Como se o futebol gostasse de espelhos, África do
Sul e México fizeram uma espécie de jogo de volta, 16 anos depois de abrirem a
Copa de 2010. Desta vez, contudo, os ventos da globalização desenharam outro
enredo. O primeiro gol do Mundial nasceu dos pés de Julián Quiñones, um
colombiano naturalizado mexicano, reflexo daquela que já é considerada a Copa
com o maior número de atletas nascidos fora dos países que defendem. Esse novo
mapa do futebol deixa ainda mais isoladas as raras seleções que seguem sem nenhum
jogador nascido fora de suas fronteiras — oito, no total, entre elas o Brasil.
Não foi surpresa ver o México tomar as rédeas da
partida desde o início. Menos ainda ver Quiñones como protagonista. Artilheiro
da Saudi Pro League pelo Al Qadsiah, com 33 gols — à frente até de Cristiano
Ronaldo—, o camisa 16 precisou de apenas 9 minutos para inaugurar a Copa. A
defesa sul-africana bobeou, a bola sobrou limpa para ele chutar forte, por
entre as pernas do goleiro Williams. O domínio mexicano foi absoluto no
primeiro tempo, e o próprio Quiñones quase aumentou a vantagem em um chute na
trave.
Se a primeira etapa foi de Quiñones, a segunda foi
de Raúl Jiménez. O atacante, que anos atrás lutou pela própria vida após uma
grave fratura craniana, provou que o destino às vezes recompensa os
persistentes. Aos 35 anos, com a mesma cabeça que quase o tirou do futebol,
subiu para selar o placar e transformar o gol em redenção — o primeiro dele em
Copas do Mundo.
Mas nem só de glórias vive o futebol. O espetáculo
ganhou contornos de comédia pastelão com a arbitragem de Wilton Pereira
Sampaio, primeiro brasileiro a apitar uma abertura de Copa. Conhecido pelo
pulso firme, ele distribuiu três cartões vermelhos na partida — o primeiro
hat-trick em um jogo inaugural de Mundial. Em uma das expulsões mais bizarras
da noite, Wilton tentou explicar a decisão em inglês para a transmissão,
enquanto um jogador sul-africano ao lado parecia não entender absolutamente
nada. A cena viralizou, mas deixemos o meme para as redes: no velho
Azteca, até a arbitragem encontrou um jeito de entrar para a história.
Do futebol-arte de Pelé à redenção de Raúl Jiménez, o Azteca provou de novo que é muito mais do que um estádio de concreto. É um teatro vivo onde o trágico, o histórico e o cômico se misturam, lembrando que o futebol muda suas regras e suas fronteiras, mas nunca perde a alma.
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário,
criador do De Letra na Copa




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