sábado, 20 de junho de 2026

2026 | Tempo Perdido

 







Em 2004, o Haiti enfrentava um dos momentos mais difíceis de sua história recente, mergulhado em uma crise política, após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide, além de extrema pobreza. Durante a presença brasileira na missão de paz da ONU, o então primeiro-ministro haitiano, Gérard Latortue, expressou o sentimento do país com uma frase que se tornou um símbolo: “O Brasil deveria ter enviado a Seleção, não soldados”. Assim nasceu o Jogo da Paz. A delegação brasileira chegou a Porto Príncipe apenas duas horas antes da partida e seguiu em carros blindados até o estádio. A Seleção foi acompanhada por milhares de haitianos nas ruas, motivados menos pelo protocolo e mais pela paixão por uma camisa que, naquele dia, prometia alguns minutos de alegria a um país ferido. 

Em campo, o Brasil tratou a partida com a seriedade que a história pedia. No Jogo da Paz, a Seleção foi para o intervalo com dois gols de Roger e uma pintura de Ronaldinho Gaúcho, depois de um drible à la Zidane. Entre 2004 e 2026, mudaram o palco e o peso do jogo, mas o intervalo repetiu a mesma fotografia: Brasil 3 a 0. Naquele dia, porém, o time voltou para completar a goleada, que terminou em 6 a 0, com mais dois de Ronaldinho e um de Nilmar. Em 2026, essa parte ficou faltando.

 



 











Há ainda um encontro mais recente entre Brasil e Haiti, pela Copa América Centenário, em 2016, e ali as coincidências parecem ainda mais provocadoras. O palco também era nos Estados Unidos, só que em Orlando. No gol brasileiro estava Alisson; Marquinhos aparecia na zaga, enquanto Casemiro começava a se firmar no meio. Todos ainda carregavam o rótulo de promessas, antes de virarem pilares de uma geração. Outra vez, o Brasil fez 3 a 0 no primeiro tempo. Na volta do intervalo, porém, vieram mais quatro gols. Placar final: 7 a 1. E, de novo, a mesma sensação incômoda ao olhar para 2026: ficou faltando alguma coisa.

 













O Brasil da Filadélfia demorou a achar o caminho contra o Haiti. Antes do gol, Raphinha balançou a rede em impedimento e, depois, perdeu outro lance que também não valeria. A conta só abriu aos 23min, numa jogada torta: Vini chutou, Cunha disputou o rebote, Delcroix tentou cortar e carimbou o pé do atacante antes de ver a bola entrar. Aos 35min, Vini lançou Cunha no contra-ataque, e o camisa 9 acertou um belo chute no ângulo de Placide. Nos acréscimos, Paquetá deu um passe de cinema para Vini arrancar nas costas da zaga e fazer o terceiro.

A Seleção voltou do intervalo como quem ainda tinha muito a dizer, mas foi deixando o jogo escapar para um roteiro diferente dos confrontos de outrora. O Brasil passou boa parte do segundo tempo rondando a área haitiana, mas criou menos do que deveria e permitiu ao adversário respirar mais do que o jogo aceitava. Aos 18min, Alisson precisou salvar uma cabeçada de Ade; logo depois, Ancelotti ouviu a torcida e chamou Endrick. O menino chegou a marcar, mas estava impedido. Dali em diante, o Haiti encontrou espaços demais para uma partida desenhada para ser goleada, enquanto o Brasil acumulava ataques sem transformar superioridade em gol.

 














O 3 a 0 nunca será pouco em uma Copa do Mundo. Mas, diante do que o primeiro tempo prometeu e do que a comparação com a história escancarava, ficou a sensação de um segundo tempo perdido.

 

 

 

 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário, criador do De Letra na Copa

e descrente da Seleção Brasileira



Nenhum comentário: