domingo, 14 de junho de 2026

2026 | Pra Lá de Marrakesh







No dia 16 de junho de 1998, no Stade de la Beaujoire, em Nantes, a Seleção Brasileira de Futebol fez 1 a 0 logo aos 2min, com Leonardo, mas o lance foi anulado por impedimento. Aos 4, Bebeto finalizou para fora — e também estava impedido. Aos 6, Cafu chegou à linha de fundo e cruzou; assustado, o zagueiro mandou para escanteio. Aos 7, Rivaldo tentou do meio do campo, mas a bola subiu demais. Aos 8, o próprio Rivaldo encontrou Ronaldo atrás da defesa marroquina: sem dominar, apenas ajustando o corpo, o Fenômeno bateu cruzado da entrada da área e, aí sim, fez 1 a 0. O Brasil ainda marcaria o segundo aos 46min do 1° tempo e o terceiro aos 5 da etapa final. Naquele 16 de junho, pela fase de grupos da Copa da França, o Brasil massacrou o Marrocos.

 



 









28 anos depois, o jogo começou pelo avesso da mesma história. Se em 1998 o Brasil precisou de 8 minutos para transformar a pressão em gol, ontem foi a Seleção que passou o início tentando entender o jogo. Marrocos não entrou em campo como a vítima de outrora; pelo contrário, disputou cada bola como se cada dividida fosse uma oração e botou o Brasil na roda. O meio-campo se perdeu na marcação, Casemiro ficou pendurado com o amarelo, a bola queimou nos pés de Paquetá e o Brasil parecia perdido em campo.

A primeira chance veio só aos 13min, quando Igor Thiago errou a cabeçada, e a Seleção até começou a se soltar. Mas, aos 20min, Mazraoui acelerou o contra-ataque, Brahim Díaz lançou Saibari entre os dois zagueiros brasileiros e o camisa 11, aproveitando a saída atabalhoada de Alisson, tocou por cobertura. Detalhe: três anos antes, outro quase homônimo, Abdelhamid Sabiri, havia marcado o gol da vitória marroquina sobre o Brasil em um amistoso. Era o prenúncio.

 



 










Como dito, a Seleção melhorou. Aos 31min, Vini Júnior mostrou aos marroquinos aquilo que o Brasil ainda tem de melhor: o talento. O camisa 7 recebeu de Bruno Guimarães, puxou para dentro em sua jogada mais típica e bateu forte, sem chance para Bounou. O gol acalmou o Brasil, que passou a respirar melhor no jogo e ainda viu Paquetá, depois de um início em que a bola queimou no pé, crescer antes do intervalo. No fim do primeiro tempo, ele quase virou a partida em um voleio defendido por Bounou.

Na etapa final, com as entradas de Luiz Henrique e Matheus Cunha, a Seleção equiparou de vez o confronto e tomou conta do campo. Na melhor chance do 2° tempo, aos 77min, Cunha lançou Vini, que tocou para Raphinha bater no centro do gol. Mas a Copa não permite distrações, nem quando o jogo parece controlado: nos acréscimos, El Aynaoui arriscou de fora da área, a bola parecia ir para fora, Alisson foi nela mesmo assim e ainda precisou salvar o rebote para evitar que o fim do jogo virasse uma tragédia.

No fim, o empate saiu de bom tamanho para o que se viu. Ancelotti certamente esperava uma estreia melhor, mas a teimosia também faz parte do seu pacote. Enquanto Endrick não tiver uma chance real nesta Copa, o futebol do Brasil continuará sendo qualquer coisa.

 



 

 

 









Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário, criador do De Letra na Copa

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