sexta-feira, 5 de junho de 2026

Copa 2026 • Grupo J • Argélia

Por que Ninguém Deveria Querer Enfrentar a Argélia?















Instruções de Sobrevivência para o Grupo J


Prezados comandantes, este não é um texto de turismo sobre as belezas do Norte da África ou sobre as ruínas romanas de Tipasa. É um aviso de utilidade pública. Se vocês olharam para o sorteio do Grupo J da Copa de 2026 e pensaram: "Ufa, demos sorte de pegar a Argélia do pote 2", parabéns. Vocês acabaram de cometer o erro mais clássico, arrogante e perigoso da história dos mundiais. Saibam que a Argélia não cabe no mapa, não cabe em prognósticos fáceis e, definitivamente, não cabe no papel de coadjuvante. Vocês foram avisados.


Alô, Áustria: a história não prescreveu


Vamos começar pelos europeus do grupo. Ralf Rangnick, abra os olhos. Vocês acham que 1982 ficou no passado? O "Pacto de Não-Agressão de Gijón" (aquela presepada vergonhosa em que a Áustria e a Alemanha Ocidental tocaram bola de lado para classificar as duas e eliminar os argelinos) mudou as regras da FIFA para sempre, obrigando a última rodada a ser simultânea. Mas não mudou a memória de Argel.

 



 











A Argélia não entrará em campo contra europeus apenas para jogar bola. Vai, além disso, cobrar dívidas históricas com juros, correção monetária e uma dose cavalar de orgulho ferido. Se tiverem dúvidas, liguem para os alemães e perguntem sobre as oitavas de final de 2014 em Porto Alegre. A Alemanha precisou suar sangue na prorrogação para não cair diante das Raposas do Deserto. O futebol argelino, portanto, se alimenta do rancor transformado em arte. E adivinhem quem cruzou o caminho de vocês de novo?

 



 












O Camaleão de Petkovic


Se vocês esperam encontrar uma seleção desorganizada, dependente apenas do brilho individual ou traumatizada por ter batido na trave nas últimas eliminatórias, esqueçam. A era Djamel Belmadi e o título da CAN de 2019 viraram fumaça. Quem dá as cartas agora é Vladimir Petkovic. E ele sabe exatamente como armar uma armadilha: a França, eliminada pela Suíça dele na Eurocopa, que o diga.

Petkovic recebeu um elenco fascinante. Esqueçam a dependência exclusiva de velhos heróis; a Argélia atual é a mistura da rigidez tática europeia assimilada pelos jovens da diáspora que escolheram honrar suas raízes, combinada com a malandragem e a rebeldia das ruas argelinas.

O amistoso preparatório contra a Holanda em Roterdã, inclusive, já entregou o roteiro: esse time sabe sofrer sem a bola, tem uma transição em velocidade que pune qualquer erro e não se assusta com camisas pesadas. É um camaleão competitivo.




 










O caos de Kansas City aguarda o campeão

 

A tabela foi cruel, ou deliciosamente cinematográfica, e colocou a sua Argentina logo na estreia da Argélia, né, Scaloni? O palco? O ensurdecedor Arrowhead Stadium, em Kansas City. Para qualquer seleção dita "média", enfrentar Messi e companhia no estádio mais barulhento do planeta seria um pesadelo logístico e psicológico. Para os argelinos? É o habitat natural.

Eles adoram o papel de estraga-prazeres. Adoram o silêncio que se forma no estádio adversário quando o plano deles dá certo. Se vocês argentinos acham que vão desfilar em Kansas com o favoritismo debaixo do braço, vão descobrir que a marcação argelina morde mais que o vento do Saara e que o talento de sua nova geração não respeita heráldica futebolística. Se a Argentina não acelerar o jogo, vai cair no nó tático de Petkovic, viu, Scaloneta?
















O Veredicto


Portanto, senhores Scaloni, Rangnick e companhia: preparem os coletes à prova de surpresas. O maior país em território da África não veio para a América do Norte para tirar fotos ou trocar camisas no final do jogo. No Grupo J, a Argélia é o verdadeiro fantasma na máquina.

Quem bobear vai assistir ao resto da Copa pela televisão. Estão avisados. 

 














ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)









HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)



 

Rafael Bauer (POPERA)

Professor Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais (Brasil e Rússia)



Para ler sobre a Argentina, de Duda, clique aqui



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