sexta-feira, 26 de junho de 2026

2026 | A Colheita da Pequeñita








Há rodadas que parecem escritas por um roteirista de fé. A última do Grupo E foi uma delas. A Alemanha já dormia classificada em primeiro lugar e podia poupar suor. Atrás dela, três seleções faziam suas preces: a Costa do Marfim queria só um ponto para passar de fase; o Equador, à beira do abismo depois de cair na estreia e surpreendentemente empatar com a estreante Curaçao, precisava domar a tetracampeã; e o minúsculo Curaçao, a menor nação a pisar numa Copa, sob a batuta do longevo Dick Advocaat (o técnico mais velho da história do torneio, com 78 anos), pedia um milagre. Dois palcos simultâneos, um só cântico ecoando das arquibancadas, em idiomas diferentes e sentimentos iguais: "¡Sí, se puede!"

Quem semeia perseverança, cedo ou tarde, colhe. E poucos semearam tanto quanto este Equador. Desde que Sebastián Beccacece assumiu, em 2024, um único time havia derrubado “La Tri”: justamente os Elefantes, na estreia deste Mundial, encerrando uma invencibilidade de 19 jogos.

O destino, irônico e generoso, guardou a forra para a noite mais improvável. No MetLife esgotado (80.663 pagantes, marca que ajudou a Copa a bater o recorde histórico de público) e pintado de amarelo por uma multidão de fiéis em festa, a Alemanha abriu o placar em 120 segundos, com Sané, num lance de pé alto não revisado.

Parecia o roteiro de sempre. Mas o Equador, primeiro país do mundo consagrado ao Sagrado Coração de Jesus, abençoado pela Virgen del Quinche, a doce "Pequeñita", não deixou morrer a esperança. Aos nove minutos, Nilson Angulo desferiu uma improvável bomba de fora da área para empatar.

A Alemanha de Nagelsmann, insossa e irreconhecível, empurrava o relógio e o empate conveniente. Contudo, os mais de 50 mil equatorianos no estádio empurravam o time, em uníssono, com um persistente cântico: “¡Sí, se puede! ¡Sí, se puede!” Sua fé foi testada até os 32 do segundo tempo, quando, num escanteio mal calculado por um Neuer fora de sintonia, Gonzalo Plata, que vinha mal na partida, cravou o gol de ouro.

 



 









A salvação veio, inspirada no versículo bíblico presente em Gálatas 6:9 – “Não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo colheremos, se não desfalecermos".

 






A Herança Colhida


Já na Filadélfia, os Elefantes mostraram o alcance de sua tromba cedo, com Nicolas Pépé sendo destaque ao anotar os dois tentos da equipe, exorcizando qualquer fantasma caribenho.

Destaca-se ainda a boa atuação da ousada e simpática seleção de Curaçao, que chutou mais à gol, fazendo brilhar novamente o paredão marfinense Eloy Room, além de mostrar falta de pontaria e de experiência.

O jogo, de modo geral, foi movimentado e interessante. Porém, o momento áureo desse encontro ocorreu ao apito final, em que todos os jogadores marfinenses se abraçaram, caindo de joelhos, em oração e celebração.

Não era para menos. Tratava-se da colheita de uma semente antiga: a geração de ouro de Drogba e dos irmãos Touré encantou o início do século, mas nunca passou da fase de grupos. Esta seleção, sua herdeira mais discreta, fez o que os mestres não conseguiram: levou o país, terra da Basílica de Yamoussoukro (a maior igreja do mundo), enfim, à fase eliminatória. Quem plantou, colheu.

 



 











No fim, a Alemanha, mesmo com a derrota, avança em primeiro, mas devendo futebol para o mata-mata; a Costa do Marfim, por sua vez, passa em segundo, encarando a pedreira vice-campeã do Grupo I (França ou Noruega), em Dallas, no dia 30; já o Equador segue vivo, classificado entre os melhores terceiros, de cabeça erguida e com a fé renovada; e Curaçao volta para casa pequena no mapa, mas gigante na história.

 

 

 

Rafael Bauer (POPERA)

Professor Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais (Brasil e Rússia)

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