quinta-feira, 25 de junho de 2026

2026 | O Herdeiro do Hexa

 







A última imagem de Neymar pela Seleção não foi de um drible ou de um gol: foi de dor. Naquele 17 de outubro de 2023, no Centenário, em Montevidéu, ele caiu no fim do primeiro tempo contra o Uruguai, segurando o joelho esquerdo, numa noite em que deu tudo errado: o Brasil perdeu por 2 a 0 e também perdeu seu camisa 10. Pouco mais de um mês antes, em Belém, seu último gol havia fechado a goleada por 5 a 1 sobre a Bolívia e ampliado o recorde que o colocou acima de Pelé no critério da FIFA: 79 a 77. Desde então, ficou um silêncio que só terminaria 981 dias depois.

Quase três anos se passaram, e ali estava Neymar, pela primeira vez, relacionado para um jogo da Seleção. Convocado sob suspeitas, passou os dois primeiros jogos se recuperando. Havia a expectativa de que entrasse contra o Haiti, mas a lesão na panturrilha direita ainda teimava em lembrá-lo de seus limites — as lesões voltaram a assombrar o craque em maio, durante uma partida pelo Santos. Na entrada do gramado, Ronaldinho Gaúcho deu a Neymar um abraço mais demorado, com algumas palavras de incentivo. Neymar caminhou até o banco com a expressão de quem voltava a um lugar que já não era exatamente seu.

É que a Seleção que ele reencontrou não era mais um reino parado no tempo, à espera da volta do antigo protagonista. Enquanto Neymar atravessava a própria ausência, Vini Júnior finalmente atravessava a fronteira que faltava: deixava de ser apenas o “Vini do Real Madrid” para virar um goleador em Copas. Com quatro gols, ele não apenas briga pela artilharia, mas também tenta reescrever sua relação com a Seleção.

 



 











Brasil e Escócia se enfrentaram em Miami com um retrospecto amplamente favorável aos brasileiros. Depois do empate sem gols em 1974, vieram três vitórias em Copas: 4 a 1, em 1982, 1 a 0, em 1990, e 2 a 1, em 1998. A quarta vitória começou a ser escrita logo aos 6 min, quando a pressão de Rayan, substituto de Raphinha, funcionou, McKenna errou o passe e a interceptação virou assistência. Com a calma de um artilheiro, Vini limpou o goleiro Gunn e fez o primeiro.

A defesa escocesa seguia sonolenta e, aos 21 min, Vini roubou a bola de Hendry e fez o segundo, mas o VAR achou uma falta que, sinceramente, ninguém viu. O Brasil continuou soberano, sem ser ameaçado, e, aos 44, outra boa trama de Vini e Rayan pela direita quase terminou em gol de Matheus Cunha — Hendry salvou em cima da linha. Nos acréscimos, Vini brilhou de novo: após jogada de Rayan, Cunha se atirou para cortar a saída escocesa, Bruno Guimarães ficou com a sobra e colocou a bola, com precisão, na cabeça do camisa 7. Rayan ainda teve a chance do terceiro no último lance do primeiro tempo, mas limpou o zagueiro e parou no goleiro. Enquanto o Brasil sobrava, o Marrocos empatava.

 














A Escócia precisou se atirar no segundo tempo, e isso abriu ainda mais espaço para o Brasil aumentar a vantagem. Aos 5 min, Paquetá enfiou para Vini, mas o chute saiu fraco. Aos 15, a Seleção construiu por dentro: Casemiro achou Bruno Guimarães pelo meio, que invadiu a área e entregou para Matheus Cunha fazer o terceiro: 3 a 0, com o Brasil surfando nos espaços da zaga escocesa. Ainda assim, a Escócia não se entregou. Aos 18, Alisson precisou se esticar para evitar o gol de cabeça de McTominay — bela defesa. Aos 30, depois de mais uma investida escocesa, Neymar entrou.

O camisa 10 procurou o jogo por dentro e ainda arriscou um bom chute ao gol, mas a noite já tinha escolhido seu protagonista antes mesmo de ele sair do banco. O retorno importava pelo símbolo e por tudo o que Neymar ainda representa, mas o Brasil que venceu a Escócia não girou em torno da saudade. E talvez seja essa a melhor notícia para a Seleção: Neymar voltou, mas o herdeiro do hexa já estava em campo. E ele responde pelo nome de Vinícius Júnior.




 

 

 

 

 








Marcelo Martensen (MILAN)

Publicitário e criador do De Letra na Copa,

começando a acreditar na Seleção Brasileira

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