quinta-feira, 18 de junho de 2026

2026 | Da Piada à Glória

 







Em 1974, o Zaire entrou na Copa como um país usado pelo próprio regime como vitrine. Mobutu Sese Seko queria que os Leopardos mostrassem ao mundo a força de uma nação recém-renomeada, mas o torneio virou o retrato de um povo abandonado. Depois da derrota
por 2 a 0 para a Escócia, veio o 9 a 0 contra a Iugoslávia, uma goleada que expôs muito mais do que fragilidade em campo. Havia uma promessa de premiação não cumprida, coberta pela pressão política e baseada no medo. No último jogo, contra o Brasil, Mwepu Ilunga correu antes da cobrança de falta e chutou a bola para longe. Durante anos, o lance foi tratado como piada, mas, na verdade, carregava o desespero de um grupo que jogava sob ameaça.

O Zaire deixou aquela Copa sem nenhum ponto, sem marcar um gol sequer e com uma história pesada demais para o mundo àquela época. Depois, o próprio nome do país mudou. O regime caiu, o território voltou a ser República Democrática do Congo e a bola seguiu atravessando uma história marcada por guerras e saque de riquezas, reabrindo feridas principalmente no leste do país. A seleção, por muito tempo, ficou presa à memória daquele Mundial, pois a dificuldade de descobrir talentos e participar de Copas se tornou constante.

 



 










Cinquenta e dois anos depois, a República Democrática do Congo voltou à Copa, e já de cara para enfrentar Portugal, um dos postulantes ao título. Do outro lado havia uma camisa tão pesada quanto a história portuguesa recente: Cristiano Ronaldo, em sua sexta Copa, capitão de uma nau acostumada a navegar em grandes mares.

Aos 41 anos, CR7 entrou em campo ainda tratado como o farol de uma seleção portuguesa agora estrelada, mesmo pedindo outros ventos. Carregava a pose de conquistador e a sensação de que vencer era obrigação, desconhecendo que os congolenses não voltaram ao Mundial para fazer figuração. Diante da nau portuguesa, havia um leopardo disposto a subir no convés.

 



 












Portugal saiu na frente com a certeza de que a goleada era questão de tempo. Os jovens campeões do mundo em seus clubes ensaiaram a jogada pela esquerda, até que Pedro Neto, do Chelsea, cruzou na cabeça de João Neves, do PSG. A estreia parecia seguir o roteiro esperado para uma seleção candidata a ir longe, mas a República Democrática do Congo não atravessou cinquenta e dois anos para aceitar apenas um papel decorativo.

Quando Wissa apareceu no meio da zaga lusitana para empatar, nos acréscimos da primeira etapa, o jogo mudou de sentido. Já não era apenas Portugal deixando escapar uma vitória: era o Congo arrancando da própria história uma página inteiramente sua, reescrita com orgulho, sem apagar a memória.

 



 











O país que um dia foi reduzido a uma piada de cobrança de falta voltou ao Mundial e saiu de campo de cabeça erguida. Desta vez, em vez da bola, chutou o favoritismo para longe.

 

 

 

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário, criador do De Letra na Copa

e entusiasta da República Democrática do Congo

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