volte para o cotidiano do clube. O que você sente?

— Um frio na espinha. O cronômetro do treino parece um castigo. Olho para o treinador e só vejo um burocrata querendo que eu recomponha a lateral. Eles não entendem o conceito de um diez. Pedem suor onde eu quero entregar poesia. Minha panturrilha... Ah, minha panturrilha começa a fisgar só de olhar para a neblina do CT.



 












O divã do Dr. Sigmund do futebol testemunhava o diagnóstico de um dos maiores mistérios da bola contemporânea: James Rodríguez, o homem de duas almas, buscava respostas para sua própria "bipolaridade futebolística". Como pode o mesmo jogador que arrasta os pés com uma apatia quase protocolar por onde passa em nível de clubes, transformar-se no herói hercúleo, no maestro intocável e no pulmão incansável assim que veste a camisa da seleção da Colômbia?

Na última Copa América, vimos a versão clássica: James, o regente absoluto, deixando adversários tontos, distribuindo assistências com a precisão de um cirurgião e correndo como um garoto estreante. Corta para o cotidiano dos clubes, e o que temos é um fantasma de luxo, um mistério clínico que intriga comissões técnicas e irrita torcidas inteiras. James não sofre de falta de talento; ele está diagnosticado, na verdade, com a Síndrome de Patriota. O combustível dele não é o bônus em euro, é o hino nacional.

Essa dupla personalidade cafetera, convenhamos, não é exclusividade do nosso camisa 10. A Colômbia é especialista em nos fazer deitar no divã. O que dizer de Luis Díaz, que às vezes parece carregar o piano sozinho na frente, oscilando entre o delírio genial e o isolamento tático? Ou de uma defesa que vai do paredão intransponível à pane do sistema em um piscar de olhos?

 



 











Agora, com as malas prontas para a Copa do Mundo, a seleção colombiana cai em um grupo que promete testar todos os nossos níveis de ansiedade, especialmente no confronto ante os nostálgicos pessimistas lusitanos, que promete ser um dos maiores duelos psicológicos e futebolísticos da primeira fase.

Mas se o histórico dos Mundiais nos ensinou algo (desde o folclórico 5 a 0 sobre a Argentina nas eliminatórias de 93 até as campanhas avassaladoras que misturam danças contagiantes e drama grego — vide a “Higuitada” na Copa de 90 contra Camarões), é que os cafeteros adoram uma epopeia.

Se para os clubes James reserva a preguiça dos gênios incompreendidos, para o mundo das seleções mística, hipnotizada pelo som da animada e colorida torcida colombiana, ele é um dios com el diez. Haja coração para aguentar essa loucura.


 
















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HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)

 



Rafael Bauer (POPERA)

Professor Universitário e Doutorando da Área de Turismo,

Mestre em Filosofia e Finais da Libertadores pelo São Paulo,

Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais (Brasil e Rússia)



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