Por que Ninguém Deveria Querer Enfrentar a Argélia?
Instruções de Sobrevivência para o Grupo J
Alô, Áustria: a história não prescreveu
Vamos começar pelos europeus do grupo. Ralf
Rangnick, abra os olhos. Vocês acham que 1982 ficou no passado? O "Pacto
de Não-Agressão de Gijón" (aquela presepada vergonhosa em que a Áustria e
a Alemanha Ocidental tocaram bola de lado para classificar as duas e eliminar
os argelinos) mudou as regras da FIFA para sempre, obrigando a última rodada a
ser simultânea. Mas não mudou a memória de Argel.
A Argélia não entrará em campo contra europeus
apenas para jogar bola. Vai, além disso, cobrar dívidas históricas com juros,
correção monetária e uma dose cavalar de orgulho ferido. Se tiverem dúvidas,
liguem para os alemães e perguntem sobre as oitavas de final de 2014 em Porto
Alegre. A Alemanha precisou suar sangue na prorrogação para não cair diante das
Raposas do Deserto. O futebol argelino, portanto, se alimenta do rancor
transformado em arte. E adivinhem quem cruzou o caminho de vocês de novo?
O Camaleão de Petkovic
Se vocês esperam encontrar uma seleção
desorganizada, dependente apenas do brilho individual ou traumatizada por ter
batido na trave nas últimas eliminatórias, esqueçam. A era Djamel Belmadi e o
título da CAN de 2019 viraram fumaça. Quem dá as cartas agora é Vladimir
Petkovic. E ele sabe exatamente como armar uma armadilha: a França, eliminada
pela Suíça dele na Eurocopa, que o diga.
Petkovic recebeu um elenco fascinante. Esqueçam a
dependência exclusiva de velhos heróis; a Argélia atual é a mistura da rigidez
tática europeia assimilada pelos jovens da diáspora que escolheram honrar suas
raízes, combinada com a malandragem e a rebeldia das ruas argelinas.
O amistoso preparatório contra a Holanda em
Roterdã, inclusive, já entregou o roteiro: esse time sabe sofrer sem a bola,
tem uma transição em velocidade que pune qualquer erro e não se assusta com
camisas pesadas. É um camaleão competitivo.
O caos de Kansas City aguarda o campeão
A tabela foi cruel, ou deliciosamente
cinematográfica, e colocou a sua Argentina logo na estreia da Argélia, né, Scaloni? O palco? O
ensurdecedor Arrowhead Stadium, em Kansas City. Para qualquer seleção dita
"média", enfrentar Messi e companhia no estádio mais barulhento do
planeta seria um pesadelo logístico e psicológico. Para os argelinos? É o habitat natural.
Eles adoram o papel de estraga-prazeres. Adoram o
silêncio que se forma no estádio adversário quando o plano deles dá certo. Se vocês argentinos acham que vão desfilar em Kansas com o favoritismo debaixo do
braço, vão descobrir que a marcação argelina morde mais que o vento do Saara e
que o talento de sua nova geração não respeita heráldica futebolística. Se a
Argentina não acelerar o jogo, vai cair no nó tático de Petkovic, viu, Scaloneta?
O Veredicto
Portanto, senhores Scaloni, Rangnick e companhia:
preparem os coletes à prova de surpresas. O maior país em território da África
não veio para a América do Norte para tirar fotos ou trocar camisas no final do
jogo. No Grupo J, a Argélia é o verdadeiro fantasma na máquina.
Quem bobear vai assistir ao resto da Copa pela televisão. Estão avisados.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)
Rafael
Bauer (POPERA)
Professor
Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da
Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais
(Brasil e Rússia)
Para ler sobre a Argentina, de Duda, clique aqui








Nenhum comentário:
Postar um comentário