O Grito das Colinas
I) O Peso das Colinas
A Escócia é a terra do uísque, e isso não é um
detalhe pitoresco, é parte da alma do país. Foi ali que os monges destilaram
pela primeira vez o que chamavam de uisge beatha, a água da vida, e foi ali que
aquele líquido âmbar virou linguagem, identidade e teimosia engarrafada.
Cada região guarda o seu caráter no malte. O turfado e quase medicinal de
Islay, o suave das Highlands, o frutado de Speyside e em cada gole há fumaça,
sal e uma paciência que se mede em décadas dentro de barris de carvalho. Um
escocês não bebe uísque para esquecer. Bebe para lembrar, e talvez essa mesma
capacidade de esperar o tempo necessário, de deixar as coisas amadurecerem no
escuro até ficarem prontas, explique a relação esquisita do país com a sua
seleção de futebol.
Porque há uma dor que só um escocês conhece, e ela
não tem nome em nenhum idioma do mundo, nem mesmo no gaélico que os avós
sussurravam ao olhar para as colinas cobertas de urze nas manhãs de setembro. É
uma dor feita de orgulho, de raiva e de amor irracional por um pedaço de terra
que o tempo e os impérios tentaram dobrar e nunca conseguiram quebrar. É essa
dor que pulsa no peito toda vez que a seleção entra em campo, e foi ela que se
transformou em outra coisa quando a Escócia terminou em primeiro lugar do Grupo
C e garantiu sua vaga num Mundial desde 1998. Quase trinta anos de ausência. Dá
para crescer, casar e ter filhos no intervalo entre uma Copa e outra, e muita
gente cresceu.
Para entender o tamanho disso, é preciso lembrar
que a Escócia é um país que aprendeu a amar perdendo. William Wallace arrancou
a ponte de madeira em Stirling Bridge, em 1297, uma vitória que ninguém
esperava de um exército mal equipado. Robert Bruce se escondeu numa caverna
enquanto seu país ardia e voltou para vencer em Bannockburn, em 1314. Depois
veio Culloden, em 1746, e ali o mundo dos clãs das Highlands acabou de vez, com
o kilt e a gaita proibidos, e o próprio gaélico empurrado para a margem. Tentaram
apagar um povo inteiro e quase deram conta. As Highland Clearances do século
seguinte expulsaram comunidades das terras onde viviam havia gerações, porque
ovelha dava mais lucro do que gente. É esse peso todo que vai junto da camisa
azul escura, sem ninguém precisar falar nada sobre isso no vestiário.
II) A Estrada para Hampden
A classificação não foi tranquila, e ainda bem,
porque uma classificação tranquila escocesa seria suspeita. A Escócia caiu no
Grupo C com Dinamarca, Grécia e Bielorrússia, e começou cautelosa, com um
empate sem gols contra os dinamarqueses no Parken. Depois a coisa engrenou.
Veio o 2 a 0 sobre a Bielorrússia, a primeira vitória, e logo um 3 a 1 sobre a
Grécia, com gols de Ryan Christie, Lewis Ferguson e Lyndon Dykes. O time não
dependia de um craque. Foram nove goleadores diferentes ao longo das eliminatórias,
ninguém marcando mais do que dois, o que diz tudo sobre como aquela seleção
funcionava.
E então, claro, o susto. Depois de mais uma vitória
sobre a Bielorrússia, a Escócia perdeu para a Grécia na penúltima rodada, e foi
uma derrota burra, do tipo que reabre feridas antigas e faz a imprensa inglesa
começar a escrever obituário com um sorriso de canto de boca. A vaga direta,
que parecia no bolso, de repente pendia do último jogo. Em casa, contra a
Dinamarca. Hampden lotou naquela noite com a tensão de um povo que conhece o
gosto da decepção melhor do que gostaria e que, daquela vez, simplesmente não
estava disposto a engolir mais uma.
O que aconteceu ali vai ser contado nos pubs por
trinta anos. Num jogo elétrico, a Escócia venceu por 4 a 2 e terminou em
primeiro do grupo, sem repescagem, acima de dinamarqueses, gregos e
bielorrussos. Foi um chute de bicicleta de Scott McTominay que abriu caminho,
daqueles gols que parecem ensaiados, mas que ninguém ensaia. Quando o árbitro
apitou o fim, o estádio não comemorou o placar. Comemorou a espera inteira, os
que esperaram a vida toda e morreram antes de ver, os pais que levaram os
filhos sem nunca terem ido eles próprios. Hampden chorou e não foi de tristeza.
III) A Convocação e os Protagonistas
A convocação virou assunto nacional, e com motivo. Steve Clarke, há sete anos no cargo e o homem que transformou a Escócia em frequentadora de torneio grande, anunciou os 26 nomes para o primeiro Mundial desde a França de 98. A lista junta veteranos calejados, como o goleiro Craig Gordon e os zagueiros Grant Hanley e Scott McKenna, com a base que segura o time de pé, Andy Robertson e Kieran Tierney pelos lados, John Souttar e Jack Hendry no miolo da defesa. Nada de aposta romântica em garotos de dezoito anos. Clarke confia em quem ele conhece.
A tática é a obra que Clarke foi montando peça por peça ao longo dos anos. Três zagueiros, em geral num 3-4-2-1 que estica ou recolhe conforme o adversário, com a defesa de três dando lastro, os alas cobrindo o campo de ponta a ponta e dois meias mais adiantados abastecendo o centroavante. É um futebol que pensa antes de correr, organizado, que não tem vergonha de sofrer quando precisa sofrer e que prefere a disciplina coletiva ao improviso. Não é bonito o tempo todo, mas funciona. E contra time grande funciona ainda melhor.
No miolo de tudo estão os jogadores que resolvem. McTominay, do Napoli, virou o símbolo da geração, o cara que aparece na hora que pesa e que saiu das eliminatórias como um dos mais decisivos. John McGinn corre, briga, marca e faz a torcida amá-lo sem condições. Christie e Ferguson dão equilíbrio e bom passe ao meio. Lá na frente, Ché Adams e Lyndon Dykes oferecem caminhos diferentes para o gol, um mais móvel, o outro mais bruto. E na esquerda, de braçadeira, Andy Robertson, que vence quase tudo o que há para vencer num clube e que sabe, melhor do que ninguém, o que esta camisa específica vale.
IV) A Expectativa
Aí veio o sorteio, e a história resolveu rimar de
um jeito quase de mau gosto. A Escócia caiu no Grupo C com Brasil, Marrocos e
Haiti, praticamente o mesmo grupo de 1998, quando pegou esses mesmos
brasileiros e marroquinos. É um grupo pesado, com o pentacampeão e com um
Marrocos que foi à semifinal em 2022. A estreia é contra o Haiti, e nesse jogo
não tem conversa, é vencer ou começar a fazer as contas da eliminação já na
primeira rodada. O calendário joga a Escócia em Boston e depois em Miami, sob
um sol que não tem absolutamente nada a ver com aquele novembro nas Highlands.
A expectativa é pequena e enorme ao mesmo tempo, e
essa contradição é bem escocesa. A Escócia nunca passou da fase de grupos de
uma Copa, nunca, em nenhuma das edições anteriores. Num torneio de 48 times, em
que até o terceiro do grupo pode avançar, passar pela primeira vez deixou de
ser fantasia e virou meta concreta. Seria mais do que um resultado. Seria
enterrar uma maldição que já dura tempo demais. Ninguém exige o impossível por
aqui, mas é exatamente o impossível que todo escocês fica imaginando antes de
dormir.
Os clãs tinham uma frase em gaélico, “Buaidh no
Bàs”, vitória ou morte. Os jogadores de hoje não são guerreiros do século XVII,
obviamente, mas algo daquela recusa de fazer menos do que o máximo apareceu no
caminho até a vaga. As colinas continuam onde sempre estiveram, com o vento
cortando em novembro e a urze roxa em setembro, indiferentes a placares. Só que
agora carregam uma história nova ao lado das antigas. Dê no que der na América,
aquela noite em Hampden já bastou para o que importava. A Tartan Army vai
atravessar o oceano de qualquer jeito, com kilt e cachecol no calor de junho,
cantando alto, lembrando ao mundo que a Escócia segue aqui.
ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)
HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)







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