Síndrome de Patriota
— Eu... eu vejo amarelo. Muito amarelo. Um mar de
camisas amarelas. O ar tem cheiro de café e cumbia. Sinto o chão firme sob
minhas travas. Minha perna esquerda não pesa; ela flutua. Sou um rei.
— Excelente. Agora, mude o cenário. Volte para o
cotidiano do clube. O que você sente?
— Um frio na espinha. O cronômetro do treino parece um castigo. Olho para o treinador e só vejo um burocrata querendo que eu recomponha a lateral. Eles não entendem o conceito de um diez. Pedem suor onde eu quero entregar poesia. Minha panturrilha... Ah, minha panturrilha começa a fisgar só de olhar para a neblina do CT.
O divã do Dr. Sigmund do futebol testemunhava o
diagnóstico de um dos maiores mistérios da bola contemporânea: James Rodríguez,
o homem de duas almas, buscava respostas para sua própria "bipolaridade
futebolística". Como pode o mesmo jogador que arrasta os pés com uma
apatia quase protocolar por onde passa em nível de clubes, transformar-se no
herói hercúleo, no maestro intocável e no pulmão incansável assim que veste a
camisa da seleção da Colômbia?
Na última Copa América, vimos a versão clássica:
James, o regente absoluto, deixando adversários tontos, distribuindo
assistências com a precisão de um cirurgião e correndo como um garoto
estreante. Corta para o cotidiano dos clubes, e o que temos é um fantasma de
luxo, um mistério clínico que intriga comissões técnicas e irrita torcidas
inteiras. James não sofre de falta de talento; ele está diagnosticado, na
verdade, com a Síndrome de Patriota. O combustível dele não é o bônus em euro,
é o hino nacional.
Essa dupla personalidade cafetera, convenhamos, não
é exclusividade do nosso camisa 10. A Colômbia é especialista em nos fazer
deitar no divã. O que dizer de Luis Díaz, que às vezes parece carregar o piano
sozinho na frente, oscilando entre o delírio genial e o isolamento tático? Ou
de uma defesa que vai do paredão intransponível à pane do sistema em um piscar
de olhos?
Agora, com as malas prontas para a Copa do Mundo, a
seleção colombiana cai em um grupo que promete testar todos os nossos níveis de
ansiedade, especialmente no confronto ante os nostálgicos pessimistas
lusitanos, que promete ser um dos maiores duelos psicológicos e futebolísticos
da primeira fase.
Mas se o histórico dos Mundiais nos ensinou algo
(desde o folclórico 5 a 0 sobre a Argentina nas eliminatórias de 93 até as
campanhas avassaladoras que misturam danças contagiantes e drama grego — vide a
“Higuitada” na Copa de 90 contra Camarões), é que os cafeteros adoram uma
epopeia.
Se para os clubes James reserva a preguiça dos
gênios incompreendidos, para o mundo das seleções mística, hipnotizada pelo som
da animada e colorida torcida colombiana, ele é um dios com el diez.
Haja coração para aguentar
essa loucura.
ESQUEMA TÁTICO (clique para
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HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Rafael
Bauer (POPERA)
Professor Universitário e Doutorando da Área de Turismo,
Mestre em Filosofia e Finais da Libertadores pelo São Paulo,
Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais
(Brasil e Rússia)
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