Hexageros
Mais uma Copa do Mundo para a mais icônica, a mais
mítica, a mais simbólica das seleções. A única que sempre esteve presente — é
bom lembrar —, a que mais títulos ganhou — é sempre bom lembrar! — e aquela
que, historicamente, mais encantou o planeta no esporte mais popular do mundo.
Há tempos a Seleção Brasileira está desacreditada.
Lá se vão 24 anos sem levantar o caneco, com atuações constrangedoras nas
últimas Copas, mas não nos enganemos: o Brasil sempre chega aos Mundiais como
favorito e temido. Desta vez não será diferente. Após fracassos e tentativas
inférteis com técnicos da casa — e é bom frisar a absoluta obsolescência dos
treinadores locais nos últimos 20 anos —, a Amarelinha conta com um técnico de
mentalidade vencedora e campeão de quase tudo: o italiano Carlo Ancelotti — só falta
uma Copa do Mundo no currículo. E esta pode ser uma boa oportunidade, por que
não?
A novela Neymar terminou — terminou? — com sua
convocação, reacendendo amores e ódios em torno do craque do Peixe. Entre
críticas justas e implicâncias antigas, a questão técnica muitas vezes se
perde. Ainda assim, bem preparado e num mês inspirado, Neymar segue sendo o
brasileiro capaz de oferecer o cardápio mais elaborado de recursos diante dos
diferentes cenários de uma partida. Alguns jornalistas esportivos disseram estar
decepcionados com Ancelotti por “ter cedido às pressões” ao convocar Neymar. Só
o tempo dirá. A dúvida, como sempre, está na condição física: sua lesão não
estará totalmente curada antes da estreia contra o Marrocos.
Curiosamente, a bola do “ter cedido às pressões”
não foi levantada pelos formadores de opinião ao tentarem entender a convocação
dos rubro-negros Danilo, Alex Sandro, Paquetá e Léo Pereira, alguns deles sem
condições técnicas para estarem relacionados a uma Copa do Mundo. Ouve-se dizer
que são homens de confiança da comissão técnica; outros justificam as escolhas
pela baixa concorrência na posição. No entanto, não se especulou, em nenhum
momento, se o fato de atuarem no clube de maior proteção midiática e institucional
do país poderia ter pesado nesse processo.
Destes, apenas Lucas Paquetá apresenta condições
claras de ser selecionável. Os demais, principalmente Léo Pereira, demonstram
estar aquém de um desafio do porte deste Mundial. O corte do lateral Wesley às vésperas do torneio, sem a convocação de outro jogador da posição
em seu lugar, também levanta dúvidas. A vaga será ocupada por Danilo, reserva
em seu clube? Ou serão testados atletas inicialmente chamados para outras
funções, como Fabinho ou Ibañez?
E, nisso, o calcanhar de Aquiles de Ancelotti
aparece do meio para trás. Marquinhos e Gabriel Magalhães, finalistas da última
Liga dos Campeões, formam a dupla de zaga inquestionável, mas não há
substitutos no mesmo nível. Ainda assim, Marquinhos é um zagueiro lento, como
ficou demonstrado em seus últimos jogos antes da estreia: falhou no gol do
Arsenal e cometeu um erro bisonho no amistoso contra o Egito.
A safra de goleiros tampouco inspira confiança. A
lembrança de última hora do gremista Weverton, após falhas recentes de Bento e
Hugo Souza, comprova a insegurança no setor. Ainda assim, é difícil entender
novas oportunidades em Copas para um Alisson contestável e um Ederson em queda.
Seria possível encontrar nomes melhores na Série A, mas não há mais tempo para
especulações. O pouco número de convocados para o meio-campo também pode ser
motivo de apreensão.
O leitor poderá se perguntar se não há contradição
em tratar como favorita uma seleção possivelmente frágil no sistema defensivo.
A resposta está na qualidade absurda do meio para a frente, com um poder
ofensivo capaz de aquietar qualquer adversário. Também não se deve ignorar o
planejamento de longo prazo, simbolizado pela renovação de Ancelotti até 2030 e
pelas convocações de Endrick e Rayan, nomes que já miram a próxima Copa, embora
possam ajudar nesta.
Não pode ser menosprezado, por fim, que, embora a
construção de um ciclo bem trabalhado seja importante, Copa do Mundo é
essencialmente estar bem durante o torneio. Foi assim em 2002, ano do penta,
quando uma Seleção Brasileira de campanha frágil nas Eliminatórias sagrou-se
campeã do mundo com sobras. Foi assim também com a Argentina na última edição,
que começou sua trajetória com derrota diante da Arábia Saudita e terminou
levantando a taça.
Por isso, um time com tantos recursos ofensivos,
comandado por um técnico tarimbado e protegido por uma camisa que pesa na hora
H — H de hexa —, não pode ser desconsiderado como favorito ao título.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Adriano
Gomes (CARICA)
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no hexa
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