Grupo C da Copa de 2006: era o primeiro gol de Lionel Messi em Mundiais. Vinte anos depois, aquele menino que entrou no jogo com a camisa 19 se tornou o maior artilheiro da história das Copas.
Naquela tarde, Messi ainda era uma promessa
entrando pela porta dos fundos de uma goleada. Hoje, é a Copa que bate à porta
dele pedindo licença para caber em sua história. Contra a Argélia, na
estreia argentina pelo Grupo J, o camisa 10 voltou ao torneio carregando o peso
de quem já passou por quase tudo e ainda encontra um jeito de transformar cada
jogo em mais uma página da eternidade.
A história, por muito tempo, foi injusta com Messi.
Depois de perder duas Copas América seguidas, ele chegou a abandonar a seleção,
como se o peso da camisa tivesse cobrado um preço alto demais pela ausência de
títulos. Entretanto, voltou para ganhar a mesma América que perdera duas vezes
e, pouco tempo depois, conquistar o mundo. Agora, ao completar 200 jogos pela
Argentina, voltou à Copa como alguém que já não precisa provar nada — embora
siga provando.
A desconfiança, claro, sempre junto. Para muita
gente, Messi chegava a 2026 mais como um símbolo de um craque do passado,
embalado por uma rotina na MLS distante da pancadaria técnica e emocional dos
campeonatos europeus. E é justamente aí que Messi mais incomoda: quando tentam
medir sua grandeza pelo campeonato em que joga e esquecem que a Copa costuma
obedecer a outro calendário: o dele.
O jogo também teve seu próprio roteiro de sustos
antes de virar uma noite histórica. Aos 5min, Messi balançou a rede, mas o
impedimento adiou a festa. Aos 8min, a Argélia respondeu na mesma moeda: gol
anulado e um recado. A partida só encontrou seu dono aos 17min, quando Messi
marcou para valer e ficou a dois gols de Klose na artilharia geral das Copas.
Mais do que isso: ultrapassou Pelé e se tornou o jogador com mais participações
em gols na história dos Mundiais: 22, com 14 gols e 8 assistências em 27 jogos
— Pelé somou 21 em apenas 14 partidas. Aos 32min, porém, Messi escapou de uma
punição mais dura após uma entrada por trás em Mandi. O lance pedia cartão, mas
a arbitragem fez vista grossa — reservada aos deuses da bola.
A Argentina já tinha o jogo nas mãos, mas a Argélia
ainda tentava arrancar algum lampejo para brigar pelo placar. Percebendo essa
possibilidade, o técnico Scaloni trocou Almada e Lautaro por Nico e Julian
Álvarez, o que trouxe mais marcação ao time. Pouco tempo depois, no rebote
do chute de McAllister, Messi só empurrou para as redes e ficou a um gol de
Klose. Era o 15º gol do craque argentino
em Copas, igualando-se a Ronaldo Fenômeno.
Mas ele queria mais. Queria alcançar Klose na
artilharia das Copas e assinar seu primeiro hat-trick em Mundiais. E, para
Messi, querer ainda é uma forma de mandar no jogo. Aos 30min do 2º tempo, puxou
o contra-ataque e entregou para Nico, que entendeu a cena antes de ela
acontecer e devolveu no tempo certo. O camisa 10 ajeitou o corpo e deu um tapa
no canto do goleiro argelino: 3 a 0. A dez minutos do fim, saiu para a entrada
de Otamendi debaixo de uma enxurrada de aplausos — entre eles, os deste cronista
que vos fala. E, quando a partida acabou, já não era apenas a estreia da
Argentina na Copa. Era a noite em que o passado e o presente se encontraram no
mesmo pé esquerdo, que há 20 anos transforma o futebol em um espetáculo.
Marcelo
Martensen (MILAN)
Publicitário,
criador do De Letra na Copa
e fã
incondicional de Messi






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