Quem semeia perseverança, cedo ou tarde, colhe. E
poucos semearam tanto quanto este Equador. Desde que Sebastián Beccacece
assumiu, em 2024, um único time havia derrubado “La Tri”: justamente os
Elefantes, na estreia deste Mundial, encerrando uma invencibilidade de 19
jogos.
O destino, irônico e generoso, guardou a forra para
a noite mais improvável. No MetLife esgotado (80.663 pagantes, marca que ajudou
a Copa a bater o recorde histórico de público) e pintado de amarelo por uma
multidão de fiéis em festa, a Alemanha abriu o placar em 120 segundos, com
Sané, num lance de pé alto não revisado.
Parecia o roteiro de sempre. Mas o Equador,
primeiro país do mundo consagrado ao Sagrado Coração de Jesus, abençoado pela
Virgen del Quinche, a doce "Pequeñita", não deixou morrer a
esperança. Aos nove minutos, Nilson Angulo desferiu uma improvável bomba de
fora da área para empatar.
A Alemanha de Nagelsmann, insossa e irreconhecível,
empurrava o relógio e o empate conveniente. Contudo, os mais de 50 mil
equatorianos no estádio empurravam o time, em uníssono, com um persistente
cântico: “¡Sí, se puede! ¡Sí, se puede!” Sua fé foi testada
até os 32 do segundo tempo, quando, num escanteio mal calculado por um Neuer
fora de sintonia, Gonzalo Plata, que vinha mal na partida, cravou o gol de
ouro.
A salvação veio, inspirada no versículo bíblico presente em Gálatas 6:9 – “Não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo colheremos, se não desfalecermos".
A Herança Colhida
Já na Filadélfia, os Elefantes mostraram o alcance
de sua tromba cedo, com Nicolas Pépé sendo destaque ao anotar os dois tentos da
equipe, exorcizando qualquer fantasma caribenho.
Destaca-se ainda a boa atuação da ousada e
simpática seleção de Curaçao, que chutou mais à gol, fazendo brilhar novamente
o paredão marfinense Eloy Room, além de mostrar falta de pontaria e de
experiência.
O jogo, de modo geral, foi movimentado e
interessante. Porém, o momento áureo desse encontro ocorreu ao apito final, em
que todos os jogadores marfinenses se abraçaram, caindo de joelhos, em oração e
celebração.
Não era para menos. Tratava-se da colheita de uma
semente antiga: a geração de ouro de Drogba e dos irmãos Touré encantou o
início do século, mas nunca passou da fase de grupos. Esta seleção, sua
herdeira mais discreta, fez o que os mestres não conseguiram: levou o país,
terra da Basílica de Yamoussoukro (a maior igreja do mundo), enfim, à fase
eliminatória. Quem plantou, colheu.
No fim, a Alemanha, mesmo com a derrota, avança em
primeiro, mas devendo futebol para o mata-mata; a Costa do Marfim, por sua vez,
passa em segundo, encarando a pedreira vice-campeã do Grupo I (França ou
Noruega), em Dallas, no dia 30; já o Equador segue vivo, classificado entre os
melhores terceiros, de cabeça erguida e com a fé renovada; e Curaçao volta para
casa pequena no mapa, mas gigante na história.
Rafael
Bauer (POPERA)
Professor
Universitário e Doutorando da Área de Turismo. Mestre em Filosofia e Finais da
Libertadores pelo São Paulo. Viajante inveterado, com 2 Copas presenciais
(Brasil e Rússia)





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