segunda-feira, 8 de junho de 2026

Copa 2026 • Grupo K • Uzbequistão

 O Uivo Azzurro



Há vinte anos, Fabio Cannavaro levantava a Copa do Mundo, em Berlim, como capitão da Itália, com aquela autoridade rara de um zagueiro capaz de enxergar a jogada antes mesmo que o atacante tivesse qualquer ideia. Duas décadas depois, o futebol resolveu escrever uma de suas ironias mais refinadas: a Itália, tetracampeã e novamente ausente do Mundial, vai assistir de fora, enquanto o seu capitão de 2006 entra pela porta lateral da história vestindo outra pele, agora como comandante dos Lobos Brancos.

 



 











O Uzbequistão chega à Copa como um daqueles personagens que o público jura não conhecer, mas que já vinha se preparando havia anos fora do centro do mapa. Vive na Ásia Central, entre paisagens de estepe e cidades de nome antigo, em uma região marcada pela velha Rota da Seda e pela memória de caminhos que sempre ligaram mundos distantes.

Cannavaro entra nessa história como o italiano que não conseguiu levar a Itália à Copa, mas encontrou uma Copa na qual a Itália não estará. A frase parece uma piada cruel, mas também explica a força simbólica do encontro. O Uzbequistão não contratou apenas um técnico estrangeiro; contratou uma memória viva do Mundial, alguém que conhece o peso de um torneio curto e sabe que não há espaço para ingenuidade.

Dentro de campo, o nome que melhor conversa com Cannavaro é Abdukodir Khusanov, zagueiro do Manchester City e símbolo de uma geração uzbeque que já não parece deslocada entre os grandes. Ele lembra o técnico menos pela aparência do que pela maneira de defender: antecipa o lance como quem já sabe onde o perigo vai nascer.

O desafio é evidente: estreante em Copa joga contra o adversário e contra a própria vertigem. É aí que Cannavaro pode ser útil, não como milagreiro, mas como alguém que já sentiu o peso de um Mundial e sabe que a primeira obrigação de uma seleção pequena é entrar em campo sem pedir licença.

 



 









Se a Itália ficou fora, Cannavaro encontrou outro modo de voltar ao Mundial. Ele não levará a nostalgia de 2006 como relíquia, mas a experiência de quem já entendeu a Copa por dentro. Agora estará entre os Lobos Brancos, numa seleção que aprende a caçar em território novo e carrega para a Copa uma certeza antiga: quem atravessa a estepe em silêncio não pede passagem; escolhe o caminho.

 
















ESQUEMA TÁTICO (clique para ampliar)









HISTÓRICO EM COPAS (clique para ampliar)

 



 Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário, editor do De Letra na Copa

e cartógrafo de seleções que ninguém sabe onde ficam



Para ler sobre a República Democrática do Congo, de Peru, clique aqui 

Nenhum comentário: